segunda-feira, 28 de junho de 2021

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (NT) - 313/?

 

À procura da VERDADE nos Evangelhos 

Evangelho segundo S. JOÃO – 8/?

 – O episódio do encontro de Jesus com a Samaritana é belo, sem dúvida. As questões que nos levanta talvez não tenham beleza nenhuma… (Repita-se a sua leitura no texto anterior).

– É!… Comecemos pelos judeus… Os judeus não se davam bem com os samaritanos, naquele tempo e, pelo tempo fora, ao longo da História, espalhados pelo mundo, em todo o lado fizeram tais judiarias que de muitas nações foram expulsos, não se vendo actualmente que não sejam eles a causa última de grande parte dos conflitos mundiais… E era deles que vinha a salvação?… (Em abono da verdade e da justiça, digamos que também é o povo que coleciona mais prémios Nóbel, em todos os domínios, da Arte à Ciência, tendo-nos dado, entre outros, um Jesus e um Einstein.)

– “O dom de Deus… a água viva… Aquele que te pede de beber…” Porque fala Jesus com a mulher do povo em linguagem que nem letrados entenderam ou… entendem? Porquê comparações de água que leva à vida eterna, se a samaritana não entendeu que água nem que vida eterna?

E mandou-lhe Jesus ir chamar o marido, sabendo Ele que o não tinha, para que ela exclamasse: “Vejo que és um profeta.”? Porque não lhe falou mais claramente quando falou da água viva para que ela O sentisse como… divino?

Novamente, palavras de não fácil entendimento… para a samaritana e… para nós: “Todos podem adorar o Pai neste monte e em Jerusalém… Nós, os judeus, sabemos quem adoramos porque a salvação vem dos judeus… Todo o que adora Deus deve fazê-lo em espírito e com verdade…” Pois, o que é adorar a Deus? E o que é adorá-Lo em espírito e com verdade?

Tanto não entendeu que a samaritana disse esperar pelo Messias para lhe explicar aquelas coisas… Não sabemos se a afirmação de Cristo: “Eu sou esse Messias” foi realmente credível para aquela mulher. É que, em boa verdade, Jesus nada explicou… Tudo deixou no ocultismo de palavras bonitas… A samaritana apenas entendeu que Cristo “adivinhara” o seu “jogo aos maridos” e que não tinha balde para lhe dar a água viva: “Nem sequer tens um balde e o poço é fundo. Donde é que tiras a água viva?”

E porque teriam ficado admirados os discípulos por encontrarem Jesus a falar com… uma mulher? Parece estranha a concepção que eles faziam de Jesus…

Ainda uma pergunta inoportuna mas talvez plena de interesse: “Se nenhum dos discípulos foi testemunha destes deliciosos mas não menos complicados diálogos, como os refere João, com tanta… “fidelidade”? Quem lhos teria contado?”

Só resta dizer que o cenário se prestaria ao… romance… Aquela mulher que já ia no sexto homem, como olharia aquele belo Jesus?… Com que olhos gulosos O desejaria?… E o Jesus-homem… que sentimentos teriam perpassado pelo seu cérebro-coração?… Como se entrelaçaria ali a dimensão humana com a dimensão divina?

Enfim, João volta a um dos seus temas preferidos para adensar o mistério: a água (já presente no suposto milagre das bodas de Caná, no diálogo com Nicodemos, na fala de João Baptista). Aqui, a água viva! É refrescante, sem dúvida, mas ficar-se-á por aí…


terça-feira, 22 de junho de 2021

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo testamento (NT) - 312/?

 À procura da VERDADE nos Evangelhos 

Evangelho segundo S. JOÃO – 7/?

 – Torna-se interessante atentar em palavras de João Baptista a respeito de Jesus, não referidas pelos outros evangelistas, causando perplexidade como é que João, com idade tão avançada - uns bons oitenta anos! - se recorda tão bem delas:

– “O que vem do Céu está acima de todos os outros, fala do que lá viu e ouviu, mas ninguém aceita o que Ele diz. Porém quem acreditar nas suas palavras confirma que Deus diz a verdade. Aquele que Deus enviou anuncia a Palavra de Deus, porque Deus Lhe dá inteiramente o seu Espírito. O Pai ama o Filho e deu-lhe poder sobre todas as coisas. Aquele que acredita no Filho tem a vida eterna. Quem não acredita no Filho não tem parte nessa vida mas sofre o castigo de Deus.” (Jo 3,31-36)

– Afinal, o que é que Jesus diz que viu e ouviu no Céu que nós não aceitamos? E acreditamos nas suas palavras porquê? E somos nós que confirmamos a Palavra de Deus? Precisa tal Palavra de ser confirmada? Deus a dar o seu Espírito ao Enviado… é o tal mistério da Trindade… Idêntico mistério é o Pai a dar ao Filho poder sobre todas as coisas. Mais inatingível ainda é ter a vida eterna aquele que acredita no Filho. E o castigo de Deus para o que não acredita, ou seja, a condenação eterna é um total nonsense de Deus…

Mas… Baptista repete muito do que Cristo dissera a Nicodemos, o que nos leva facilmente a concluir que foi João a pôr tais palavras na sua boca, já que, sem qualquer sombra de dúvida, foi ele que inventou a fala com Nicodemos.

– Descreve agora João um dos mais “belos” episódios dos Evangelhos: o encontro de Jesus, a sós, com a Samaritana… “Chegou então a uma cidade da Samaria chamada Sicar. Estava ali o poço de Jacob. Cansado da viagem, Jesus sentou-Se junto do poço. Era quase meio-dia. Nisto, chegou uma mulher samaritana para tirar água e Jesus pediu-lhe: «Dá-Me de beber.» Os discípulos tinham ido à cidade comprar mantimentos. A mulher perguntou: «Como é que tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim que sou samaritana?» De facto os judeus não se davam bem com os samaritanos. Jesus respondeu: «Se conhecesses o dom de Deus e Aquele que te pede de beber, Tu é que Lhe pedirias. E Ele dar-te-ia água viva.» Disse-lhe a mulher: «Nem sequer tens um balde e o poço é fundo! De onde vais tirar a água viva?» Jesus respondeu: «Quem bebe desta água, volta a ter sede. Mas aquele que beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede. E a água que Eu lhe der, tornar-se-á dentro dele uma fonte de água que lhe dará a vida eterna.» Pediu então a mulher: «Senhor, dá-me dessa água para que nunca mais tenha sede nem precise de vir aqui tirá-la.» Disse-lhe Jesus: «Vai chamar o teu marido.» Respondeu-Lhe a mulher: «Não tenho marido.» E Jesus continuou: «Tens razão em dizer que não tens marido, pois já tiveste cinco e o homem que agora tens não é teu marido.» A mulher disse então a Jesus: «Senhor, estou a ver que és um profeta. Os nossos pais adoraram a Deus nesta montanha. E vós, judeus, dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar.» Jesus respondeu: «Mulher, acredita em Mim. Chegou o tempo em que todos podem adorar o Pai sem ser neste monte ou em Jerusalém. Vós adorais a Deus sem O conhecerdes bem; nós os judeus, sabemos quem adoramos porque a salvação vem dos judeus. Porém chegou o tempo em que todo aquele que adora o Pai deve fazê-lo em espírito e com verdade. É assim que o Pai quer que O adorem. Deus é espírito e os que O adoram devem fazê-lo em espírito e com verdade.» A mulher disse então a Jesus: «Sei que o Messias, o Cristo, há-de vir. Quando ele vier, há-de explicar-nos todas estas coisas.» Respondeu-lhe Jesus: «Esse Messias sou Eu, que estou a falar contigo.» Nesse momento, chegaram os discípulos e ficaram admirados quando O viram a falar com uma mulher. Mas nenhum se atreveu a perguntar à mulher: «Que pretendes dele?» Ou a Ele: «Por que estás a falar com ela?» (Jo 4,1-27)

(Análise crítica no próximo texto)


quarta-feira, 9 de junho de 2021

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (NT) - 311/?

 

À procura da VERDADE nos Evangelhos 

Evangelho segundo S. JOÃO – 6/?

 – Últimas perguntas sobre o encontro de Jesus com Nicodemos:

“Se Deus-Criador existe, como verá Ele o Homem? Serão mais os que praticam o mal ou mais os que praticam o bem? Porque enviar o seu Filho único ao mundo, para salvar tal Homem? E num dado tempo (apenas há dois mil anos)… e num dado lugar… e a um dado povo que… o não recebeu… e subjugado a umas Escrituras ditas reveladas por Deus, quando mais não são que simples relatos de histórias ou de guerras ou de bons costumes e de sabedoria popular daqueles povos?”

Ah, como tudo isto se torna mais questionável face ao conhecimento que temos do Homem e da sua idade de já - ou apenas! - quatro milhões de anos, conhecimento da Terra e da evolução da vida nela, do Universo com todas as suas galáxias, das energias que tudo movem e em que tudo se move, dos confins que bem parecem infinitos deste mesmo Universo!…

Como tudo se torna questionável e quase… ridículo! Mas… que havemos de fazer? Se a nossa ânsia de Além é insaciável? Se não conseguimos aceitar-nos como seres tão limitados num tempo, desaparecendo sem nos prolongarmos para além desse tempo em que um dia fomos?… E com uma identidade que nos seja perceptível a este nosso intelecto que gostamos de chamar alma? Alma espiritual? E por isso, não corruptível com o corpo que, de matéria feito, terá de voltar ao donde veio - a mesma matéria?…

Enfim, deixemos Nicodemos entregue às suas dúvidas… Mas antes, perguntemos-lhe: “Onde estás agora Nicodemos? Foste condenado por não teres acreditado em Jesus ou… estás no Céu porque, como nós, quiseste acreditar mas só não o fizeste porque Jesus não conseguiu dar-te bases para a tua certeza, além da sua palavra que é muito, mas que… visivelmente, não chega para quem tem uma razão como nós? Ou… estás realmente no NADA para onde todos nós caminhamos inexoravelmente com o tempo que inexoravelmente não pára e não nos deixa descansar um bocadinho sequer que seja, nem atrasar-nos no nosso irreversível processo de degradação até um dia?…”

E se ainda pudesses pensar, pensarias então que afinal Jesus era ou foi um total logro, pois prometeu aquilo que não podia provar que poderia dar, ou seja, um Céu, um Pai, um Deus, uma Vida Eterna, na bem-aventurança para aqueles que… “amaram o seu próximo”, que o mesmo é amar a Deus!…

Onde realmente estás, Nicodemos? Onde? Gostaríamos tanto de saber como e… onde? Como o teu testemunho seria vital para nós! Mas… parece ser milagre - voltamos a repetir - impossível de realizar por Jesus Cristo, que tanto poder manifestou em todas as maravilhas que realizou naqueles três anos em que percorreu as terras da Palestina. É pena, não é? Para ti que certamente já não são mistérios todas estas coisas… Para nós que… continuamos a pensar que ainda, um dia, haveremos de encontrar resposta para… esses mistérios!!! Oxalá!!!

– Só falta falar no “Filho único de Deus”!… Porque haveria Deus de ter um Filho?… Ou… chamar a uma das suas manifestações Filho, à outra Pai e à outra, Espírito Santo, gerando o mistério dos mistérios, o mistério da Santíssima Trindade? Porquê tanta… confusão? Para nos confundir a nós seres racionais que preferimos a luz às trevas? A clareza à confusão? Enfim, é mais um “facto-fenómeno” que temos de aceitar… sem perceber! E cujo objectivo ou finalidade nos escapa completamente…

É que temos o direito de saber e… de perceber tal facto, tal objectivo!

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (NT) - 310/?

 

À procura da VERDADE nos Evangelhos 

Evangelho segundo S. JOÃO – 5/?

 – Para ser mais fácil a análise crítica, vamos repetir, na íntegra, o texto de João, narrando o encontro de Jesus com Nicodemos:

“«Fica sabendo que ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo. (…) Só quem nascer da água e do Espírito é que pode entrar no Reino de Deus. Quem nasce de pais humanos é apenas humano, quem nasce do Espírito é espírito. Não te admires por Eu te dizer que todos devem nascer de novo. (…) Repara bem no que te vou dizer: quando falamos é porque sabemos e quando afirmamos qualquer coisa é porque vimos, mas vós não quereis aceitar o que Eu digo. Se não acreditais quando vos falo das coisas deste mundo, como podeis acreditar quando vos falo das do Céu? Ninguém subiu ao Céu a não ser o Filho do Homem que desceu do Céu. Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja levantado para que todo aquele que acreditar nele tenha a vida eterna. Deus amou de tal modo a humanidade que lhe entregou o seu Filho único, para que todo aquele que creditar nele, não se perca mas tenha a vida eterna. Não foi para condenar o mundo que Deus lhe enviou o seu Filho mas sim para o salvar. Quem acreditar nele não é condenado, mas o que não acredita já está condenado, por não querer acreditar no Filho único de Deus. A condenação consiste nisto: Deus enviou a luz ao mundo, mas os Homens preferiram as trevas à luz porque as suas obras eram más. Os que fazem o mal detestam a luz e fogem dela para que as suas más obras não sejam descobertas. Mas os que agem conforme a verdade, aproximam-se da luz, mostrando publicamente que as suas obras foram feitas segundo a vontade de Deus.»” (Jo 3,3-21)

– E lemos e relemos estas “longas” palavras e… continuamos, tal como Nicodemos, sem entender… Continuamos sem saber o que é realmente o Reino de Deus. Nascer de novo, para uma vida nova, mais perfeita, entende-se; já não se entende é o que é nascer da água e do Espírito. Apesar de admoestado, acreditamos nas boas intenções de Nicodemos e no seu querer compreender Jesus. Nós de certeza que queríamos aceitar o que Ele diz mas… compreendendo. Se Jesus fala por enigmas como quer que O aceitemos? Como quer que O entendamos?

Pois… o que são realmente “as coisas do Céu”? Ou… o que é realmente o Céu?

E o que é o Filho do Homem descer do Céu e subir ao Céu? Onde é esse Céu donde se desce e aonde se sobe?

Mais: para quê a comparação com a serpente que Moisés levantou no deserto? O Filho do Homem precisa de ser levantado… Como? O que é “ser levantado”? E sendo levantado, as pessoas acreditam nele e têm a vida eterna? Então, basta acreditar para ter a vida eterna? O que é realmente acreditar em Jesus Cristo? É acreditar na sua mensagem que afinal não passa de amar o próximo em fraternidade universal, e que, bela embora, não passa além da Terra, ficando bem longe do inexistente Céu?

Ou… o que é realmente a vida eterna? Alguma vez Jesus no-lo explicou? No-lo disse claramente? Como quer que acreditemos sem… ver, nem entender, nem…? É que afirma que há Céu… que há vida eterna… que há Deus… que há um Filho do Homem – que o mesmo é dizer Filho de Deus, Filho Único de Deus – como verdade absoluta e inalterável e indiscutível, quando nunca apresenta fundamentos para que tais verdades sejam absolutas, inalteráveis, indiscutíveis…. É nitidamente um “dixit” de… Fé! Portanto, sem qualquer valor!

E nós bem queríamos acreditar nesse Filho único de Deus, não só para não sermos condenados mas para O apregoarmos por toda a parte, levando à salvação todos os que connosco partilhassem dúvidas… Mas, não vemos como tal seja possível, se nós que queríamos tanto acreditar não o conseguimos por falta de provas da Verdade anunciada.

É portanto uma injustiça inaceitável por parte de um Deus justo, se formos condenados por aqui publicamente declararmos que não entendemos tantas palavras enigmáticas, nem entendemos porque é que estas palavras são enigmáticas quando deveriam ser claras como a luz, para que todos vissem claramente a salvação e não tivessem de se socorrer de interpretações de “sábios” analistas que, cheios de dúvidas também eles, pouco ou nada acrescentam às nossas…

Todos nós entendemos o que é fazer o mal e o que é fazer o bem… Ao nível do humano, está claro!… Mas… o que é agir conforme a Verdade? Que verdade? E o que é agir realmente conforme a vontade de Deus? O que é a vontade de Deus? Alguém poderá ir além do “ajudar o seu irmão necessitado”?

Enfim, não deixa de ser uma afirmação, por não provada, sem qualquer valor, palavras apenas e sem sentido verosímil: “Deus amou de tal modo a humanidade que lhe entregou o seu Filho único, para que todo aquele que creditar nele, não se perca mas tenha a vida eterna.”

E já nos vamos enfadonhamente repetindo…

 

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (NT) - 309/?

 

À procura da VERDADE nos Evangelhos

Evangelho segundo S. JOÃO – 4/?

 – Mais uma vez, a questão do tempo não é questão menor: “Que fez Jesus até aos trinta anos? Estudou como homem aquilo que já sabia desde toda a eternidade como Deus? Como geriu as suas emoções, as suas paixões? Ou não as teve como homem, por imposição do seu estigma divino?” Quando nos pomos a questionar, todo o lado obscuro de um Deus feito homem ou de um homem que também é Deus, se revela com toda a confusão de que a nossa mente - limitada evidentemente - não consegue libertar-se…

– Não podemos deixar de referir a violência com que Jesus expulsa do Templo os vendedores e negociantes de gado e dinheiro, à boa moda judaica: “Fez um chicote de cordas e expulsou-os a todos do Templo, juntamente com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. E disse aos que vendiam pombas: «Tirai tudo daqui! Não transformeis a casa de meu Pai num mercado.» (Jo 2,15-16)

A que ponto os sacerdotes - os iluminados do povo! - tinham deixado degradar o Templo! Como foi possível tanto abuso!

Ou teria sido, como mais tarde acontecerá com a doença de Lázaro, para que a glória de Deus-Filho se manifestasse nesta sua fúria em proteger a casa de seu Pai?

– “Casa de meu Pai”!… Este confinar de Deus a uma casa… - permitam-nos a repetição - coloca-nos tantas dúvidas! Depois, qual é o real significado de “Pai” para Jesus? Mesmo chamando Pai a Deus – como dirá na oração do “Pai nosso” – isso não quer dizer que ele se sentisse Filho ontológico de Deus, como o fizeram mais tarde, mas apenas que acreditava que Deus era o Criador de todos os Homens.

Os judeus, claro, não ficaram contentes: “«Que sinal nos mostras para provares que tens o direito de fazer tudo isto?» Jesus respondeu: «Destruí este Templo e em três dias Eu o levantarei.» E eles disseram-Lhe: «A construção deste Templo demorou quarenta e seis anos e Tu levantá-lo-ás em três dias?» Mas o templo de que Jesus falava era o seu próprio corpo.” (Jo 2,18-21)

– Esta conclusão de João poderá não passar de… uma interpretação tardia das palavras de Jesus. Por isso, de validade reduzida ou… nula. E se era esse o significado que Jesus pretendia dar às suas palavras, como poderiam os que O escutavam entendê-Lo? E se Jesus não pretendia que O entendessem, porque falou?

Ou… porque não falou de outra maneira? É que as palavras vêm em desafio! Razões para este desafio a Jesus não faltavam: o Templo ou era casa de oração ou… mercado de negócios! Mas não se esperaria mais de um Jesus que veio salvar o que estava perdido? Não estavam estes judeus - seus irmãos na pátria - perdidos e bem perdidos? Tão perdidos que O irão matar, não certamente só porque lhes roubava seguidores mas porque realmente nunca conseguiram compreender a sua mensagem, mesmo com aquela avalanche de milagres? (Se é que os milagres aconteceram mesmo… Aliás, tivessem acontecido e não haveria judeu que não se convertesse perante tais maravilhas que só poderiam ser realizadas por um ser realmente divino…)

– O encontro de Jesus com o chefe dos fariseus Nicodemos é tremendo. Jesus não “perdoa” a Nicodemos que não compreenda o que Ele diz: “Tu és um dos mestres do povo de Israel e não sabes estas coisas?”(Jo 3,10)

– Há algo de não disfarçada ironia nesta admoestação de Jesus… Porquê? A nós, também as suas palavras nos deixam cheios de perplexidade e de dúvidas e consideramo-nos pelo menos medianamente cultos e inquisidores da Verdade, facto que, aliás, pouco importa…

Talvez, ou certamente, por dificuldade de entendimento e receio de uma reprodução não exacta das palavras de Jesus, Mateus, Marcos e Lucas omitem este encontro com Nicodemos. É que Jesus aqui excede-se em enigma e mistério:

“«Fica sabendo que ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo. (…) Só quem nascer da água e do Espírito é que pode entrar no Reino de Deus. Quem nasce de pais humanos é apenas humano, quem nasce do Espírito é espírito. Não te admires por Eu te dizer que todos devem nascer de novo. (…) Repara bem no que te vou dizer: quando falamos é porque sabemos e quando afirmamos qualquer coisa é porque vimos, mas vós não quereis aceitar o que Eu digo. Se não acreditais quando vos falo das coisas deste mundo, como podeis acreditar quando vos falo das do Céu? Ninguém subiu ao Céu a não ser o Filho do Homem que desceu do Céu. Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja levantado para que todo aquele que acreditar nele tenha a vida eterna. Deus amou de tal modo a humanidade que lhe entregou o seu Filho único, para que todo aquele que creditar nele, não se perca mas tenha a vida eterna. Não foi para condenar o mundo que Deus lhe enviou o seu Filho mas sim para o salvar. Quem acreditar nele não é condenado, mas o que não acredita já está condenado, por não querer acreditar no Filho único de Deus. A condenação consiste nisto: Deus enviou a luz ao mundo, mas os Homens preferiram as trevas à luz porque as suas obras eram más. Os que fazem o mal detestam a luz e fogem dela para que as suas más obras não sejam descobertas. Mas os que agem conforme a verdade, aproximam-se da luz, mostrando publicamente que as suas obras foram feitas segundo a vontade de Deus.»” (Jo 3,3-21)

(Análise crítica, no próximo texto, a tão enigmática dissertação)

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (NT) - 308/?

 

 À procura da VERDADE nos Evangelhos

Evangelho segundo S. JOÃO – 3/?

 – Em relação ao episódio entre Filipe, Natanael e Jesus (Jo 1,43-51), estranho, estranho é que Jesus não tenha escolhido ou chamado Natanael para seu discípulo. Razões? – Obviamente não sabemos. Talvez Jesus não tivesse “gostado” daquela de Natanael: “De Nazaré pode lá vir alguma coisa boa!”? E teria sido uma vingançazinha divina…

Mas mais estranho é que Natanael tenha exclamado, logo ali: “Tu és o Filho de Deus.”, só porque Jesus dissera que o vira debaixo da figueira antes de Filipe o chamar. Até o próprio Jesus fica algo admirado com tal rapidez, nem fazendo apelo a seu Pai como o fará mais tarde com Pedro: “Não foi a carne nem o sangue que to revelaram mas o meu Pai que está nos Céus.” (Mt 16,17)

– É! Aquela ainda não deveria ser a sua hora. E não sabemos como interpretar o “tempo” de Jesus Cristo. Durou três anos a sua pregação. Porque tanto tempo? Ou… porque tão pouco? “Deus” também estaria assim condicionado pelo tempo?

Realmente, quando nos colocamos numa perspectiva de tempo universal, custa-nos ver Deus ali confinado a um tempo, a um lugar, a um povo!… No entanto, não temos alternativa senão aceitar a narrativa. Analisando-a criticamente, claro!

– Só mais uma pergunta: O que entenderia Natanael por “rei de Israel”? Rei material ou… espiritual? É que, o que o levou a tal exclamação foi um acto de adivinhação – sobrenatural? – de Cristo que o vira debaixo da figueira…

A impressão que nos fica é que João já começou a inventar e a pôr frases na boca das personagens que vai “criando”, tenham ou não alguma veracidade histórica, para atingir os seus fins pedagógicos em relação à divinização de Jesus.

– O milagre da transformação da água em vinho, nas bodas de Caná, coloca-nos inúmeras e interessantes questões. Diz João: “A mãe de Jesus estava lá. Jesus e os seus discípulos também foram convidados. (…) Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus realizou o seu primeiro milagre. Deste modo, mostrou o seu poder divino e os discípulos acreditaram nele.” (Jo 2,11) Acreditando que foi o primeiro milagre e que também Mateus lá tenha estado, porque não o narra no seu Evangelho? Não o considerou importante? Não foi, ao ver tamanho prodígio, que também ele acreditou em Jesus? É difícil aceitar tal “histórico” esquecimento…!

– Em boa verdade, parece que só os criados, os discípulos e Maria se terão apercebido do milagre. O noivo e convidados apenas terão notado que o bom vinho fora guardado para o fim… Talvez por isso, Mateus tenha omitido o milagre que tão poucas repercussões tivera…

– “Faltou o vinho e a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Já não têm vinho.» Jesus respondeu: «Mulher, que temos nós a ver com isso? A minha hora ainda não chegou.» (Jo 2,3-4) O que é certo é que fez o milagre, embora a sua hora ainda não tivesse chegado… Era assim tão flexível? Ou foi porque Maria, sua Mãe, lho havia pedido?

– Causa, pelo menos, estranheza, Jesus não chamar “Mãe” a Maria. Porque diz “Mulher” e não “Mãe”? Faz-nos lembrar a sua rebeldia e quase insolência quando aos doze anos, ficando no Templo, diz a seus pais que O procuravam ansiosamente, por toda a parte: “Não sabíeis que tenho de Me ocupar das coisas de meu Pai? (Lc 2,49)

Ou a outra: “Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?” (Mt 12,46-50)

– É! Jesus parece não “conviver” muito bem com a sua condição de humano – um humano que tem laços familiares – e de divino simultaneamente… Aliás, qual seria a sua real percepção de tal suposto facto?

 


quarta-feira, 12 de maio de 2021

Reazar, rezar, rezar…

 

A quem aproveitam as orações que se fazem aos deuses, por esse mundo?

 A oração pertence ao campo das emoções. Logo, não se deveria analisar racionalmente. Contudo, perante a insistência de todos os gurus das religiões em apelarem à oração aos seus deuses, santos e santinhos – no caso cristão, também à Virgem Maria, dita Mãe de Deus ou do Filho de Deus! – temos de fazer algumas considerações pertinentes, seres racionais que também somos:

1 – Quem disse aos gurus religiosos que os deuses ou santos estão a ouvir as preces dos seus crentes? – Ninguém, obviamente. Puras fantasias!

2 – Mesmo que as ouvissem, que valor teriam aos seus olhos e aos seus ouvidos – se é que têm olhos para ver o crente orante e ouvidos para ouvir os seus lamentos? – Muito provavelmente, nenhum, já que cada ser humano é apenas um pontinho temporal, existente num pontinho do Universo que se chama Terra… e deuses ou santos – a havê-los num Céu infinito – teriam muito mais fantásticas realidades em que pensar e com que se “divertir” do que atender a um mísero pontinho de matéria energizada que dá pelo nome de Homem!

3 – Tudo isto pressupõe a existência inequívoca de seres superiores espirituais que de algum modo supervisionam a humanidade, o que tudo leva a crer que seja também pura fantasia de alguns ditos iluminados, fruto das suas exacerbadas emoções.

Portanto:

1 – Convidar à oração é uma monumental fraude porque induz o crente num total erro, levando-o a confiar no poder da oração, não para ele fazer o esforço necessário para obter o que deseja – seja em que campo da actividade humana for – mas no esforço dos seus deuses ou santos que o irão ajudar.

Aliás, o povo, embora mentalmente subjugado e enganado pelas crenças, diz na sua sabedoria: “Deus ajuda a quem se ajuda”; ou: “Fia-te na Virgem e não corras!” (Isto é: se não correres, serás apanhado, não haverá Virgem que te valha…)

2 – Quem tal atitude toma – dos papas, rabinos, imans, etc. até ao mais humilde servidor das ecclesias – não deixa de ser criminoso, mentiroso, falsário. Em consciência, cometem pelo menos o crime de abuso de confiança…

3 – Compreende-se que os cristãos, por excelência, acreditem no poder da oração. É que têm o seu mestre/Deus Jesus que não só orou como ensinou a orar, como se testemunha várias vezes nos evangelhos, embora estes não sejam dignos de qualquer credibilidade histórica. E ensinou o “Pai nosso”, e como fazer quando se reza, etc, etc. E ele próprio rezou: “Pai, se é possível, afasta de mim este cálice mas faça-se a tua vontade e não a minha!”, no Jardim das Oliveiras, temendo pela sua morte horrível iminente. (Aqui, pela História, o Pai fez ouvidos de mercador, não mostrando qualquer amor pelo seu Filho muito amado…). Mas Jesus parte de um princípio que não prova, logo, sem qualquer credibilidade: “Deus é Pai, é Amor e ouve os clamores dos seus filhos, os Homens.” – Uma invenção de Jesus, bonita embora, mas pura invenção da sua fértil fantasia, aliás, na senda do judaísmo que rezava a Javé, no Templo.

4 – Todos os santuários e locais de culto e de oração deveriam pura e simplemente acabar, transformando-se em locais de cultura e de civilização, já que cultos e orações são fruto da ignorância e da incivilização, incivilização imposta ao Homem por uns impostores que se servem da sua debilidade emocional para viverem à sua custa.

Então:

Diríamos que as orações só ajudam a quem as faz. Ao rezar, cada um interioriza o trabalho e esforço que tem de realizar para obter o que deseja. E vai ao médico se está doente e trata o corpo se este manqueja em algum dos seus órgãos.

Assim, rezar pelos outros é absolutamente inútil para esses outros. Salve-se algum movimento telepático ou contacto remoto electromagnético cerebral que possa de algum modo influenciar o comportamento do visado. Parecem existir casos, mas de difícil provação.

Mais uma vez, vem aí Fátima, local de culto por excelência baseado numa monumental mentira arquitectada pelo clero daquela região, durante a 1ª Grande Guerra, em 1917.

Já provámos largamente que Fátima é de veracidade impossível, mesmo como fenómeno religioso-teológico, analisado a partir de dentro. Foi isso que fizemos em uma dúzia de textos publicados aqui, de 30/5/2011 a 01/9/2011. A reler, obviamente!

Particularmente sintomático da sua falsidade é a suposta oração supostamente ensinada pela suposta Virgem supostamente aparecida às três famintas crianças e que ainda os crentes rezam hoje, aquando do terço ou do rozário: “Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno e levai as almas todas para o céu, principalmente as que mais precisarem.”

É que não há pecados que Jesus possa perdoar, nem pode livrar-nos de um fogo inexistente de um inferno também inexistente; e, a haver almas à espera de irem para o céu, é totalmente disparatado pedir que leve para esse inexistente céu as que mais precisarem. Então, o que é que faz às outras? Meu Deus, como é possível haver crentes que debitam isto, na reza do terço ou do rozário – mais duas invenções do clero da altura – sem questionarem a sua total irracionalidade! Como?

Mas aí temos peregrinos a caminho de Fátima, peregrinos crentes que fizeram promessas à Virgem, em tempos de aflição, tendo essa aflição sido colmatada com algum sucesso. Algumas, asquerosas: depois de centenas de kilómetros a pé, ainda rastejam junto à capelinha das supostas aparições e aí queimam kilos de velas, animando o comércio local, e depositam esmola nas inúmeras caixas para o efeito espalhadas dentro e fora da basílica. Um excelente negócio para a Igreja Católica: são milhões anuais! Secretos, claro, pois ninguém pode saber para onde vão esses dinheiros dados ao… “Céu”!!!