domingo, 14 de janeiro de 2018

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 161/?


À procura da VERDADE em EZEQUIEL 
2/13

- “Ele disse-me: Criatura humana, põe-te de pé que Eu vou falar 
contigo. (…) Então, pude ouvir Aquele que falava comigo. Ele 
disse-me: Criatura humana, vou mandar-te a Israel, a esse povo 
rebelde que se rebelou contra Mim. (Ez 2,1-3)
- Não deixa de ser interessante este tête-à-tête de Ezequiel com 
Deus. Pura retórica literária? Puro simbolismo? Ou algum real 
contacto com o divino, através de uma visão? O que é certo é que 
o “povo eleito de Javé”, tal como mais tarde com Jesus Cristo, não 
reconheceu Javé ou contra Ele se rebelou… Não foi grande escolha 
a de Javé! Aliás, refere logo de seguida:
- “Têm cabeça dura e coração de pedra.” (Ez 3,7)
- Então, porque os escolheste? Não haveria por esse mundo fora, 
melhor do que tal povo? Ou - como já dissemos inúmeras vezes – 
todo leva a crer que foram eles que se auto-elegeram, não havendo 
nenhuma escolha-manifestação de Deus, o Deus vivo de Jesus 
Cristo que se revelará bem diferente deste Javé, sempre ardendo 
em ira ora contra Israel que peca ora contra os inimigos de Israel 
porque o atacam.
- “As broas de cevada que comeres, serão cozidas sobre fezes 
humanas, à vista de todos. E Javé completou: É desta forma que 
a casa de Israel comerá alimento impuro no meio das nações por 
onde a espalhei. Então, eu disse: Ah! Senhor Javé, eu nunca me 
contaminei! Desde pequeno, nunca comi carne de animal morto 
de morte natural ou despedaçado por alguma fera. Até agora, 
carne estragada nunca entrou na minha boca. Javé respondeu-me: 
Está bem. Para cozeres o teu pão, deixo que uses bosta de vaca em 
vez de fezes humanas.” (Ez 4,12-15)
- Seja qual for o simbolismo deste texto, não deixa de ser 
repugnante! Não encontrou melhor Ezequiel para pôr na boca de 
Javé? Aliás, que diferença faria serem fezes de humanos ou de 
vacas? O repugnante da cena é tão sem sentido que difícil se torna 
concebe-la como inspirada!…
- “Só assim derramarei a minha ira, vou satisfazer a minha 
indignação contra eles e Me darei por satisfeito. E quando tiver 
derramado a minha ira contra eles, então ficarão a saber que Eu, 
Javé, falei, porque sou ciumento.” (Ez 5,13)
- Há quanto tempo não ouvíamos falar da ira de Javé?! E do 
seu ciúme face ao culto dos outros deuses?! Mas… não são 
castigos a mais aqueles que Javé dá ao seu “povo de cabeça 
dura e coração de pedra”? Aliás, como castigariam os outros 
deuses os seus devotos e crentes?…
- “Vou fazer vir contra vós a espada, para destruir os vossos 
lugares altos. Os vossos altares ficarão destruídos (…) Eu farei 
com que os vossos habitantes, feridos pela espada, caiam diante 
dos vossos ídolos imundos. Porei os cadáveres dos israelitas 
diante desses ídolos (…) Quando no meio de vós começar a cair 
gente morta pela espada, ficareis a saber que Eu sou Javé. (…) 
Então reconhecerão que Eu sou Javé, quando começarem a 
aparecer as vítimas da guerra no meio dos seus ídolos imundos.” 
(Ez 6)

- Parece uma luta, não entre teístas e ateus, mas entre um Javé 
ciumento e os ídolos que cativam as crenças do povo. Porquê? 
Não se deviam condenar apenas as desumanidades que o 
Homem em nome de Deus, Javé, ou qualquer outro deus, 
praticava, como o sacrifício de crianças para aplacar a ira desses 
deuses? Não é, ou não deveria ser, a religião - o ligar-se com o 
deus da sua devoção - a única verdade que deveria interessar a 
Javé e aos seus inspirados, tais os profetas? Toca o ridículo 
profundo esta luta titânica entre Javé e os ídolos. Incompreensível, 
simplesmente!

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 160/?


À procura da VERDADE em EZEQUIEL
1/13

- Diz-se na Introdução: “O profeta Ezequiel exerceu a sua actividade 
entre os anos 593 a 571 a.C. Sacerdote exilado na Babilónia, com uma 
parte do seu povo, anuncia aí as sentenças de Deus. (…) Ezequiel, 
no entanto, sabe que o sistema passado está a agonizar de maneira 
irrecuperável: Jerusalém será destruída. (…) Com a sua linguagem 
simbólica, Ezequiel indica os passos para a construção de um mundo 
novo: (…) Converter-se a Javé, assumindo o seu projecto; e, a partir 
daí, construir uma sociedade justa e fraterna, voltada para a liberdade 
e a vida.” (ibidem)
- Que belas palavras, não são? Mas…o que é isso de se converter a 
Javé? Qual é o projecto de Javé? - também já noutro lugar 
perguntámos. Uma sociedade justa e fraterna tem de ser “dirigida” 
pela “batuta” de Javé? E que liberdade? Que vida? Depois, 
sabendo Ezequiel, como certamente outros intelectuais do tempo, 
que o sistema político judaico estava agonizando e que crescia o 
poderio da Babilónia, não seria difícil de prever - profetizar - a queda 
e destruição de Jerusalém…
- “No dia (…), de repente, abriram-se os céus e eu tive visões divinas. 
(…) A palavra foi dirigida ao sacerdote Ezequiel (…) Javé colocou 
a mão sobre ele. (…) Eu vi o seguinte: (…) algo parecido com 
uma pedra de safira, em forma de trono; e nele, lá no alto, algo 
parecido com um ser humano. (…) Era a aparência visível da glória 
de Javé. Quando O vi, caí imediatamente com o rosto no chão e 
ouvi a voz de Alguém que falava comigo.” (Ez1,1-4 e 28)
- Comenta-se: “Na base da vocação profética, em Israel, há sempre 
um contacto com o divino, uma nova e significativa experiência de 
Deus. (…) A glória de Javé é o próprio Deus enquanto Se revela no 
seu poder e santidade, no brilho ofuscante em cujo centro se 
vislumbra uma silhueta humana.” (ibidem)
- É espantoso como a fé do “nosso” comentador parece obnubilar-lhe 
o pensamento! Afinal, Ezequiel usa uma linguagem simbólica 
ou real? Ou - como também já perguntámos - umas vezes é ou 
considera-se simbólica e outras é ou considera-se real? Afinal, 
Ezequiel viu realmente Deus com forma humana ou pensou 
que viu tal forma, certamente influenciado pelo Génesis, onde Deus 
criou o Homem à sua imagem e semelhança?
Depois, porque é que Ezequiel atribui às suas visões o carácter de 
divino? Se eu disser que estas nossas escritas são de inspiração divina, 
quem não duvidará? Melhor: quem acreditará? Não teremos pelo 
menos tantas razões para acreditar que são divinas como para 
acreditar que não são? E abriram-se realmente os céus ou… é 
simbólico? Javé pôs a mão em cima do profeta ou… é simbólico? E 
o trono? E a pedra de safira - que teria de ser bem grande para fazer 
de trono? E que céus? Que alto? Não há aqui, povoando a 
imaginação de Ezequiel, a leitura do Pentateuco? E viu realmente 
Deus ou não? E ouviu realmente ou não? Com que voz? E as 
formas eram bem distintas ou… envoltas em bruma, pois já 
Moisés não pudera ver a Deus face a face, mas só de costas e 
morreria se de outro modo acontecesse? Lembram-se? Não há 
aqui uma encenação de Ezequiel para tornar mais credível as suas 
“profecias” junto do povo que com ele estava já no exílio?
Finalmente, como se arrisca o “nosso” comentador a falar em 
“contacto com o divino”? Que contacto? Em visões tal qual um 
sonho que bem poderia ser divino ou diabólico como um 
pesadelo? Ou… ali, no real? A descredibilidade deste Ezequiel 
acentua-se, logo de início, com tais interpretações-comentários!…


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 159/?

À procura da VERDADE no livro de BARUC

02/02

- “Se tivesses andado nos caminhos de Deus, terias sempre vivido em 
paz.” (Br 3,13)
- Tudo depende do que se consideram os caminhos de Deus
- “Mas quem descobriu a morada da sabedoria (…)? Ninguém conhece 
o seu caminho nem descobre as suas veredas.” (Br 3,15 e 31)
- Aqui, comenta-se: “Bem conhecida de Deus, a Sabedoria colabora na 
criação e foi confiada a Israel (…)” (ibidem). Mais uma vez a 
exclusividade de Israel a possuir a Sabedoria, seja qual for o seu 
significado, tem o sabor da arrogância, o que leva à descredibilidade 
total num Javé que tal fizesse!
- “Jerusalém, tem coragem! (…) Malditos os que te fizeram mal ou 
ficaram contentes com a tua derrota! Malditas as cidades onde os teus 
filhos foram escravos! E maldita também aquela que deteve os teus 
filhos. Pois da mesma forma que se alegrou com a tua derrota e festejou 
a tua queda, assim também ela chorará pela sua própria destruição!” 
(Br 4,30-33)
- É o espírito de vingança! Compreensível mas bem pouco divino…
- “ Durante esse tempo, vereis na Babilónia deuses de prata, de ouro e 
de madeira (…) De vez em quando, os sacerdotes roubam o ouro e a 
prata dos seus deuses para seu próprio proveito ou para dar a prostitutas 
de bordéis (...) Um deus fica com o ceptro na mão, mas não é capaz de 
destruir quem o ofende (…) Os sacerdotes fecham os templos com 
portas, trancas e ferrolhos para que os seus deuses não sejam roubados 
pelos ladrões. Acendem-lhes (…) lâmpadas, embora esses deuses não 
sejam capazes de ver nenhuma delas. (…) Sem pés, são levados aos 
ombros, mostrando aos homens a sua falta de valor. (…) Para proveito 
próprio, os sacerdotes vendem o que foi sacrificado a esses deuses; a
outra parte, as mulheres salgam-na, sem darem nada aos pobres e 
necessitados. Até a mulher menstruada ou que acaba de dar à luz toca 
nesses sacrifícios. (…) Como poderiam ser deuses? As mulheres é que 
oferecem sacrifícios a esses deuses de prata, de ouro e de madeira. 
(…) Esses deuses foram fabricados por escultores e ourives e não 
podem ser mais nada do que aquilo que os seus autores queriam que 
fossem. (…) Pelas roupas de púrpura ou linho que vão apodrecendo 
em cima deles, já podeis saber que não são deuses.” (Br 6)
- Alongámo-nos, apesar de se repetirem aqui invectivas já feitas 
contra os ídolos ao longo de toda a Bíblia, sendo aliás o culto dos 
ídolos o maior pecado dos israelitas face a Javé. Mas… as palavras 
são novas e há outras mensagens. Oferece-se-nos perguntar, embora 
repetindo-nos: «Que diferença há, na prática, entre tais imagens de 
ídolos e as imagens dos santos dos nossos altares às quais se presta 
devoto culto e que são levadas em ombros nas nossas procissões de 
hoje? Não são também de ouro, prata ou madeira? Não são feitas 
por escultores ou ourives ou… santeiros? Não são vestidas com 
púrpuras ou linho e até têm - ó abundância da sociedade de 
consumo! - vários vestidos ou mantos para se engalanarem 
conforme as festas? Roxo e violeta em tempos de Paixão, 
branco, doirado e azul quando chega a Ressurreição? Não se lhes 
acendem lâmpadas ou velas que elas não vêem? Onde então a 
diferença? Que cristão poderá indicar-no-la ou definir os seus 
sentimentos para com uma imagem venerada e o culto a Deus? 
Que diferenças na sua oração?…» 
Depois, o profeta manifesta um anti-feminismo primário, 
evidentemente à moda da época e também… bíblica, o que não 
deixa de ser triste e reprovável, lamentando-se que tenha acontecido 
em textos ditos “sagrados” ou “de inspiração” divina! Assim, 
perguntamos: «Estava manchada a mulher na sua menstruação, 
situação tão normal e natural, cumprindo-se nela apenas o que a 
Natureza estabeleceu para o seu corpo? Estava manchada aquela 
que acabava de dar à luz, quando é o acto mais 
essencial que existe e do qual tudo depende: corpo e alma e 
pensamento?» Que curteza de ideias, santo Deus, este teu inspirado! 
De certeza que não foste Tu que o inspiraste, mas tradições aberrantes 
vindas não se sabe de onde!… Aliás, é evidente o desprezo com que 
o profeta diz que “As mulheres é que oferecem sacrifícios a esses 
deuses de prata, ouro e madeira”. Que intolerável machismo!
E que pensar daqueles sacerdotes - dos templos pagãos, é claro! - 
que roubavam para alimentarem os seus prazeres nos bordéis? A 
insinuação é “forte”! E raro é o autor bíblico que não traga à “praça 
pública”, por um ou outro motivo, apelos à imaginária sexual, 
parecendo estar o sexo omnipotentemente presente, na vida do 
Homem. E… não estará?!
- “As mulheres põem uma corda à cintura e sentam-se à beira do 
caminho, queimando farelo como incenso. Quando uma delas é 
levada por algum homem que passa, a fim de dormir com ele, 
começa a desprezar a companheira, que não teve a mesma honra, 
nem lhe foi desatada a corda.” (Br 6,42-43)
- A cena é… visual. Talvez o profeta tenha mesmo “provado” daquele 
incenso… Mas se é natural que fique contente uma prostituta da beira 
da estrada, por ser escolhida para a “função”, não se percebe porque 
haverá de desprezar a outra que fica com a “corda por desatar”.
Porque não desejar-lhe boa sorte com outro que passe e se deleite com 
ela? Enfim, constatações de… profeta, não divina, mas humanamente 
inspirado e que não nos trouxe nada de divino… 

domingo, 17 de dezembro de 2017

É Natal! Alegremo-nos! Sorrindo à VIDA...


Esta época festiva faz-nos pensar, não na história do Natal, que é de todos conhecida, mas na sua autenticidade/veracidade.

Estive numa pequena cidade da Alemanha, Trier, e visitei a única igreja protestante aí existente: um enorme barracão rectangular, construído em tijolo, datando do séc. IV, chamando-se, aliás, de Constantino, imperador romano à época. Nada de imagens; apenas uma enorme cruz, no único altar, muitas cadeiras enfileiradas no vasto espaço e, na lateral direita, perto do altar, cinco bustos: o de Cristo e os dos quatro evangelistas, ladeando-o. Todos com ar sobranceiro ou seráfico, menos Lucas que se apresenta cabisbaixo. Interroguei-me e… cheguei ao Natal.
Confesso que senti um vazio pelo vazio do espaço. Embora percebendo o horror dos protestantes ao culto das imagens tão do agrado do mundo católico e ortodoxo, tantíssimas vezes mais de adoração (latria para Deus) que de veneração (hiperdulia para a Virgem, dulia para os santos), aprecio muito mais a exuberância escultórica e pictórica das igrejas e catedrais católicas e a sua arquitectura multiestilos.
Então, Lucas! Lucas é o inventor do Natal romântico. Tendo certamente lido as histórias do nascimento dos deuses antigos, nomeadamente as dos deuses solares egípcios, e apercebendo-se de que em Marcos nada se dizia a respeito do nascimento e da infância de Jesus e o que dizia Mateus era insuficiente, apesar de essencial (nascimento de uma Virgem, visita dos magos, a estrela que os conduziu ao menino, a fuga para o Egipto, a matança dos inocentes, o regresso a Nazaré), resolveu-se a romantizar e completar o cenário, com o nascimento milagroso de João Baptista, o precursor, o anjo a anunciar a Maria que estava grávida do Espírito Santo, o cântico de Maria, o nascimento de Jesus em Belém, numa manjedoira, os anjos cantando e aparecendo aos pastores, os pastores acorrendo…, (omitindo, certamente por não verídicos, a fuga para o Egipto, a matança dos inocentes ordenada por Herodes e o regresso a Nazaré, “factos” referidos em Mateus), terminando com a insólita aparição de Jesus, aos doze anos, a falar com os doutores do Templo, e com a frase lapidar: “E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e graça diante de Deus e dos Homens”. Dos tempos de juventude e até ao início da sua pregação, trinta anos, nada foi achado relevante para ocupar a imaginação do evangelista.
Estamos, pois, perante uma bela história. História que cria simpatia e empatia, já que falamos do nascimento de uma criança, de uma mãe, de um mistério rodeando e rodeado por um cenário idílico.
O escultor, certamente protestante – e várias seitas de protestantes não celebram o Natal – quis pôr Lucas a pensar se não teria sido melhor nada ter inventado e ter deixado, para a posteridade, apenas o Jesus adulto com a sua forte mensagem de fraternidade universal, repetindo Marcos e Mateus.
Objectivamente, o escultor terá razão. Mas, analisando a História, quanto de beleza nas artes e na Fé não se teria perdido se não houvesse Natal! As músicas natalícias, os quadros natalícios, as esculturas natalícias, enfim os presépios que proliferam pelo mundo, desde o séc. XIII, em que Francisco de Assis lhe deu vida, corpo e forma…, não teriam feito o sonho das nossas mentes de criança, e não fariam o sonho de todas as crianças do mundo actual, filhas de crentes ou de não crentes.

Por isso, BOM NATAL! Mesmo que a sua mensagem não se cumpra, mesmo que saibamos que continuam a morrer, diariamente, milhares de crianças, por não terem que comer ou não terem medicamentos para se tratar ou, simplesmente, por serem vítimas das guerras desencadeadas pela avidez do lucro e do poder dos adultos que (des)governam o mundo! Mesmo que não haja nem prendas, nem paz, nem fraternidade entre os Homens! Mesmo assim…, BOM NATAL, com um largo SORRISO, emoldurando-nos a face!

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 158/?


À procura da VERDADE no livro de BARUC

01/02

- Diz-se na Introdução: “ O certo é que estes textos não são de
Baruc, o secretário de Jeremias, mas foram escritos provavelmente
no século II a.C. O livro tem o mérito de nos dar uma ideia 
aproximada do sentimento religioso dos israelitas dispersos pelo 
mundo após a ruína de Jerusalém (…) pois acreditam que Deus não 
abandona o seu povo e continua fiel às suas promessas. Se houver 
arrependimento e conversão, poderão confiar no perdão divino: 
serão reunidos de novo em Jerusalém, que é para sempre a cidade 
de Deus.” (ibidem)
- Não se percebe a primeira afirmação porque o livro diz 
expressamente: “Livro escrito por Baruc (…) quando estava na 
Babilónia, no sétimo dia do mês, no quinto ano da época em que os 
caldeus tomaram Jerusalém e a incendiaram (…)” (Br 1,1-2)
Mas também é assunto que não é relevante para a nossa análise, já 
que o que importa é ver se há, por ali, algo de divino, de divinamente 
universal, onde possamos ir buscar respostas para as nossas angústias 
existenciais. Mas, neste início, tudo parece confinado aos judeus e à 
sua cidade, Jerusalém, chamada, com total arbitrariedade, “cidade de 
Deus”; e até aos dias de hoje, “Cidade santa”!
- “Desde o dia em que o Senhor tirou os nossos antepassados do 
Egipto até hoje, nós só desobedecemos (…): cada um de nós seguia 
as más inclinações, prestando culto aos deuses estrangeiros e 
praticando o que é mau (…) Por isso, o Senhor cumpriu as ameaças 
feitas contra (…) todos os cidadãos de Israel e Judá. O Senhor nosso 
Deus é justo (…) Ouve, Senhor, a nossa prece e a nossa súplica (...) é 
uma alma angustiada e um espírito aflito que clama por Ti. Ouve, 
Senhor, tem piedade, pois pecámos contra Ti. Tu reinas para sempre 
e nós morremos para sempre. (…)” (Br 1-3)
- A ideia de pecado é avassaladora. A do castigo de Deus também. 
Mas… que outra coisa poderiam os israelitas fazer senão rezar a Javé 
e dizer que tinham pecado e que mereciam o castigo, já que não 
podiam evitar o poder babilónico que pesava sobre as suas cabeças? 
Tanta é a dependência de Deus, santo Deus! A frase “nós morremos 
para sempre” revelará que o autor não acreditava na vida eterna 
post-mortem?
No entanto, meter Deus, no meio destas vidas tão limitadas, que são 
as nossas, nada esclarece, pelo contrário, tudo se confunde cada vez 
mais... É que há os maus - e ele há tantos! - que não sofrem castigo 
nenhum; e há os bons - e também há um bom número deles! - que 
sofrem até aos limites das suas capacidades de sofrimento!
E podíamos interpelar Deus: «Se realmente existis - e nós quiséramos 
tanto que sim! - porque não Vos manifestais sem subterfúgios, sem
profetas, sem bíblias obscuras, sem mesmo um Jesus Cristo que teve 
tanto de maravilhoso como de mistério, com palavras de vida eterna, 
mas sem nos mostrar o Pai que apregoava, não nos convencendo com 
o seu: “Quem Me vê a Mim, vê o Pai” ou “Ninguém vai ao Pai senão 
através de Mim.”? Porquê não é tudo mais simples, tudo mais fácil se 
este TUDO é o essencial das nossas vidas?»
Mas do inefável Jesus, ocupar-nos-emos mais tarde. 


domingo, 3 de dezembro de 2017

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 157/?

À Procura da VERDADE 
no livro das LAMENTAÇÕES - 02/02

- “Foi pelos erros dos profetas e pelos crimes dos sacerdotes
   que derramaram sangue inocente dentro da cidade.” (Lm 4,13)
- Atribuindo-se o castigo de Javé aos erros dos profetas e aos crimes 
dos sacerdotes, pergunta-se: Que culpa tinha o povo desses erros e 
desses crimes? Porque não apenas eles a receberem o castigo, 
Javé exercendo a verdadeira justiça? Já sabíamos que havia 
falsos profetas; agora, sabemos que há outros que erram. Afinal, 
em quais devemos confiar? Como distingui-los? Quais os inspirados 
com visões de Javé e quais os que se aventuravam a fazer 
prognósticos sem aquele carácter divino? E os sacerdotes que 
derramaram sangue inocente, como puderam chegar e manter-se em
tal cargo “sagrado”?
- “Os nossos pais pecaram e já morreram,
   e nós é que pagamos pelas suas culpas.” (Lm 5,7)
- Também Javé comete tal injustiça? Que culpa têm os filhos dos 
pecados dos pais? Ao menos Deus poderia - deveria! – evitar tal 
injustiça!… 
Mas este é um tema recorrente na Bíblia, desde o início, com a 
humanidade a estar sujeita ao sofrimento e à dor, devido ao pecado 
original cometido pelos nossos supostos primeiros pais Adão e Eva. 
Ora, como todos sabemos, pela Ciência, não houve nem Adão nem 
Eva, e muito menos qualquer pecado original ou outro, tendo o 
Homem aparecido por evolução das espécies, e apenas há uns 
quatro milhões de anos, quando os dinossauros reinaram na Terra mais 
de duzentos milhões de anos e se extinguiram há cerca de sessenta e 
cinco milhões. É tempo de a catequese deixar de ensinar esta 
barbaridade – barbaridade que só descredibiliza a religião! – às nossas 
crianças.
- “Mas Tu, Javé, permaneces para sempre, (…)
   Então porque haverias de esquecer-nos para sempre (…)?
   Faz-nos voltar para Ti, Javé, e voltaremos; (…)
   Ou será que nos rejeitaste de uma vez;
   será que a tua cólera não tem limites?” (Lm 5,19-22)
- A esperança é a última coisa a morrer, não é? Ontem como hoje. Para 
nós também!
No começo e… no fim das lamentações!…

Neste final do livro das Lamentações, concluiríamos, mais uma 
vez, que fazer depender da intervenção de Javé a História do 
Homem, nada abona em favor do mesmo. Torna-se demasiado humano 
para que possa ser Deus…

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 156/?


À Procura da VERDADE 
no livro das LAMENTAÇÕES - 01/02

- Diz-se, na introdução: “As Lamentações provavelmente foram escritas 
na Palestina depois da queda de Jerusalém, em 586 a.C. (...) Descrevem 
de modo doloroso e poético, a destruição de Jerusalém pelos babilónicos 
e os acontecimentos que sucederam a essa catástrofe nacional: fome, 
sede, matanças, incêndios, saques e exílio forçado. (…) 
As Lamentações (…) ajustadas a circunstâncias locais bem definidas (…) 
encerram ingredientes que desafiam os séculos: (…) o abandono 
arrependido do procedimento pecaminoso que forçou Deus a esmagar o 
seu povo, a esperança no Senhor, guia e mestre da História.” (ibidem)
- É, no mínimo, desesperante, esta análise interpretativa da Bíblia. 
Sem qualquer sentido crítico ou análise racional dos factos, face a um 
livro dito sagrado. Não admira que a inspiração seja muita, muita a
poesia. Momentos de dor, fome, sede, matanças, saques, exílios apelam 
a emoções fortes que fazem brotar a poesia de mentes mais sensíveis 
e… vulneráveis. Aqui, o caso, certamente. Mas…, onde o divino que 
procuramos? Porquê tais poemas, de inspiração divina? Só porque 
apelam para Deus? E que lógica haverá em um Deus esmagar um
povo - um povo dito seu eleito - por um pecado cometido? Porque não 
consideramos tal facto pura invenção dos autores, ditos também eles 
“sagrados”? Não é totalmente gratuita, i. é, sem qualquer fundamento, 
a afirmação de que Deus é guia e mestre da História?
- “Vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede:
   haverá dor semelhante à minha dor? Como me maltrataram!
   Javé castigou-me no dia do furor da sua ira.
   Escutai como estou gemendo, e não há quem me console
   Os inimigos comemoram a minha derrota que Tu mesmo causaste!
   Traz então aquele dia que prometeste
   em que eles passarão o que eu passei.” (Lm 1,12 e 21)
- Uns dos mais dolentes versos das Lamentações. Mas o “estafado” 
tema da ira repete-se. E o do “Olho por olho” também! Logo, nada de 
divino se vislumbra por aqui.
- “O amor de Javé nunca acaba e a sua compaixão não tem fim.
   Pelo contrário, renovam-se cada manhã: 
   Como é grande a tua fidelidade!
   Digo a mim mesmo: Javé é a minha esperança, por isso nele espero.” 
(Lm 2,22-24)
- Ó tu que tão bem falas, terás alternativa? Haverá, para um crente, 
possibilidade de fuga a Javé?!
- “Não é da boca do Altíssimo que vem o mal e o bem?” (Lm 2,38)
- Que mal? Que bem? Como pode o mal vir do Altíssimo sem se negar 
Si próprio, sendo Ele o Bem absoluto, o Supremo Bem? Enfim, mais 
uma das dificuldades em que o autor se enovela ao intrometer Deus 
na História. Que o Homem contém em si maldade, ninguém duvida. 
Saber definir o mal, já é complicação que avassala o nosso espírito e o 
de muitos filósofos e teólogos, neste pequeno lapso de História que são 
os cerca de três mil anos de Bíblia e de cristianismo. Mas que o mal 
venha de Deus é mesmo um total absurdo!
- “O pecado desta cidade foi de certo maior que o de Sodoma,
   pois Sodoma foi destruída de uma vez, sem ninguém a agredir.” 
(Lm 4,6)

- Que pecado? E porque se compara ao suposto pecado da sodomia? 
Aliás… é assim tão grande o “pecado” cometido pelos que decidem 
experimentar os prazeres sexuais de outra forma que os não 
consagrados pela Natureza para a procriação, que mereça a destruição 
de toda uma cidade?…