sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Onde a Verdade de Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (NT) - 289/?

 

À procura da VERDADE nos Evangelhos

Evangelho segundo S. LUCAS – 7/?

 – Outro episódio narrado apenas por Lucas e que não nos deixa de intrigar, é passado em casa de um fariseu que convidara Jesus para uma refeição:

“Apareceu então certa mulher, conhecida na cidade como pecadora. Ela, sabendo que Jesus estava à mesa na casa do fariseu, levou um frasco de alabastro com perfume. A mulher colocou-se por detrás, chorando aos pés de Jesus. Com as lágrimas banhava-Lhe os pés e enxugava-os com os seus cabelos; cobria-os de beijos e ungia-os com perfume. Vendo isso, o fariseu que havia convidado Jesus, pensou: «Se este homem fosse mesmo um profeta, saberia que a mulher que Lhe está a tocar é pecadora.» (…) Jesus disse-lhe: «Quando entrei em tua casa, não Me ofereceste água para lavar os pés; ela porém, banhou-Me os pés com lágrimas e enxugou-os com os cabelos. Não me deste o beijo de saudação; ela porém, desde que entrei, não deixou de Me beijar os pés. Não derramaste óleo na minha cabeça; ela porém ungiu-Me os pés com perfume. (…) A quem muito amou, muito foi perdoado.» (…) Então, Jesus disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados. Vai em paz! A tua fé te salvou.» (Lc 7,37-50)

– Escreve bem este Lucas! A cena, assim descrita, é comovente, toca a alma… Não sabemos que sentimento levou aquela mulher, rotulada de pecadora, a prostrar-se aos pés de Jesus, chorando, enxugando, beijando, ungindo… Que pretenderia ela realmente? Que lhe fossem perdoados os pecados e, em seguida, deixar aquela “vida”? Como veria ela Jesus? Como um belo homem para ser amado ou como um profeta, um enviado de Deus com poder de perdoar pecados?

Presume-se que fosse prostituta. Logo… pecadora aos olhos do “mundo”! Então, onde teria ela a condenação? No tempo, enquanto a troco de boa soma, embora, assumia comportamentos de risco, de violência, de doenças, de indesejáveis gravidezes, atormentando-lhe assim corpo e alma com permanentes receios ou… nessa misteriosa eternidade apregoada por esse misterioso Jesus? É que a prostituta, a sociedade aceita e… condena, usa e… condena, chama chaga social mas fecha os olhos e não sabe ou não quer encontrar razões da sua existência e do facto de ser profissão tão velha como a humanidade… De facto, pode afirmar-se que desempenha uma função social e, por isso, tolerável aos olhos de todos embora ninguém queira aceitar, por pruridos de uma falsa pureza da sociedade…

No entanto, ali, não seria de esperar outra coisa de Jesus senão defendê-la. Embora talvez não de maneira tão convincente, tão insistente, tão… “apaixonada”!

Resta-nos perguntar onde estará agora essa mulher que, embora anónima, também será lembrada enquanto houver homens que leiam estes testemunhos acerca de Jesus Cristo. Teria voltado à “vida”, estando agora no inferno, ou, tendo-se dedicado à caridade e a outros amores mais puros, está, desde há dois mil anos, na bem-aventurança do Céu? Quiséramos tanto saber, não é?!…

Lembraremos, no entanto, que o inferno não existe e que o Céu – infelizmente, tão infelizmente, meu Deus! – também não. Por isso, é fácil a resposta…

Enfim, a cena não deixa de ser, por um lado, uma manifestação de amor, de coragem, de arrependimento, por parte de uma mulher que estaria carente de afectos, já que só receberia enxovalhos de quem dela usava e abusava, fosse ou não a troco de algumas moedas sofridas e envenenadas, sem um sorriso, um carinho, uma palavra de simpatia…; por outro, revela-nos um Jesus no seu melhor, defendendo um dos elos mais fracos da sociedade.

sábado, 21 de novembro de 2020

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (NT) - 288/?

 

À procura da VERDADE nos Evangelhos 

Evangelho segundo S. LUCAS – 6/?

– Eis um milagre apenas narrado por Lucas: “O morto era o filho único de uma viúva. Grande multidão ia com ela no funeral. Ao vê-la, Jesus teve compaixão dela e disse-lhe: «Não chores!» Depois, aproximou-Se, tocou no caixão e os que o transportavam, pararam. Então, Jesus disse: «Jovem, eu te ordeno, levanta-te!» O morto sentou-se e começou a falar. (…) A notícia do facto espalhou-se pela Judeia e por toda a redondeza.” (Lc 7,12-17)

– É um estrondoso milagre que nos leva a perguntar por que razão os outros evangelistas não o referem. Não será maior milagre ressuscitar um morto do que curar um doente? – Talvez não! Quando se trata do divino, o poder está acima da matéria seja para lhe devolver a vida seja para inverter o seu curso numa qualquer doença…

Aqui, a grande questão permanece: “Porque é que vendo tamanho milagre, perante tantas testemunhas, não se tornaram todas essas testemunhas em apóstolos de Cristo, pregando a toda a humanidade a Boa Nova? Pois, imaginemos que tal facto se passava hoje, não numa aldeia desconhecida do mundo mas numa grande cidade, num funeral de herói ou de santo, onde houvesse total cobertura televisiva… Quem não acreditaria em quem tal milagre fizesse? Quem, vendo com os próprios olhos o morto que estava ali, de novo vivo e, falando com ele, não se renderia à evidência do sobrenatural, do Além, da mensagem que tal mensageiro pregasse? Então, porque espera Deus para vir cá de novo e proceder de tal modo, já que a vinda de Jesus, há 2000 anos, ainda não deu os frutos esperados?” - desculpem-nos esta pergunta já várias vezes repetida. É que não só não deu frutos como parece ter sido “muito trabalho” para tão pouco proveito, apresentando-se, aos olhos de um crítico, como projecto inconcebível num humano quanto mais em Deus…

E lá se vão perdendo, nos milhões que morrem dia a dia, tantos possíveis eleitos que, sem acreditarem, não vão parar ao Céu mas sabe-se lá aonde!… É: se o Deus de Jesus Cristo realmente existe, terá forçosamente de no-Lo enviar de novo e agora e já, na era das novas tecnologias, para que nenhuma das suas “ovelhas”, que somos todos nós, se perca. De outro modo, toda a sua suposta manifestação aos Homens através do seu suposto Filho, há dois mil anos, deixa de ter qualquer credibilidade.

Assim como deixam de ter qualquer credibilidade todos os supostos milagres narrados nos evangelhos. O de hoje, também. Aqui, foi Lucas a dar asas à sua imaginação de escriba, lançando mais uma acha na fogueira da Fé e conquistar mais crentes para a religião que se estava implementando.

 

sábado, 14 de novembro de 2020

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (NT) - 287/?

 

 

À procura da VERDADE nos Evangelhos 

Evangelho segundo S. LUCAS – 5/?

– No sermão das bem-aventuranças, Mateus omite e Lucas acrescenta a parte condenatória: “Mas ai de vós, os ricos, porque já tendes a vossa recompensa! Ai de vós que agora tendes fartura, porque ireis passar fome! Ai de vós que agora rides porque ireis ficar aflitos e chorar! Ai de vós se todos vos elogiam porque era assim que os vossos antepassados tratavam os falsos profetas.” (Lc 6,24-26)

– Nunca entenderemos porque é que o Reino de Deus é apenas para os pobres e os humildes… Ou porque é que esses hão-de ter uma bem-aventurança eterna e os outros uma condenação também eterna…

Ou porque é que quem chora agora vai rir depois e quem ri agora tem de depois chorar… Pois, para quê o sofrimento agora ou depois? Porque não fartura e gozo e riso e felicidade para todos no tempo e na eternidade se a houver? Não seria este o grande objectivo humano e muito mais divino, em relação ao Homem, em vez de passarmos o pouco tempo que temos de vida a condenar uns e a exaltar os outros? Terão realmente algum sentido aquelas condenações bem como a frase: “Quem se humilha será exaltado e quem se exalta será humilhado.”? (Lc 14,11; 18,9-14)

– Aqui, vale a pena repetir o que é talvez o ponto mais alto - e mais revolucionário em relação às Escrituras do “Olho por olho, dente por dente judaico tradicional”! - da mensagem de Jesus Cristo: “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam. Desejai o bem aos que vos amaldiçoam e rezai por aqueles que vos caluniam. Se alguém vos bater numa face, oferecei-lhe também a outra. Se alguém vos levar a capa, deixai que leve também a camisa. Dá a quem te pede e se alguém se apodera do que é teu, não lhe peças que to devolva. Fazei aos outros o que desejais que os outros vos façam a vós. Pois… se amais somente os que vos amam,… se fazeis o bem somente aos que vos fazem bem,… se emprestais somente àqueles de quem esperais receber,…. que merecimento tereis? Vós, amai os inimigos, fazei o bem e emprestai sem esperar coisa alguma em troca. Assim tereis uma grande recompensa e sereis filhos do Altíssimo.” (Lc 6,27-35)

– Fantástico! Que paz universal, meu Deus, com tal programa de atitudes! Como deixaria de haver inimigos e pobres e ladrões e traficantes pois todos pensariam em dar sem receber, desejar o bem aos que amaldiçoam, perdoando e sendo perdoados, oferecendo a outra face ao agressor que perdera o controle, vindo pedir-nos desculpa, depois, envergonhado perante a nossa tamanha dignidade!…

Mas… utópico ou possível? Mesmo que seja utópico, não deixa de ser tremendamente belo!

Só não sabemos onde é que vamos receber a recompensa de tal procedimento, se na Terra se no Céu, se no tempo, se na eternidade... Nem o que é sermos filhos do Altíssimo. Nem quem é o Altíssimo. Nem se o sermos seus filhos nos leva a essa vida eterna…

Enfim, das várias máximas de construção da fraternidade universal preconizadas – quase todas de difícil execução devido ao caracter tendencialmente perverso e egoísta do ser humano – é sem dúvida paradigmática e contundente aquela: “Fazei aos outros o que desejais que os outros vos façam a vós.” E teríamos uma sociedade perfeita, sem todas essas guerras, fomes, injustiças, tantos crimes de Homens contra outros Homens!

Grande Jesus Cristo! Que pena que a “tua” sociedade continue sendo uma desesperante utopia!

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (NT) - 286/?

 

À procura da VERDADE nos Evangelhos 

Evangelho segundo S. LUCAS – 4/?

 – “Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus. (…) E levaram o menino a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor. (…) Havia em Jerusalém um homem chamado Simeão. (…) Movido pelo Espírito Santo, Simeão foi ao Templo. Quando os pais levaram o menino (…), Simeão tomou-O nos braços e louvou a Deus, dizendo: «Agora, Senhor, podes deixar partir o teu servo em paz. Porque os meus olhos viram a tua salvação que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel.» (…) E disse a Maria: «Eis que este menino vai ser causa de queda e elevação de muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Quanto a ti, uma espada de dor há-de atravessar a tua alma.»” (Lc 2,21-35)

– É episódio também apenas narrado por Lucas. A profecia de Simeão realizar-se-á. Mas, quando Lucas escreve, tudo isto já tinha acontecido, umas dezenas de anos antes: Jesus, sinal de contradição, a dor de Maria vendo Jesus morrer na cruz, etc.… Só resta perguntar quem terá constatado toda esta cena devota e dela reteve memória.

– A encerrar a narrativa da infância de Jesus – narrativa que os outros três evangelistas omitem – vem o episódio talvez o mais pitoresco de todos os Evangelhos, mas não deixando de nos intrigar pela sua imprevisibilidade: “Quando o menino completou doze anos, subiram a Jerusalém para a festa da Páscoa. Passados os dias da Páscoa, voltaram mas o Menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o notassem. Pensando que o menino estivesse na caravana, caminharam um dia inteiro. Depois, começaram a procurá-lo e, não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém. Três dias depois, encontraram-no no Templo. Estava sentado no meio dos doutores a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. (…) Ao vê-lo, sua mãe disse-lhe: «Meu filho, porque fizeste isto connosco? Olha que teu pai e eu andávamos angustiados à tua procura.» Jesus respondeu: «Porque me procuráveis? Não sabíeis que eu devia estar na casa de meu Pai?» Mas eles não compreenderam o que o menino acabava de lhes dizer.” (Lc 2,42-51)

– Poderíamos dizer que nós também não compreendemos. Aliás, que pais compreenderiam? E como saberiam que Ele deveria estar na casa de seu Pai? E é com algum sentimento de crítica que constatamos tal atitude de Jesus e tal resposta sem um pedido de desculpas, como se os sentimentos de uns pais aflitos e angustiados fossem assim para deitar fora… Não o são para os Homens, porquê o seriam para Deus?

É! Lá que tivesse as suas razões “divinas” (teria?!), aceita-se, embora devesse ter delas avisado os seus pais. Agora que nem desculpa peça por tal acto, para Ele plenamente justificado, não se admite…

E porque é que o Templo é a casa do Pai de Jesus Cristo? Mesmo simbolicamente, porque atribuir uma casa a Deus? Em vez de “casa de meu Pai”, Jesus deveria ter dado o exemplo e ter desmistificado tal realidade que, se levou a que se construíssem tantas obras de arte que são património da humanidade, também deturpou a ideia de Deus, humanizando-O, localizando-O, fechando-O em Igrejas e sacrários, quando Deus tem de estar em toda a parte, em todo o lugar, em todo o tempo, em todas as coisas, porque é eterno e infinito e tudo o que existe nele está contido e não o contrário…

Enfim, que perguntas faria Ele aos doutores? Não conhecia Ele, como Deus, desde toda a eternidade, tudo o que os doutores sabiam? Ou… era já para os experimentar? Já para lhes exacerbar corpo e alma e O levarem à morte, como levaram vinte e um anos mais tarde, cumprindo assim as tais Escrituras, inspiradas por aquele seu Pai?

A ser verdade a dicotomia Deus-homem em Jesus, isso constituiria sempre um mistério. Aprenderia Ele como homem aquilo que já sabia como Deus? Aliás, que cérebro informaria Jesus, aos 12 anos? Um cérebro em desenvolvimento, como o de qualquer jovem, e que se ia apercebendo de que era informado por uma realidade… divina ou um já “Deus em corpo pequeno”?

Mais uma vez, a resposta mais sensata é a de que estamos não no campo histórico, mas no campo da fantasia, construindo-se uma personagem que viria a tornar-se o centro de uma religião nascente.


sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (NT) - 285/?

 

 

À procura da VERDADE nos Evangelhos

Evangelho segundo S. LUCAS – 3/?

 – A visita de Maria a Isabel é toda cheia de graça e graciosidade: “Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu dentro dela e Isabel ficou cheia do Espírito Santo, dizendo: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que ouvi a tua saudação, a criança saltou de alegria no meu ventre. Feliz de ti que acreditaste, pois há-de acontecer tudo o que te foi dito da parte do Senhor.” (Lc 1,40-45)

– Os milagres continuam a acontecer! É Isabel que fica iluminada, é a criança que salta, é a profecia de que tudo vai acontecer como fora prometido a Maria…

Completa-se aqui a primeira parte do “Avé Maria” que encheu de graça as nossas bocas de criança e de inspiração músicos como Schubert ou Gounod…

No entanto, não podemos deixar de frisar que Lucas continua na senda da narrativa do que lhe contaram e não do que consideraria ou não histórico. Por isso, a veracidade do narrado como acontecido é simplesmente nula. Bonito, embora!

– O Cântico de Maria - o Magnificat - “A minha alma proclama a grandeza do Senhor…” (Lc 1,40) é realmente belo, imitando os mais belos cânticos das antigas Escrituras. Mas… quem lho terá ouvido? Quem o terá retido para dele dar fiel reprodução? Ou… quem o terá escrito e colocado na boca de Maria?

E logo nasce João Baptista, sendo-lhe dado o nome de João como Gabriel havia dito a Zacarias que, a partir daquele momento, voltou a falar…:“O pai Zacarias, cheio do Espírito Santo, profetizou dizendo: «Bendito seja o Senhor, Deus de Israel (…) E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás à frente do Senhor para Lhe preparar os caminhos. (…)»” (Lc 1,67 e 76)

– Também perguntaríamos: “Quem reteve tais palavras para delas dar fiel testemunho a Lucas que no-las transmitiu?”

E se houve milagre no castigo da mudez de Zacarias, também o houve no seu voltar a falar… Muitos milagres havia naquele tempo, santo Deus!…

– Segue-se o nascimento de Jesus como já Mateus contara no seu Evangelho.

Mas Lucas dá lugar ao maravilhoso que, se por um lado embeleza a sua narrativa, por outro retira-lhe credibilidade histórica… “Naquela região, havia pastores (…) Um anjo do Senhor apareceu aos pastores (…): «Não tenhais medo! Eu anuncio-vos a Boa Nova que será motivo de grande alegria para todo o povo: hoje na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias, o Senhor. Poderão reconhecê-Lo assim: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoira.» De repente, juntou-se ao anjo uma grande multidão de anjos, cantando louvores a Deus, dizendo: «Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na Terra aos homens por Ele amados.» Mal os anjos partiram para o Céu, os pastores (…) foram à pressa e encontraram Maria e José e o recém-nascido deitado numa manjedoira.” (Lc 2,7-16)

– Realmente, o maravilhoso encanta! Os anjos – essas figuras irreais aladas – falando e cantando… também! É o Natal!

E são tantas as canções que, ao longo da História, se compuseram a propósito desta narrativa! E não há quem não se deixe encantar por toda a imensa poesia idílico-pastoril criada à volta de uma vida que nasce assim, romanticamente pobre, sendo supostamente divina!

Mas o real histórico de que Cristo tenha nascido numa manjedoira na cidade de David fica envolto em dúvidas, dúvidas que nos roubam o gostinho dos presépios milenares…

sábado, 24 de outubro de 2020

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (NT) - 284/?

 

À procura da VERDADE nos Evangelhos

Evangelho segundo S. LUCAS – 2/?

 – Continua Lucas, narrando as histórias que lhe contaram:

– “No sexto mês de gravidez de Isabel, Deus enviou o anjo Gabriel a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré para falar com uma jovem chamada Maria, que estava noiva de José, descendente do rei David. (…): «Eu te saúdo, ó cheia de graça! O Senhor está contigo! (…) Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Vais ficar grávida e terás um filho a quem vais pôr o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. E o Senhor dar-Lhe-á o trono do seu pai David e Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacob. E o seu reino não terá fim.» Maria perguntou ao anjo: «Como vai acontecer isso, se sou virgem?» O anjo respondeu: «O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso, o Santo que vai nascer de ti será chamado Filho de Deus. Também a tua parente Isabel, apesar da sua velhice, concebeu um filho. Aquela que era considerada estéril já há seis meses que está grávida. Para Deus, nada é impossível.»” (Lc 1,26-37)

– Este texto é fundamental na origem do Cristianismo! Lucas é também o único evangelista a narrar tal “facto” que certamente lhe contaram, com devota religiosidade, umas dezenas de anos depois de ter acontecido e já fazendo parte da tradição catequética da primitiva Igreja. O grande milagre acontece: uma virgem vai dar à luz, sem ter conhecido homem. Mas dentro da economia do milagre, este era milagre que se impunha da parte de Deus. Com todo o seu poder no Céu e na Terra, porque não fazer nascer o seu filho muito amado de modo diferente do de qualquer humano?

Mas… que trono de David é aquele? Que reino sobre os descendentes de Jacob, o mesmo é dizer sobre os israelitas? E como não terá fim o seu reino… na Terra ou no Céu?

E porque volta a existir um anjo, anjo que tem de argumentar com o que aconteceu a Isabel para convencer Maria? Ou quis apenas dar-lhe a notícia?

Aliás, perante tal convite-imposição divina, que poderia dizer Maria senão: «Eis a escrava do senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.»? (Lc 1,38) Imaginemos que recusava… Que castigo ali lhe seria dado, a avaliar pelo castigo dado a Zacarias apenas por ter questionado o que não entendia?…

Um anjo – o mesmo mensageiro de Deus enviado a Zacarias, marido de Isabel, prima de Maria, Gabriel – na base da construção do Cristianismo! Mas… os anjos não existem, santo Deus! São simpáticas figuras puramente lendárias ou fantasiadas pelos humanos que criaram o Olimpo dos deuses, ou o Céu, morada de Deus, e pelo Céu circulam diafanamente, aladamente… Então?!

Depois, Maria ser fecundada pelo Espírito Santo é… fantasia a mais, Senhor! Claro que os criadores do Cristianismo dizem tratar-se de um mistério. Neste caso, de dois: o mistério da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito santo) e o mistério da Encarnação, de cujo milagre vai nascer o Filho, feito homem, ou o Verbo Encarnado, como os medievais lhe chamaram! Lucas, inspirado ou não, faz renascer aqui as lendas antigas do nascimento de deuses, de virgens também fecundadas por outros deuses. Como se tratava do nascimento do Filho de Deus, tinha que haver “divino” no seu nascimento. O conceito de Santíssima Trindade talvez tenha sido importado das religiões orientais.

No entanto, não deixa de se passar algo caricato: o Espírito Santo que é Deus com o Pai e o Filho vai fecundar Maria para dela nascer o mesmo Filho? Uma total confusão que nem o mistério consegue salvar. Os inventores da Santíssima Trindade e do mistério da Encarnação de certeza que não pensaram nisso. Ou, então, pensaram que lhes bastaria dizer que era… Mistério!

Conclusão: Uma história bonita para se contar a crianças. Mas, obviamente, não para dar credibilidade histórica a Jesus, como Filho de Deus, em cuja aura se baseia o Cristianismo.

Enfim, de histórico, retira-se simplesmente que Maria ficou grávida, antes de casar com o seu noivo José, tendo dessa gravidez nascido Jesus.

No entanto, sendo facto tão relevante na história do Cristianismo, é muito estranho que seja omisso nos outros evangelhos. Muito estranho mesmo!

 


domingo, 18 de outubro de 2020

A VIDA, milagre divino ou resultado imparável da evolução da matéria “inerte” energizada?

 


 Da origem da VIDA

Tendo o assunto já aqui sido abordado apenas na óptica evolucionista, vejamos, hoje, a opinião dos criacionistas.

Poríamos de parte, linearmente, os criacionistas radicais de índole religiosa, já que seguem um Credo, o Bíblico, segundo o qual um Deus Criador criou o Universo e, nele, a Terra e, nesta, a VIDA, com espécies animais e vegetais, tal como existem hoje. Pura mitologia!

Mas, dada a sua complexidade, há os que atribuem a criação dum primitivo ADN a uma ENTIDADE INTELIGENTE, UMA MENTE SUPREMA, tendo-o criado num só momento do Tempo, embora tenha evoluído, depois, para as diversas formas de vida (ADN ou ARN) que hoje existem na Terra, (e só na Terra!) expressas em animais, fungos e plantas.

Esta visão criacionista, embora não bíblica, não responde a várias questões incontornáveis ou fundamentais cujas respostas são determinantes para se poderem fazer escolhas:

1 – Se este Universo observável – e, por isso, objecto da Ciência – começou no Big Bang, não sabemos o que havia antes do Big Bang, fenómeno que se situa há c. de 15 mil milhões de anos e que explica o facto constatado pela Ciência de o Universo estar em expansão.

2 – Se está em expansão, também ignoramos até onde irá e o que acontecerá depois. É que, sendo o Universo matéria energizada, não se poderá expandir indefinidamente. E de certeza que, no ponto de não-retorno, já não haverá lugar para o sistema solar e, nele, a Terra e, nesta, a VIDA.

3 – Se não antes, pelos dados actuais da Ciência, a Terra irá acabar dentro de 4 a 5 mil milhões de anos, com a morte do Sol, acabando-se a Vida nela existente. Seria uma visão muito redutora admitir que essa MENTE SUPREMA só tivesse querido vida neste Planeta e a prazo. Depois, dizer “quis” é atribuir-lhe um querer, uma vontade, ou seja, é humanizá-la, descredibilizando-a como ENTIDADE DIVINA!

4 – Pela lei das probabilidades, dada a dimensão nem sequer imaginável pelo nosso intelecto, do Universo, com milhares de milhões de galáxias, cada uma com milhares de milhões de estrelas, estrelas que conterão o seu sistema solar, haverá muitos planetas dessas estrelas onde se materializem as condições que originaram a VIDA na Terra. A Terra – pesem embora as suas condições óptimas para o surgimento da Vida, de localização, movimento e temperatura, em todo este colossal Universo, não pode ser única! Tal exclusividade seria premissa impossível – e sem sentido matemático! – de acreditar.

5 – O ADN criado náo é estático mas evolutivo. As espécies evoluem dentro da própria espécie, adaptando-se ao meio, ou, não desaparecendo pela acção predadora dos elementos ou de outros seres vivos infestantes, evoluem para outras espécies, reproduzindo-se sempre, obedecendo ao misterioso instinto vital de conservação. A toupeira, por exemplo, sendo um rato, ao “decidir” viver debaixo da terra, perdeu os olhos e desenvolveu o olfato, o ouvido e o tacto para procurar alimento e parceiro com que acasalar.

Mais:

Tentando “casar” o criacionismo com o evolucionismo, admitindo a tal Mente Suprema, Criadora de tudo o existente, eterna e infinita, potenciando, em toda a matéria e energia que compõem o Universo – ou os pluriversos – condições para que neles surgisse a VIDA – a dinâmica dos elementos, dadas tais condições, não poderia resultar senão em vida! Na Terra ou em qualquer parte do Universo!

No entanto, é preciso:

1 – Definir MENTE CRIADORA. (Sobre o assunto, veja-se o texto aqui publicado em 04/08: “Divertimento intelectual para férias”).

2 – Aceitar que essa Mente Suprema Criadora, Suprema Inteligência, não iria criar um ADN para acabar, assim, com o fim anunciado da Terra, sem continuidade em outros pontos do Universo, ou nos pluriversos, dado que este, estando em expansão, irá forçosamente desintegrar-se.

3 – Admitir que o ADN criado foi um ADN evolutivo e não estático ou ali acabado no acto da sua criação.

4 – Realizar como matematicamente absurda e ter por nula a afirmação criacionista de que a Vida só surgiu uma vez no Universo e… apenas na Terra.

5 – Considerar que, dada a complexidade do ADN e sabendo-se racionalmente que não pode haver um efeito sem uma causa, isso poderia levar-nos a uma MENTE CRIADORA, resolvendo-se a dificuldade de saber quem depositou no ADN a força incontrolável e imparável para se replicar e reproduzir, facto que observamos em todos os seres vivos (mesmo os “meio-vivos” como os vírus), animais, fungos e plantas, revelando possuir algo de imaterial, espiritual, se quisermos. Mas o cérebro é também pura matéria energizada. E produz “antimatéria”, como ideias, pensamentos, emoções, cálculos, deduções, etc., estando nele sediada a própria consciência que o ser humano tem de si, do seu princípio e do seu fim, mais do que em qualquer outro animal, animal que também tem cérebro, mais ou menos complexo.

 

Na visão evolucionista, a hipótese mais comumente aceite para se chegar ao ADN, é a que se baseia na evolução e interacção dos elementos químicos que constituem tanto os seres vivos como os não vivos, tanto a matéria activa e energizada como a matéria inerte.

Os elementos químicos – carbono, hidrogénio, oxigénio, nitrogénio, fósforo e enxofre – denominados colectivamente “elementos biogénicos” (geradores de vida), estão entre os mais abundantes do Universo.

Então, num tempo remoto, mas já tendo a Terra cerca de 1,5 mil milhões de anos de existência, dadas as condições ideais de humidade e de temperatura, aqueles elementos químicos (átomos), bombardeados por descargas eléctricas abundantes àquela data, reagiram – ou foram reagindo entre si – formando-se moléculas cada vez mais complexas, até chegarem a desdobrar-se, num movimento imparável, como imparável é o desencadear de novas vidas, originando-se muitos e diversos ADN dos primeiros seres vivos, começando logicamente pelos microscópicos e unicelulares, transformando-se depois, caminhando “alegremente”, em cerca de 3 mil milhões de anos, até aos gigantes dinossauros, extintos há mais de 65 milhões e, finalmente (por agora!) até ao ser inteligente que é o Homem, com um cérebro (que é pura matéria orgânica) capaz de raciocínios abstratos e de ter consciência.

É impossível a alguém, com a abertura de espírito de cientista, acreditar numa tese puramente criacionista.

Aliás, como se constata que, nos átomos e moléculas dos elementos, existem forças de vária ordem, umas fortes outras fracas, cujo poder total desconhecemos, e como tudo está em evolução e em movimento, nada se perdendo, tudo se transformando – nós, cada um de nós, também, integrados que estamos nesta fantástica engrenagem! – a probabilidade de a VIDA ter aparecido nesse primitivo complexo contexto químico parece inquestionável.