sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (49/?)

 
PARA ALÉM DO FIM
Cinco momentos de reflexão
I
Fundamento das nossas dúvidas, as dúvidas que estão na base desta “Vida de Cristo” narrada pelo próprio
(Cont.)
 
 
    10. Como produto judeu, Jesus foi inventado de acordo com as antigas Escrituras e para que estas se cumprissem, dando fôlego a um povo que estava absolutamente necessitado de um Messias salvador, dadas as circunstâncias trágicas em que se encontrava, não se esquecendo os seus inventores de anexar ideias de Fílon, onde os evangelhos se inspiraram para o relato de sua pretensa vida.
    11. Enfim, não deixa de ser sintomático que Jesus Cristo não tenha deixado nada escrito de seu quando tantas personagens ilustres do tempo o fizeram.
Conclusão:
    Realmente, lendo os apologéticos cristãos, constatamos que os seus argumentos acerca da historicidade dos Evangelhos e da historicidade de Jesus, como homem, têm quase sempre pés de barro e, quando não, os pés que têm ou parecem ter não dão para andar muito!... Mas, admitindo de bom grado a existência do Jesus histórico, vamos deparar-nos com o fenómeno da sua transformação em Messias ou em Cristo e, megalomanamente, em Filho de Deus, atribuindo-lhe os mais espantosos milagres! Não sendo nosso propósito alongarmo-nos, aqui, sobre tão fundamental assunto para o início do cristianismo, apenas diremos que foi Paulo, cronologicamente, após ter tido conhecimento de Jesus por alguns dos seus discípulos, nomeadamente Pedro, com o qual depois se incompatibiliza, o seu grande arquitecto, criando comunidades fora da Palestina a quem ministrava as suas ideias acerca de Deus e da Sua intervenção na História do Homem através de Jesus, o Cristo, orientando-as depois por meio de cartas, seguindo-se, uma ou várias dezenas de anos depois, os evangelhos, de Marcos a João, com a mitificação do seu herói, para “alimentar” ou firmar na fé as comunidades de Paulo e outras que entretanto se foram formando, sendo talvez a primeira a de Jerusalém presidida pelo irmão de Jesus, Tiago. A nova religião, que mais tarde se chamaria cristianismo, aparecerá, nos seus primeiros tempos, como uma síntese do judaísmo com o paganismo antigo, incorporando todas as tradições culturais e religiosas conhecidas no mundo de então. Poderíamos, pois, sintetizar a verdade acerca das origens do cristianismo, reflectindo criticamente sobre os escassos dados históricos disponíveis e já atrás referenciados, opondo-nos, obviamente, a todas as histórias do cristianismo que não obedecem ao princípio crítico de análise e que, por isso, não devem merecer credibilidade: 1 – C. do ano 33, Jesus morre, com c. de 38-40 anos de idade, condenado pelas entidades religiosas do tempo, considerando-o um insubordinado ao poder político-religioso, à morte na cruz, segundo o costume romano, mas sem qualquer milagre a acompanhá-lo, como descreve Mateus; 2 – Os discípulos continuam a pregar a sua mensagem de fraternidade universal, o Paraíso para os bons, o Inferno para os maus, a ressurreição e a vida eterna, formando várias pequenas comunidades ali em Jerusalém; 3 – os fariseus movem-lhes guerra e perseguições, e, entre eles, encontra-se um indivíduo ambicioso e inteligente (com a dupla nacionalidade: judeu e romano) de nome Paulo; era de Tarso; 4 – C. do ano 50, dá-se a reviravolta em Paulo: de perseguidor passa a pregador e a apóstolo do que ele chama cristianismo; do que ele conta da sua conversão, (Act 22, 6-16; 22,9; 26,14) tudo leva a crer ser uma metáfora da sua doença, a epilepsia, doença a que ele próprio faz referência, chamando-lhe “espinho cravado na carne” (2Cor 12, 78); então, sem qualquer milagre, em transe epiléptico, teve a original ideia de aproveitar o Jesus e a sua mensagem, focando-a, sobretudo, na ressurreição dos corpos, tendo Jesus sido o primeiro “grande ressuscitado”, mas cuja ressurreição seria penhor da ressurreição de todos os Homens para irem, então, e por toda a eternidade, para o Paraíso ou Inferno, conforme as suas obras: “Se ele não ressuscitou, é vã a nossa fé!”; Paulo decide que a nova religião deve ser pregada não só aos judeus mas também aos gentios, mais uma ideia genial votada ao sucesso: é que a mensagem era fortemente aliciante, primeiro, para os pobres escravos que viam, enfim, fazer justiça, tendo a esperança da vida eterna, depois, para ricos e governantes que viram na religião o que ainda hoje vêem: uma forma de exercer o poder sobre os outros Homens (teor político) e, ao mesmo tempo, a possibilidade de, depois da morte, terem um Paraíso à sua espera (esquecendo-se, claro, do que Jesus dissera no seu evangelho: “Tu, rico, tu já tiveste a tua recompensa...”); a actividade de Paulo durará, quer como apóstolo quer como escritor de cartas para as comunidades que tutelava, c. de uma década, até meados do ano 60; 5 – Pelo ano 70, aparece o primeiro evangelho, narrando uma suposta vida pública de Jesus e já muitos dos seus supostos milagres, certamente a mando de algum padre da altura para firmar na fé as comunidades já formadas; 6 – Entre 70 e 80, aparece o evangelista mais prolixo em milagres: Mateus; Mateus amplia Marcos e tenta dar um certo ar de credibilidade à sua narrativa, apresentando datas históricas, mas destruindo logo tal credibilidade, com a invenção de inúmeros milagres totalmente absurdos, desde o nascimento de JC até à sua morte; 7 – Há um lapso, no entanto, na narrativa: pouco se diz dos acontecimentos que rodearam o nascimento de Jesus; e, assim, aparece Lucas a colmatar tal lacuna, inventando tudo, obviamente, inspirando-se nas lendas sobre o nascimento de deuses antigos, sobretudo os deuses solares, reescrevendo Mateus em outros episódios da suposta vida de Jesus; 8 – Pelo ano 90, aparece o segundo teólogo do cristianismo (o primeiro fora Paulo), João, com o seu evangelho, mais ou menos enigmático acerca da divindade una e trina de Deus; 9 – Nos séculos segundo e terceiro, as comunidades cresceram e consolidaram-se, não havendo perseguições que fizessem demover tal movimento; foi assim que se chegou ao Concílio de Niceia, convocado pelo Imperador Constantino, 325, onde o cristianismo praticamente se torna religião oficial do Império, o que tornou ainda mais fácil a sua propagação…
E assim nasceu mais uma religião, baseada na efabulação, na imaginação de alguns, na teimosia e interesses de outros, na falsidade aliciante de uma justiça divina, uma fraternidade universal, um fantástico Paraíso, uma eternidade junto de Deus... Religião que arrebata consciências frágeis e que, tendo conquistado (apenas!) um quarto do mundo, em dois mil anos..., continua, no entanto, viva em muitos países, sobretudo junto das classes mais pobres e mais ignorantes, explorando a sua fácil tendência para a crença ou crendice, valorizando tudo o que tenha cheirinho de milagre ou de sobrenatural, milagre e sobrenatural obviamente inexistentes…, comandada e dirigida de Roma pelo todo-poderoso e corrupto Vaticano – pese embora a actual lufada de ar fresco nele introduzida pelo Papa Francisco – com a não menos poderosa Congregação para a Causa dos Santos a aceitar supostos milagres aqui e ali realizados por Deus, pela intercessão deste ou daquele candidato a santo… Tudo, obviamente, sem qualquer consistência racional ou científica, digam embora eles o contrário!
E Religião que viria, seiscentos anos mais tarde, a ter uma grande adversária ou rival: o maometismo, cujo avanço avassalador e rápido o fez na segunda maior religião monoteísta organizada do mundo (sendo a de menor dimensão a judaica com o seu Javé, tendo, no entanto, sido dela que derivaram e onde se alicerçaram as duas outras), mas com todos os problemas que o mundo conhece, desde que nele se impôs pela espada e, agora, com a espada, (melhor, com bombas!) se trucidando, sobretudo nas suas duas grandes seitas: sunitas e xiitas. Que Deus, santo Deus, poderá aprovar tal religião, tais religiões, tais mortandades?! Mas é a realidade! A do cristianismo, mais em séculos passados, e a do maometismo, nos nossos tempos, quase ali ao nosso lado...

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (48/?)
 
PARA ALÉM DO FIM
Cinco momentos de reflexão
I
Fundamento das nossas dúvidas, as dúvidas que estão na base desta “Vida de Cristo” narrada pelo próprio
(Cont.)
 
    4. Os sacerdotes cristãos Justino (103 - ?), Tertuliano (c.155 - c.220), Orígenes (c.185 - c.254) e Cipriano (? - 258) acusam Flávio Josefo de partidário e faccioso por nada dizer de Jesus Cristo. Este será mais um argumento para ter como falsas interpolações posteriores as poucas referências que sobre ele aparecem em Flávio Josefo: um parágrafo apenas!
    5. Segundo os pergaminhos do Mar Morto, os manuscritos de Qumran descobertos em 1947, escritos em hebraico e não numa qualquer tradução ou original grego, o Chrestus essénio, datado do Iº s. a.C., também foi morto por um Judas. E, imediatamente antes de Jesus Cristo, houve um Messias, Menahem, o essénio que depois de lutar contra os romanos, obtendo algumas vitórias e fazendo muitos seguidores, foi morto semelhantemente a Jesus Cristo.
    6. Justo de Tiberíades escreveu uma história dos judeus, indo de Moisés ao ano 50 d.C., e nada diz sobre tão carismática personagem. Fílon de Alexandria, um dos judeus mais ilustres de seu tempo, apesar de ter contribuído poderosamente para a formação do cristianismo, platonizando e helenizando o judaísmo, também não deixou a menor prova de ter tomado conhecimento da existência de Jesus Cristo. Tinha escrito um tratado sobre o Bom Deus Serapis, tratado que foi destruído. Os falsificadores cristãos dos s. III e IV não hesitaram em atribuir as referências ao deus Serapis como sendo feitas a Cristo, o que obviamente era impossível pois Fílon morreu no ano 50 d.C., antes de a denominação de “cristãos” estar implementada. Fílon relata os principais acontecimentos de seu tempo, do judaísmo e de outras crenças, não mencionando nada sobre Jesus; cita Pôncio Pilatos e a sua actuação como Procurador da Judeia de 26 a 36 d.C., mas não se refere ao julgamento de Jesus a que teria presidido; quando, no reinado do imperador romano Calígula, de 37 a 41 d.C., esteve em Roma defendendo os judeus, relata diversos acontecimentos da Palestina, mas não menciona nada a respeito de Jesus, os seus feitos, a sua sorte, o seu destino, estendendo-se o mesmo silêncio aos apóstolos, a José, a Maria, seus filhos e toda a sua família. O silêncio de Fílon, juntando-se ao de Josefo, revela estarmos perante uma bem sucedida criação mitológica. É que, se a existência de Jesus como nos narram os evangelhos canónicos fosse verdadeira, o mundo de então teria de certeza ficado abalado com tão estranha personagem histórica. Por isso, os acontecimentos narrados pelos evangelistas não passam de pura fantasia religiosa, referindo-se a personalidades irreais, ideais, sobrenaturais de inexistentes taumaturgos.
    7. Não se conhece nenhum documento atestando que os gregos, os romanos e os hindus dos séculos I e II ouviram falar na existência física de Jesus Cristo ou em qualquer movimento religioso ocorrido na Judeia, chefiado por ele. Os documentos em que a Igreja se baseou para formar o cristianismo foram todos inventados ou falsificados no todo ou em parte, para esse fim. A Igreja sempre dispôs de uma equipa de falsários que se dedicaram afanosamente a adulterar e falsificar os documentos antigos com o fim de pô-los de acordo com os seus cânones. Terá sido o caso do piedoso e culto bispo de Cesareia, Eusébio (c.265 - c.340 d.C.) que, entre muitas obras, escreveu “A história da Igreja”, estabelecendo as bases dos primórdios do cristianismo, com afirmações polémicas a propósito das guerras que assolaram a Palestina como, por exemplo: “Foi assim que a vingança divina se cumpriu para os judeus pelos crimes que ousaram perpetrar contra Cristo.” (Livro V, cap. 6).
        8. A História, em dois mil anos, não encontrou uma única prova ou um documento que mereça crédito no que diz respeito à vida de Jesus. O seu nascimento, vida, morte e ressurreição, tudo o que lhe diz respeito tem analogia com as crenças, ritos e lendas dos deuses solares, adorados sob diversos nomes e modalidades por diversos povos da antiguidade, desde a orla mediterrânica ao Egipto, à Pérsia, ao Oriente, sendo Mitra e Krishna os mais conhecidos. Pode, pois, concluir-se que a sua existência é fictícia e integra-se na mitologia vinda de antigas religiões.
    9. O Jesus descrito nos Evangelhos pode ser Brama, Buda, Krishna, Mitra, Horus, Júpiter, Serapis, Apolo ou Zeus, apenas com uma nova roupagem. O Cristo descrito por João aproxima-se mais desses deuses redentores do que o dos outros evangelistas: inspirando-se nas ideias dos orientais de um deus antropomorfizado, criou um Jesus divino, não por causa dos seus pretensos milagres, mas por ser o Logos, o Verbo feito carne. Jesus não fez milagres, ele é o próprio milagre: nasceu de um milagre, viveu de milagres e foi para o céu milagrosamente, de corpo e alma, realizando assim mais uma das velhas pretensões dos criadores de religiões: a imortalidade da alma humana.
 

sábado, 12 de outubro de 2013

 
Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (47/?)
PARA ALÉM DO FIM
Cinco momentos de reflexão
I
Fundamento das nossas dúvidas, as dúvidas que estão na base desta “Vida de Cristo” narrada pelo próprio
    Muitos técnicos especialistas em análise de documentos escritos antigos afirmam que Jesus Cristo nunca existiu. Nem mesmo como pessoa histórica. Uma completa efabulação com evidentes interesses religiosos e sociais, primeiro, depois, também económicos e políticos. E os seus argumentos são altamente, irresistivelmente, irritantemente convincentes, baseados em provas de acentuado cunho científico, praticamente irrefutáveis.
    Resumamo-los em 11 ítens:
    1. Pelo trabalho de notáveis mestres de Filosofia e Teologia da Escola de Tubingen, na Alemanha, recorrendo à pesquisa histórica e a exames grafotécnicos, deu-se como provado que a Bíblia, Antigo e Novo Testamentos, não possui qualquer valor histórico, devido à falta de rigor com que aborda personagens e acontecimentos, pressupondo-se pois eivado de falsidade ou de inverdade tudo quanto a Igreja impôs como verdade sobre a inspiração divina da “Sagrada” Escritura e sobre a figura histórica de Jesus Cristo. Aliás, manter que a Bíblia foi inspirada por Deus, deixa Deus em muito má situação pois não só mostra uma inadmissível ignorância acerca da origem do Universo, da Terra e nela a vida, como se transforma ao longo dos séculos, passando de violento no A.T. a um Deus de paz e de amor no N.T. E estes são apenas dois entre muitos outros argumentos possíveis de aduzir para provar a impossibilidade de tal inspiração.
    2. O dia do nascimento de Jesus Cristo foi calculado por Dionísio, o Pequeno, no século VI, marcando o ano 1 do século I, correspondente ao ano 753 da fundação de Roma, com um erro de previsão de cinco a nove anos. Já nos meados do s. IV, a Igreja teve a preocupação em fazer com que o nascimento de Jesus coincidisse e se confundisse com o dos deuses solares, os deuses salvadores, e especialmente com o Deus Invictus que era Mitra. E era justamente o mitraísmo que a religião cristã pretendia absorver. No dia 25 de Dezembro, todas as cidades do império romano estavam iluminadas e enfeitadas para festejar o nascimento de Mitra. Foi um dos grandes trabalhos de mistificação da Igreja, a confluência dos dois nascimentos para a mesma data. Assim, o nascimento do novo deus no princípio do Inverno apagava a lembrança de Mitra da memória do povo. Aliás, desde milénios que as tradições religiosas fizeram com que todos os deuses redentores nascessem em 25 de Dezembro. Esqueceram-se, no entanto, os eclesiásticos do tempo do que Lucas narra no seu evangelho – e isso ficou consagrado, para a História, nos presépios de Francisco de Assis – a saber que os pastores dormiam e tinham os seus rebanhos ao relento, facto que só acontece a partir da Primavera, indo até meados do Outono. Então, o 25 de Dezembro é data impossível para o nascimento de Jesus a quem chamaram de Cristo...
    3. Os escritores do tempo em que supostamente viveu Jesus Cristo, Fílon de Alexandria (c.20 a.C. – c.54 d.C.), Flávio Josefo (c.37 - c.100 d.C.), Justo de Tiberíades (s. I d.C.), Tácito (55-120 d.C.), Suetónio (c.69 - c.126 d.C.) e Plínio, o Jovem (c.61 - c.126 d.C.) fazem-lhe apenas pequenas referências, nos seus escritos. E tais escritos, após terem sido submetidos a exames grafotécnicos, revelaram-se adulterados no todo ou em parte, sendo consideradas aquelas poucas referências interpolações dos séculos III e IV d.C. Além disso, podem não ser feitas ao Cristo dos cristãos já que, significando “Messias” houve, ao tempo, na Galileia e na Judeia, outros pretendentes ao título, tendo os essénios, influente comunidade instalada em Qumran, o seu próprio Chrestus. O estrondoso silêncio destes historiadores, historiadores credenciados pela opinião pública e pela História, arrasa completamente a credibilidade dos arrebatados e estrondosos milagres de JC, milagres narrados pelos quatro evangelistas canónicos, sendo Mateus o seu principal herói, como narrador/inventor de tais acontecimentos. Tudo, portanto, leva a crer que aqueles “acontecimentos” – e tantos foram eles, e tanto contribuíram para divinizar o judeu Jesus! – foram produto da fértil imaginação dos evangelistas, obviamente com interesses político-religiosos; é que se tratava de credibilizar o homem no qual se basearia a nova religião nascente: o cristianismo. Interessante: conseguiram tal objectivo! A explicação nem é difícil. Ela assenta em três factores: 1 – a necessidade de naquele momento o povo judeu necessitar de um Messias que o salvasse do jugo romano; 2 – a proliferação de seitas religiosas, algumas descendo às origens e pureza do judaísmo, opondo-se às “seitas” instaladas, como o grupo dos escribas, dos fariseus e saduceus a dominarem o aparelho religioso, sendo a mais significativa, a dos essénios; 3 – (the last but not the least!) a força da mensagem de JC, num mundo dominado pelos senhores livres que tinham ao seu serviço uma grande comunidade de escravos: a fraternidade universal, considerando todos os Homens iguais e livres, já que todos filhos do mesmo Deus, o mesmo Pai do Céu, prometendo, ao mesmo tempo, aos bons, o Paraíso e aos maus, o Inferno, ressuscitando aqueles para ficarem junto de Deus, estes, para fazerem companhia ao Diabo... Por toda a eternidade!

domingo, 6 de outubro de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (46/?)

 
A minha morte
 
    Da minha morte, apesar das muitas incertezas quanto à data referida pelos evangelistas, estava tentado a dizer-vos o ano, o mês, o dia, a hora e até o dia da semana, pois, no dia seguinte, sábado, comemorar-se-ia a Páscoa, a grande festa judaica que já não me deixaram comemorar: morri pelas três horas da tarde do dia três de Abril, que era uma sexta-feira, do ano 35 da era cristã. Tinha uns quarenta anos de idade.
    Se quiserem, acreditem nas narrativas factuais dos evangelhos e em todos aqueles sofrimentos horríveis que me infligiram, considerando-me réu de morte, uns por blasfemo, outros, Pôncio Pilatos incluído, por ter de algum modo atentado contra a soberania de Roma e o seu todo-poderoso Imperador, dizendo-me rei e não o negando, tendo suportado masoquistamente a flagelação, a coroação com espinhos, o transporte da cruz a subir o monte do Calvário onde me iriam crucificar. Acreditem ainda naqueles românticos episódios, primeiro do sono, depois da fuga dos discípulos, o meu suar sangue, suor e lágrimas, o beijo do pobre Judas que me traiu, os meus lamentos perante Deus que me abandonara em hora tão trágica... Mas não acreditem, obviamente, em todos os fenómenos naturais descritos por Mateus aquando da minha morte: terramotos, escurecimento do céu, cortinas rasgando-se no Templo, mortos a ressuscitarem por todos os cantos da cidade... Aquele Mateus bem poderia pensar que, dizendo tais barbaridades, só seria acreditado por quem nunca iria ter, durante a vida, a luz da razão espevitada pela Ciência e pela Verdade. Enfim, foram “limitações” dos escribas do tempo que iriam ser bem aproveitadas por muitos, séculos fora, arrogando-se o direito de se dizerem meus representantes, meus seguidores e de me adorarem como Filho de Deus que não sou, ou sou e fui tanto como qualquer ser humano o é: uma partícula do Deus da Harmonia Universal que é tudo e tudo contém. E... recordam-se? Recordam aquela comovente cena de eu dizer ao “bom” ladrão que estava sendo crucificado a meu lado: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso!”? Ah, como gostaria que tal tivesse sido verdade e não fantasia do evangelista! Como gostaria! Verdade para ele... Verdade para mim também!
    Da ressurreição, em que se baseia toda a Fé dos cristãos, a começar por Paulo que viveu no meu tempo, que poderei dizer? Que é mais uma falsidade? Mais uma fantasiosa congeminação? Uma pura invenção, imitando as lendas dos deuses solares que ressuscitavam em cada Primavera? É, sem dúvida, o culminar das invenções orquestradas para me fazerem o tal Cristo em que quiseram transformar-me com os mais diversos fins. Mas, sejamos benevolentes, o principal objectivo seria, com certeza, resolverem as suas dúvidas existenciais sobre um Além desconhecido, projectando-se num Paraíso habitado por um Deus magnificente, e por toda a eternidade. Então, terão direito ao nosso perdão, embora a Verdade seja a de que não houve ressurreição nenhuma, sendo portanto, nas palavras de Paulo, vã toda a fé que se queira construir a partir dela... Aliás, as ressurreições referidas no A.T. ou as que me são atribuídas, sendo a de Lázaro a mais espectacular por já estar morto havia quatro dias, as que são atribuídas a Pedro e a Paulo ou outras quaisquer, são apenas efabulações poéticas de metafórico significado. Nada de verdade existiu nelas!
    Também não apareci ressuscitado a ninguém! Como poderia ser, se a minha ressurreição pertence ao domínio da fábula? Se tal tivesse acontecido, seria fenómeno a ser conhecido por todo o Império Romano e não só em Jerusalém, onde, segundo os evangelistas, cada um a seu modo e com diferentes personagens, eu apareci a umas quantas mulheres e a alguns discípulos, mostrando as chagas das mãos e dos pés, comendo e bebendo, abençoando e partindo o pão... Tudo fantasias! Quem poderá pensar que se eu tivesse tido o poder de ressuscitar, apareceria apenas a uns poucos dos que me conheceram e não a multidões, aos próprios que me condenaram, neles Pôncio Pilatos, indo triunfante até ao César de Roma? Quem? Como perderia eu tamanha oportunidade de fazer realmente descer o Céu à Terra e convencer todos os humanos do Reino de Deus e de fraternidade universal a implementar na mesma Terra? E então, sim: o brado da minha existência teria ecoado pelos séculos dos séculos, todos os historiadores relatariam longamente o estranhíssimo fenómeno, acabar-se-ia o moribundo, ao tempo, judaísmo, não teria havido lugar a Maomé com seu Corão e a sua religião, e o mundo, hoje, seria outro completamente diferente. Certamente muito melhor! Assim, foi realmente pena que a minha ressurreição se tivesse ficado pela pura fantasia dos evangelistas, não foi?
    Enfim, também não houve nenhuma ascensão ao céu! Infelizmente! E também aqui bem gostaria de me ter prolongado como indivíduo por toda a eternidade junto de um Deus sempre renovado! Oh, se gostaria! Mas... não! Humano como todos os humanos – aliás, não há, nunca houve, não haverá de certeza seres divinos nenhuns à face da Terra! – voltei ao pó donde viera, dando razão ao Génesis: “Lembra-te, ó Homem, que vieste do pó e para o pó voltarás.” É pena! Muita pena mesmo! Pena de levar às lágrimas qualquer um! “A frustração total!” –gritareis vós. Certo! Mas que havemos de fazer se esta é a inexorável Verdade, a única Verdade acerca da condição humana? “Ah, como nos deixas sem nenhuma fé, sem nenhuma esperança, sem nenhum sentido para a vida que, em breve, se acabará! Não! Não te queremos ouvir! Vai-te e não fales mais!” – direis ainda.
    Sem resposta, com a voz se me embargando de vos ter deixado nessa frustração da não existência de um Além, de uma eternidade, de um Paraíso e nele um Deus magnificente, só me resta despedir-me de vós que, apesar de tudo, tivestes a paciência de aqui estar comigo. Adeus, até à... eternidade onde me encontro, eternidade que existe em toda a parte e em parte nenhuma. A “minha” eternidade, a eternidade de todos! Nem céu, nem inferno, nem Deus nem o Diabo neles! O... NADA! Ou... o TUDO, pois permaneço em moléculas de outros seres que “ansiavam”, na ordem natural das coisas, pela minha morte, para de mim “herdarem” átomos e moléculas que lhes dão o ser e a vida que agora possuem. Assim, sou eterno, sou, não como indivíduo que já fui, mas nesses seres, outros que não eu, que me perpetuarão pelos séculos dos séculos, enquanto houver tempo, que forçosamente se perderá na eternidade!...
 
 
 
 
FIM

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Aquando do meu adeus à vida

Amanhã, “it’s a special day! My birthday!” 70 anos!...
“Quem já muito andou pouco ou nada tem para andar!” É: o fim irá chegar. Mais cedo ou mais tarde, irá chegar. Inexoravelmente! Como inexoravelmente, o tempo não pára e não há manhã que persista nem tarde que não se acabe...
E, antes que a “voz” se me cale para sempre, a morte me surpreendendo descuidado, eis o que gostaria de deixar como epitáfio de uma vida que foi e... se foi:
«Adeus! Adeus, até àquela eternidade que, queiramos ou não, nos assistirá a todos: a transformação em átomos e moléculas de matéria, matéria que se manterá pedra ou entrará no ciclo da vida de um outro ser vivente qualquer, seja animal, seja planta. Mas nós – eu, tu ele – nós, com esta individualidade que temos – melhor, tivemos! – essa não existirá mais. A razão é tão mais que simples: pertencemos ao Tempo, aparecemos no Tempo, vivemos um tempo, integrando-nos no princípio universal da matéria de que “tudo o que tem um princípio, tem inexoravelmente um fim associado”. Embora, nada se perdendo, tudo se transformando... Então, como poderíamos ser a excepção? Quem quiser acreditar noutra hipótese, que acredite ou tenha a presunção e a vaidade de acreditar; mas não passará, nunca passará de simples, ingénua etérea crença...
Ora, pois, sendo assim, que me resta dizer, nesta hora de adeus à vida? – Simplesmente, que foi bom, foi muito bom, foi privilégio que não foi concedido a milhares de milhões de outros seres humanos que ficaram e ficarão para sempre na hipótese de ser... Eu... fui! Que bom! Houve sofrimentos? – Claro que houve? Frustrações? – Quantas, santo Deus! Desilusões e arrependimentos de atitudes tomadas? – Também! Mas tudo foi vida! E fui inteligente quanto bastou para me agarrar mais aos gostinhos dela do que aos seus desaires ou sofrimentos, embora leve comigo a frustração, nesta hora de despedida, de não ter conseguido com que alguns dos que me rodearam jogassem comigo o jogo do só positivo, do só alegria, do só sorriso, criando tantas vezes momentos de suprema infelicidade, arruinando nervos e avolumando rugas no rosto, por ninharias sem importância nenhuma. Que perda de vida, santo Deus! Que perda de vida!
Então, que mensagem deixar aos que de mim tiveram conhecimento e por cá ficarão mais uns tempos, até chegar a sua hora de partir? – A grande mensagem será: VIVAM AO MÁXIMO A VIDA, VIDA EM QUE CADA MOMENTO É ÚNICO E IRREPETÍVEL! VALORIZEM TUDO O QUE É POSITIVO! QUE O NEGATIVO OU ERROS SIRVAM APENAS PARA MELHOR VIVER A OUTRA PARTE. E SORRIR! SORRIR SEMPRE MESMO QUE A VOZ, POR DENTRO, DOA, DOA MUITO, MUITO!!!»
E flores? Não há flores a enfeitar teu caixão? – Oh, não! Pese embora o desemprego das floristas, se a moda pega, de flores, apenas uma rosa devidamente humedecida para durar muito para além do ali jazer em cima do meu caixão, nas mãos ou na mesa de quem me for mais próximo. É que flores, ramos de flores, dão-se em vida para homenagear ou mostrar carinho, amor, afecto. Depois, para que raio quer um morto o seu caixão enfeitado de flores, flores que morrerão logo que desça à cova escura, ou enfrente as labaredas da cremação, e o Sol as cosa no cemitério?... E caixão, apenas isso: caixa grande onde eu caiba, sem cruz nem adornos; nem por fora nem por dentro; simples caixote de pinho não pintado, cheirando a resina. Pois, tal como as flores, para que raio quer um morto um caixão de oiro? Portanto, nem flores nem caixão doirado...
E um Requiem, por exemplo, o fantástico livrete de Mozart? – Ná! Requiem também não! Nada há para chorar. Cante-se e dance-se! Não porque uma vida se foi, mas porque milhões, biliões de outras continuam, obviamente, as dos presentes. Então, cantem-se essas com Aleluias, o Aleluia de Haendell, por exemplo, ou Hinos à alegria, como o de Beethoven. Ali, mesmo ali, em frente de um morto que, afinal, apenas representa uma vida que se foi...
Então, não há lugar a lágrimas? – Não! Por favor, não chorem sobre o meu caixão, nem façam caras tristes, nem se vistam de negro e outras coisas assim. Lágrimas só para mostrar alegria, comoção, enternecimento. Chorar ali é tempo de vida perdido... Mas quem não conseguir suster as lágrimas, deixe-as correr à vontade. Afinal, uma morte é um momento de despedida e toda a despedida apela à comoção e ao sentimento, àquela saudade que tanto nos aperta o peito...
Enfim, faltam as cinzas. Que faremos delas? – Se não puder ser no mesmo dia, agende-se um outro qualquer para ir até ao rio ou até ao mar e lançá-las à água corrente ou marulhante. Assim, mais facilmente se espalham pela Natureza, moléculas de moléculas que um dia da Natureza vieram e a ela tiveram de regressar impreterivelmente. O Destino implacável, inexorável! Claro, tudo em tom de festa, com música a gosto que até pode ser romântica com violinos ou oboés, cortando os ares...
Vivo agora – melhor, vivi agora! – nesta época fantástica em que de tanto Conhecimento e Ciência já somos capazes. Porquê, então, não ser realista e, mesmo na hora da morte, ver o lado positivo dela? Não foi uma sorte ter vivido? – Pois então, aplauda-se essa sorte e deixemo-nos de lamúrias, lágrimas ou lamentações! O IMPORTANTE É O SORRISO!
Ah, falta a missa, com padre a abençoar os restos mortais e a encomendar a alma do defunto ao Deus Criador! – Não! Por favor, missa também não! É que a religião, ela própria inventada por homens, inventou um Deus inexistente, um Céu inexistente, anjos e santos inexistentes, um Inferno e os seus demónios inexistentes, uma própria alma humana inexistente, uma eternidade ou uma imortalidade inexistentes... Tudo impossíveis, tudo inexistentes pela magna – ou simples?!!! – razão de que tudo pertence ao Tempo e o que é do Tempo não pode ser nem imortal nem eterno. Imortal e eterno só o Deus Infinito – que não é o das religiões! – o Deus que é o TUDO existente, o TUDO onde tudo se integra. O Tempo e tudo o que pertence ao Tempo, também, obviamente.
E tenho dito! Adeus! Adeus, até sempre, mesmo que esse sempre não exista nunca mais porque tudo foi... um dia! Num dado momento do Tempo!...

PS (imprescindível):
Ah, afinal, faltou a magna, talvez a mais importante resposta à pertinente pergunta: “Valeu teres vivido? Tu valeste a pena?” E não tenho dúvidas em responder: “Sim! Eu vali a pena!” E parece-me que quem não puder viver de modo a que, no fim da vida, possa dizer “Eu vali a pena!”, deveria pensar em desistir! Pois, para quê uma inutilidade? Aproveita a alguém, a começar pelo próprio? A questão é melindrosa. Pode levar à depressão, à análise emocional – logo irracional – das situações – e tantas são elas! – em que, na vida, tudo nos parece negro, tudo sem esperança, sendo a morte o caminho mais fácil para colmatar o desespero. E poder-se-iam perder muitas vidas que, julgadas inúteis até ao momento, muito ainda tivessem para dar, primeiro, ao próprio, aquele que tem de dar contas a si mesmo da vida, depois, aos que constituem a comunidade próxima ou afastada, indo do seu canto aos confins do mundo. Por isso, muito cuidado nessa auto-avaliação! É que, o suicídio, uma vez tendo vindo à vida, privilégio, afinal, tão raro, bem vistos todos os ingredientes que levam a um novo ser, é um ponto final antecipado que pode levar a danos irreparáveis em vez de ser uma catarse planetária.
Eu, claro, nunca me suicidaria, na vida! “Custou-me” tanto ter vindo a ela e, agora, ia assim desperdiçá-la por uma depressãozinha qualquer? Nem pensar! Mas, chegado ao fim, eis-me que respondo: “Eu vali a pena!”. Eu gerei, eu plantei, eu lutei com as armas da minha geração – cada geração tem as suas armas e é com elas que deve lutar sem ficar a carpir mágoas por não ter as de outros tempos... – ganhei e perdi, vivi! Eu semeei ideias para mudar pessoas e comportamentos, e o mundo que me viu nascer, o mundo onde nasci, chegando a todas as partes, via Internet. Infelizmente, pouco ou nada fui escutado. Nem nos meus livros, nem nos meus blogs. Talvez um dia! Mas as ideias novas aí ficam para quem as quiser aproveitar e, com elas, mudar o mundo, humanizá-lo, criar a imprescindível fraternidade universal, todos irmãos uns dos outros e não o “homo homini lupus”, “homo” que foi dos romanos e continua a ser nos nossos dias, nas pseudo-democracias criadas por esse mundo, pois todos escravos da tirania do dinheiro, da usura, da ganância de uns quantos que dominam – são “lupus”! – a maior parte da humanidade, não tendo qualquer pejo em deixá-la morrer à fome ou de doença, se isso acarretar ganhos para a sua conta bancária...
Então, e ainda, a última, a derradeira mensagem para os que ficam será: “VIVEI DE MODO A QUE, NO FINAL DA VOSSA VIDA, POSSAIS DIZER, COM UM SORRISO NOS LÁBIOS, SORRISO EMBORA JÁ ALI FENECENDO PELO DESENLACE FINAL: “EU VALI A PENA”!
A...........deus!!!!!
(NOTA: Escrevi isto num dia de euforia. Se o tivesse escrito em dia de depressão ou de desilusão de sucessos não obtidos, dias que de vez quando me atormentam o gostinho da vida, certamente teria sido outra a “literatura”. Mas foi bom que assim não tivesse sido...)

sábado, 28 de setembro de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (45/?)

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (45/?)

    Deixemos, então Paulo, na sua ilusão da ressurreição dos mortos, e no seu empenho em que muitas comunidades acreditassem na sua pregação – o que aconteceu! – para dedicarmos alguma atenção a João, o grande mentor ou teólogo do Logos ou Palavra de Deus.
    Talvez baseado no salmo (Sl2,7) “Tu és o meu Filho. Eu hoje te gerei”, João começa o seu evangelho, inspirado, chamando Logos ou Palavra, a Deus, concluindo que “a Palavra se fez Homem... Filho único do Pai” e foi este Filho único que nos revelou Deus” (Jo 1). E, um pouco mais à frente: “Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu filho unigénito... De facto, Deus enviou o seu filho ao mundo...” (Jo 3,16-17)
    É baseado nesta sua primeira formulação que irá construir toda a narrativa a meu respeito, pondo na minha boca, a seu belo prazer e durante todo o seu evangelho, a afirmação de tal divindade ou tal origem divina, como Filho único real de Deus, ideia que nunca me passou pela cabeça! Apenas alguns exemplos: “Mas eu conheço-o (Deus-Pai) porque venho de junto dele e foi Ele que me enviou”. (Jo 7,29); “«Onde está o teu Pai?» Jesus respondeu: «Vós não conheceis nem a mim nem a meu pai. Se me conhecêsseis, também conheceríeis o meu pai»”, “Eu digo ao mundo coisas que lhe (a Deus-Pai) ouvi”, “Eu saí de Deus e venho dele” (Jo 8, 19; 26; 42); “O Pai e eu somos um” (Jo 10,30); “Não me vereis mais porque vou para o Pai” (Jo 16,10).
    Na narrativa evangélica, certamente já inspirada em Paulo cujas cartas deveriam ser conhecidas dos evangelistas, por já circularem pelas comunidades, havia, pelo menos uns vinte anos, caminha-se de um Jesus que timidamente se considera um ser especial, o “Filho do Homem” ou um “Messias”, para a divinização, obviamente para dar consistência à religião nascente. É que sem Deus a intervir na História do Homem, uma religião não teria qualquer hipótese de sobrevivência. E é na criação de uma nova religião que estão empenhados, primeiro Paulo, depois os discípulos de Jesus e seus sucessores.
    Mas já alguma vez algum teólogo se interrogou profundamente – e... honestamente! – sobre a lógica de Deus ter um Filho? E um Filho único? E que veio ao mundo, encarnando no seio de uma virgem? E que fez aqueles milagres todos, milagres apenas divulgados pelos evangelistas, isto é, os interessados na criação da nova religião, não havendo notícia deles em qualquer historiador da época? E que morre daquela maneira tão estúpida? E que depois ressuscita, aparecendo apenas a uns quantos conhecidos e amigos, quando a sua missão era convencer o mundo todo da sua mensagem do Novo Reino de Deus, devendo portanto aparecer a todo o mundo conhecido de então? Ressurreição que, obviamente, deveria ser notícia em todos os historiadores da época e não apenas nos suspeitos Paulo e evangelistas?
    Enfim, Deus ter um Filho é ontologicamente aberrante, se considerarmos Deus como ser absoluto, infinito e eterno. Como é aberrante a invenção da Santíssima Trindade – Deus uno e trino – para nela colocar, um Pai, um Filho e um Espírito. Aberrante, por inútil e inconsequente. Aberrante também – por totalmente desprovida de bom senso, lógica ou justiça! – a ideia de Deus infinito (fora de todo o espaço ou contendo todo o espaço) e eterno (fora de todo o tempo, ou contendo todo o tempo) enviar o tal suposto filho à Terra, apenas há dois mil anos, encarnando num homem chamado Jesus, para salvar ou redimir o Homem de um suposto pecado original, oferecendo-lhe a salvação eterna..., quando o Homem já existe há uns quatro milhões de anos, fazendo a sua peregrinação evolutiva de símio para o sapiens sapiens actual, quando a vida existe há cerca de três mil e quinhentos milhões de anos, a Terra há cerca de quatro mil e quinhentos milhões, o Universo conhecido há cerca de quinze mil milhões, ignorando-se o que há, houve ou haverá para além dele, no antes e no depois, no misterioso Tempo universal que lhe assiste.
    Esta a verdade – a verdade teológica – acerca de mim. Mas se quiserem continuar a acreditar no Jesus Cristo de Paulo e dos evangelistas, tentando justificá-lo através das Escrituras do AT, Escrituras inspiradas e belas (algumas, claro, sendo outras de atroz ferocidade...), sim, mas inspiração sem qualquer carácter divino, como as igrejas cristãs pretendem, embora não apresentem nenhuma justificação ou prova credível para o facto.
    No entanto, qualquer ser humano, sobretudo um intelectual, poderá viver paralelamente os dois “caminhos”: por um lado, acredita no Cristo e na sua vida eterna e com tal pensamento se conforta nas horas de amargura e sofrimento; por outro, raciocinando, vendo que tudo não passa de efabulações mais ou menos bem construídas, conforme a inspiração dos autores ditos sagrados, (obviamente, pelos mentores, os iniciadores e os continuadores da religião então criada!), diverte-se, remetendo tal facto para a Ciência e o Conhecimento filosófico da vida, das coisas, da História. E porque não, se assim se vive mais feliz?!

domingo, 22 de setembro de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (44/?)

    Mateus, ao narrar a sentença que me ditou a morte (Mt 26,63-64) volta a referir, num diálogo que eu supostamente mantive com o Sumo Sacerdote, antes de me levarem ao procurador romano Pôncio Pilatos: “«Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Messias, o Filho de Deus»”, respondendo eu: “«É como acabaste de dizer»”. Semelhante resposta teria eu dado, à pergunta do procurador: “«Tu és o rei dos judeus»? – “«Tu o dizes».” Aqui, Mateus não deixa de ser ambíguo: se eu me queria afirmar como Filho de Deus, deveria ter sido mais explícito, não me limitando ao «É como acabaste de dizer». E que dizer daquela invenção de eu querer ser rei dos judeus? – Absurda, simplesmente!
    Mateus não iria acabar o seu evangelho sem se referir, várias vezes, à minha condição divina. A mais contundente é a exclamação do oficial e soldados que me executaram, ao verem todos aqueles supostos milagres que rodearam a minha morte (Mt 27,51-54): “A cortina do Templo rasgou-se em duas partes..., a terra tremeu e as rochas fenderam-se, os túmulos abriram-se e muitos santos falecidos ressuscitaram, saíram dos túmulos e passearam-se pela cidade, onde muita gente os viu...: «De facto, ele era mesmo Filho de Deus!» E não falemos mais da minha suposta ressurreição, “facto” narrado pelos quatro evangelistas, certamente lembrando-se de Paulo que uns vinte a quarenta anos antes tinha dito a célebre frase “Se ele não ressuscitou é vã a nossa fé” (1Cor 15), sendo, pois, a minha ressurreição a base de toda a fé cristã na tal vida eterna tão sonhada por Nicodemos. Infelizmente, suposta ressurreição... Infelizmente, suposta vida eterna...
    No entanto, o grande mentor da minha divindade e filiação divina seria o último evangelista, que teria escrito pelos anos 90 a 100, logo, cerca de 50 anos depois dos “factos” terem acontecido. Mas antes de irmos a João, vamos a Paulo que foi realmente o iniciador da minha cristificação/divinização.
    Em todas as suas cartas, pelo que ouviu falar de mim, parte do princípio, mas sem qualquer prova credível – os milagres que, uns vinte anos mais tarde do que Paulo, Mateus inventou para me divinizar não circulavam ainda pelas comunidades – de que eu fui o Cristo, o Messias, o poder de Deus, a sabedoria de Deus, sempre me chamando por “Jesus Cristo” ou “Nosso Senhor Jesus Cristo”, e assim, constrói o seu mundo religioso, mundo que viria a originar a religião cristã. Escreve bem Paulo. E inspirado! E escreve sobre usos e costumes, tentando, numa atitude louvável, moralizar as comunidades para quem escrevia, tendo sempre como base os meus ensinamentos, embora alguns deles os tenha deturpado ou adaptado ao seu modo de pensar e, claro, nunca esquecendo a ideia primeira de que eu era o Cristo, o Filho de Deus. O momento alto da sua inspiração talvez tenha sido aquele em que escreveu sobre o Amor: “Ainda que eu falasse todas as línguas...” (1Cor 13). O grande embuste de Paulo é que lhe convinha, para dar resposta às suas próprias dúvidas sobre a vida eterna – dúvidas que eram as mesmas de Nicodemos – acreditar piamente na minha ressurreição. Provas credíveis não lhe interessavam muito. Bastavam-lhe algumas: “que eu ressuscitei porque apareci a uns quantos discípulos e, de uma vez, a mais de quinhentos irmãos e também a ele...”, continuando o seu lógico raciocínio: “Ora se nós pregamos que Cristo ressuscitou dos mortos, como é que alguns de vós dizem que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, então Cristo também não ressuscitou; e, se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vazia como vazia é a nossa fé.” (1Cor 15,12-14) Certíssimo, o que Paulo afirma. No entanto, todos concordarão que não é pelo facto de Paulo pregar um Cristo ressuscitado que esse Cristo ressuscitou realmente...