Um ponto de encontro para discutir o outro lado da vida, abordando, com toda a abertura de espírito, a sempre polémica dicotomia: Razão e Ciência versus Religião e Fé.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Ter ou não ter fé, “that’s the question”! (1/2)
Diríamos que o “problema” não está no ter ou não ter fé, mas se vale ou não vale a pena ter fé. Depois, ter fé em quê e/ou em quem? Na Bíblia, nos Vedas, no Corão? Em Javé, em Brama, Vixnu e Shiva, no Deus-Pai de Jesus Cristo, em Alá de Maomé? No mesmo Jesus Cristo, no mesmo Maomé? Na Virgem, nos anjos e nos santos? Na(s) Igreja(s) e no que elas dizem ou impõem como dogmas de crença aos fiéis, todas explorando-os, com maior ou menor agressividade, nas suas consciências? (Agressividade também monetária, obviamente, vivendo os seus mentores à custa do que “vendem” aos fiéis... Nesta perspectiva materialista, a Igreja mais escandalosa, através da riqueza acumulada e ostentada pelo seu bispo brasileiro Marcelo, será a Igreja Universal do Reino de Deus, talvez seguida da Igreja Católica – não tendo nós dados suficientes sobre as igrejas protestantes, sobretudo na Alemanha, no Reino Unido e nos USA, bem como as ortodoxas do leste europeu – com o seu rico e altamente dispendioso Vaticano, tudo em nome de um Cristo que pregou exactamente o contrário para se alcançar o Reino dos Céus!)
Ora, parece que nenhum livro dito sagrado, nenhum iniciador de religiões, nenhuma Igreja e muito menos qualquer dos seus mentores – a começar e a acabar no papa da Igreja Católica – merece a nossa confiança para neles termos qualquer fé! Restam-nos o verdadeiro Jesus a quem chamaram o Cristo, a Virgem que o foi por imposição da Tradição de milénios, quando lhe foi atribuída a prerrogativa de “mãe de Deus”, alguns anjos, alguns santos. E, nestes, há que distinguir a fé na sua mensagem e exemplo de vida ou nas suas afirmações mais ou menos fantasiosas de um Além eterno e um Deus a comandar, nesse Além, as vidas dos humanos, depois da morte, com paraísos e infernos, anjos e diabos à mistura...
Tudo resumido, cômputo feito, parece que fica apenas a mensagem do amor universal ou da fraternidade universal de Jesus, dito o Cristo, chegando ao “escândalo” sublime do perdoar ao inimigo e dar a outra face, contra um atávico “olho por olho” judaico que, embora justo, não passava o rasteiro do humano. (Aliás – dizia – “Se perdoardes apenas aos vossos amigos que mérito tereis?...). Agora, o seu Deus-Pai, o seu Céu, o seu Juízo Final de toda a criatura, indo os pecadores para o Inferno, infestado de demónios – aqueles belos anjos que se revoltaram contra Deus, certamente cansados de nada fazerem no Céu... – não merecem mais credibilidade do que a outorgada ao mundo da fantasia: tudo muito lindo e apelativo, quase diria necessário para satisfazer a ânsia de eternidade e de justiça que existe no fundo da alma humana..., mas não havendo nada – mesmo NADA! – que nos prove a sua existência! E, sem provas, qualquer um pode afirmar seja o que for: acredite quem quiser!
No próximo texto, concluindo, falaremos da fé na Virgem, nos Anjos e nos Santos.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
A Eucaristia, mistério ou falácia? (2/2)
Mas a Eucaristia é o – mais um! – “Mistério da Fé!”, como os sacerdotes repetem em cada missa, depois das sagradas e mágicas palavras “Isto é o meu corpo... Isto é o cálice do meu sangue...” terem feito descer Jesus dos Céus à Terra e ficar ali presente na hóstia consagrada, pronto a ser “consumido” pelo mesmo sacerdote e pelos fiéis... Um mistério que se repete praticamente as vezes que um sacerdote quiser! Que poder a destes sacerdotes, santo Deus! Que poder terem ali nas suas mãos o corpo de Deus! Que poder, o de fazer descer Jesus – ou Deus?!!! – do Céu à Terra, ficando ali sujeito às espécies do pão e do vinho!... Isto seria tremendo se não fosse totalmente falso, totalmente arquitectado pelos teólogos da Igreja dos primeiros séculos para darem corpo à religião nascente – a religião cristã! – seita derivada do judaísmo, imitando os essénios que já partilhavam o pão e o vinho como elementos de união entre os da comunidade. E não poderíamos acabar estas curtíssimas reflexões sem questionar a razão pela qual apenas os sacerdotes investidos em ordens pela Igreja detêm o poder de consagrar dizendo as sagradas palavras. É que as palavras “Fazei isto em memória de mim” foram ditas a todos os presentes, os quais não eram senão apóstolos ou discípulos, e não sacerdotes de espécie alguma. Poderemos descortinar a diferença, como apóstolo, entre um sacerdote e, por exemplo, uma Madre Teresa de Calcutá? Não foi esta muito mais apóstolo do que a maior parte de padres, bispos e papas o foram ou são? Tem ela, por acaso, no corpo e na alma, a mancha da pedofilia que alguns sacerdotes carregam consigo e fazem carregar a Igreja que os investiu em ordens e não lhas retirou logo que foram dados como tal, pecadores quase sem perdão porque abusando de crianças, continuando, devotamente, a fazer Jesus Cristo descer do Céu à Terra? Ah, como Jesus, se estivesse realmente presente nas espécies de pão e de vinho, teria saltado delas para avisar toda a comunidade de crentes dos pecados que aqueles sacerdotes tinham cometido! Como teria saltado, “limpando o Templo” de toda a mentira e pecado!... Como teria pegado no chicote e vergastado sem dó nem piedade aquele sexo prevaricador que, escondido debaixo das vestes sacerdotais, já cobiçava, enquanto consagrava, o acólito que ajudava no culto sagrado!... Que sagrado, santo Deus! Que mentira! Que hipocrisia! Que farsa!...
A pergunta – incontornável! – é: “Como é possível haver milhões que acreditam em toda esta farsa só porque alguém lhes diz que assim foi, assim é e assim será? Sem qualquer ponta de credibilidade, como é óbvio? Sem qualquer prova minimamente racional que sustente o mistério”?
terça-feira, 13 de setembro de 2011
A Eucaristia, mistério ou falácia? (1/2)
Por entre as celebrações das “Aparições de Fátima”, onde a Eucaristia teve lugar de destaque, sobretudo com aquele misterioso anjo fazendo de sacerdote..., houve a “Festa do Corpo de Deus”, com direito a feriado nacional, em Portugal.
E se disséssemos que a Eucaristia é mais um “engano” – ou engodo! – da Igreja, com intuitos bem definidos, para o controle das consciências dos fiéis e crédulos?!
Lendo as origens da Eucaristia descritas pelos teólogos católicos, ficamos realmente perplexos. Tudo se baseia na célebre Última Ceia de Jesus com os apóstolos e na não menos célebre frase “Fazei isto em memória de Mim”. Se a Última Ceia é referida por Mateus, Marcos e Lucas e inexplicavelmente omissa em João, tal frase não aparece nem em Marcos nem em Mateus, nem, obviamente em João, mas apenas em Lucas, este mais tardio que os dois anteriores, e também em Paulo, Cor1 11,24, dizendo Paulo ter recebido tais palavras pessoalmente do Senhor. A fórmula actual usada nas missas é uma adaptação e casamento, com pequenos retoques de linguagem, das versões de Mateus e Lucas. Então, não sendo nosso propósito, aqui e agora, embrenharmo-nos em uma mais profunda e prolongada análise que o assunto bem merecia, apenas uma dupla pergunta se impõe: “Como é possível que uma instituição-base de toda a Igreja – a Eucaristia – seja omissa em João, o grande estratega da divindade de Jesus Cristo, no seu evangelho, o participante activo na organização e desenrolar da Última Ceia, durante a qual, segundo reza a Tradição, ele reclinou a cabeça no peito do Senhor Jesus? Como é possível ainda que a frase, a qual afinal legitima a continuação da celebração – «Fazei isto em memória de Mim» – seja apenas referida por Lucas, discípulo de Paulo, e pelo próprio Paulo, ambos ausentes da cena da Última Ceia?” É pergunta que, a não ser respondida, põe em causa uma base tida como sólida para a Igreja e seus crentes, mas, afinal, não o é. Tudo, aliás, seria muito mais fácil, e sobretudo mais credível, se se aceitasse que aquele “Tomai e comei: isto é o meu corpo que será entregue por vós” e o “Tomai e bebei: este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança que será derramado por vós e por muitos para a remissão dos pecados” fossem não tomados à letra mas, como é óbvio para exegetas não comprometidos, apenas e tão só em sentido metafórico. Só com muito boa vontade – vontade de crente que não raciocina e nada põe em causa daquilo que os seus “mentores” lhe dizem – se aceita que a missa – como eles dizem – é a o sacrifício de Jesus morrendo na cruz e ressuscitando ao terceiro dia, embora sacrifício incruento, sem derramamento de sangue, oferecido por Jesus ao Pai, muitas vezes, para remissão dos pecados, através do ministro sagrado, o sacerdote..., que, pela consagração, devida às sagradas palavras, Jesus passa a estar realmente presente na hóstia consagrada, no pão e no vinho, que se transformaram no seu corpo e no seu sangue..., que Jesus fica presente, nas espécies de pão e de vinho, milagrosamente com corpo, sangue, alma e divindade, já não havendo mais pão ou vinho, mas sim o seu corpo e seu sangue. Diríamos que é uma cruel violência fazer os fiéis aceitar, acreditando, que, ao receberem a hóstia e ao beberem do cálice, estão realmente a comer o corpo e a beber o sangue, em sentido real, de Jesus Cristo, cumprindo, aqui sim, as sem dúvida metafóricas palavras de João: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu ressuscitá-lo-ei no último dia. Porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida.” (Jo 6,53-55) Violência cruel, sobretudo para as crianças, na sua primeira comunhão!...
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
A (in)verdade de Fátima (12 - Final)
Para além das aparições, primeiro do anjo, depois da Virgem – estas, sem dúvida, as mais importantes – rezam as Memórias de Lúcia que Jacinta, antes de morrer, teve uma visão do Santo Padre, outra da Guerra e outra de Nossa Senhora. Ela, Lúcia, teve uma aparição da Virgem com o Menino Deus, o Menino Jesus sozinho e a Santíssima Trindade. Francisco, coitado, mais uma vez, foi colocado fora de cena... Pela sua excentricidade, a visão de Lúcia da Santíssima Trindade merece honras de narrativa nas palavras da própria vidente: “De repente, iluminou-se toda a Capela com uma luz sobrenatural e sobre o Altar apareceu uma Cruz de luz que chegava até ao tecto. Em uma luz mais clara, via-se, na parte superior da cruz, uma face de homem com corpo até à cinta, sobre o peito uma pomba também de luz e, pregado na cruz, o corpo de outro homem. Um pouco abaixo da cinta, suspenso no ar, via-se um cálix e uma hóstia grande, sobre a qual caíam algumas gotas de sangue que corriam pelas faces do Crucificado e duma ferida do peito. Escorregando pela Hóstia, essas gotas caíam dentro do Cálix. Sob o braço direito da cruz, estava Nossa Senhora (era Nossa Senhora de Fátima com o Seu Imaculado Coração na mão esquerda, sem espada nem rosas, mas com uma Coroa de espinhos e chamas). Sob o braço esquerdo, umas letras grandes, como se fossem de água cristalina que corresse para cima do Altar, formavam estas palavras: «Graça e Misericórdia». Compreendi que me era mostrado o mistério da Santíssima Trindade e recebi luzes sobre este mistério que não me é permitido revelar.”
Ignoramos o que dizem os teólogos católicos sobre descrição tão grotesca do referido mistério; mas tem de se admitir que a Igreja, ao caucionar tudo o que envolve a irmã Lúcia, aceita também como válida a grotesca narrativa. Constatamos, de novo, que esta Lúcia era mesmo “dada a visões”! E que o “seu divino” gostava de brincar com ela, nas diferentes formas que a Igreja teve – e ainda tem, ao aceitar toda esta aberrante narrativa – na sua enorme capacidade para inventar e afirmar, depois, como certas e de obrigatoriedade de fé, coisas vindas do Céu...
Em comentário final, sorrindo-nos, evidentemente, poderíamos exclamar: “Não há dúvida: o divino gostava mesmo daquelas crianças!...” (Entenda-se como se quiser um tal gostar.) Mas lamentamos profundamente, não, obviamente, todo o turismo que se faz à volta e à custa de Fátima (sempre são milhões que, apesar de vindos dos mais pobres que são os crentes – os ricos não têm tempo para essas “coisas”! – ajudam a débil economia do país), mas o aproveitamento ignóbil e perverso que a Igreja fez e faz do fenómeno, Roma inteira totalmente comprometida, com o papa à cabeça, este tendo vindo ao Santuário já várias vezes, recentemente beatificando os três pastorinhos, caucionando todo o ridículo que se passa à volta da capelinha das aparições, com milhares de velas ardendo em local apropriado ao “caçar de dinheiro” ali colocadas pelas pessoas humildes e crentes que, indo em peregrinação a pé pelas estradas do país, lá chegando, rastejam ainda no lajedo até ao sangue, para cumprir promessas feitas em momentos de grande aflição! Certamente, dirão, lavando as mãos – como lavam as mãos as autoridades policiais perante o crime da excisão do clítoris nas meninas nascidas em Portugal de pais guineenses, pela sua estúpida, desumana e cruel tradição... – que na fé de cada um ninguém se deve intrometer. Deixá-los, pois, rastejar à vontade!...
No entanto – sejamos intelectualmente honestos! – embora todo o fenómeno de Fátima tenha sido ou seja uma farsa, que mal faz às pessoas acreditarem naquele “divino”? Não vão, alegres, para o Santuário, não vêm de lá mais reconfortadas, mais libertas, mais felizes, com a consciência aliviada das promessas feitas, promessas em que tantas graças foram concedidas pela Virgem Senhora, alegria manifestada naquele sentido Adeus, lenços brancos acenando, na última procissão com que encerra a Missa celebrada com toda a solenidade e presidida por representante papal? – Obviamente, parece só haver vantagens para os crentes! Por isso, embora perverso, teremos de concluir que a religião tem mais vantagens do que desvantagens, bradando, sorrindo, a propósito de Fátima ou de outros santuários espalhados pelo mundo, onde dizem que a Virgem apareceu: “Viva a mentira religiosa!”
É uma forma tosca de acabar estes doze textos, não há dúvida. Mas a elegância do pensamento nem sempre é condizente com o assunto tratado... E que cada um continue a acreditar no que lhe der mais jeito para ter uma vida o mais feliz possível. Não é ser feliz o que importa, neste dom sem dúvida divino que é a VIDA, dom único e irrepetível? (Fim)
terça-feira, 23 de agosto de 2011
A (in)verdade de Fátima (11)
Agradecemos a narrativa dos “acontecimentos” ao Reverendo Cónego Sebastião Martins dos Reis. Nesta última aparição, os fenómenos atmosféricos de origem aparentemente divina continuam. A Virgem aparece no meio deles. Diz ser a Senhora do Rosário. Pede que façam ali uma capela. Que rezem o terço. Que Deus Nosso Senhor está muito ofendido. Que curará alguns doentes. Prevê o fim da guerra. E, enquanto por ali “anda” a Virgem, sempre portadora de mensagens deprimentes, seguem-se os três quadros celestiais presenciados por Lúcia, referenciando certamente as imagens existentes na Igreja local frequentada pela devota família dos “videntes”. Não menos deprimentes que o anterior cenário! Depois, já partindo a Virgem para o Firmamento, o Milagre do Sol, misturando-se, em glória, milagrosas mudanças atmosféricas! Aqui, a narrativa do Reverendo – ou de Lúcia? – torna-se empolgante, magnífica, por momentos aterradora, mas... divina, como divino era o cenário em que tudo decorria. E... fim da “divina comédia”! – desabafariam os cépticos. Claro que os crentes não duvidarão um cêntimo de que tudo foi ou fora de origem celestial! Os outros, os que pensando que o divino, para ser credível, tem de ser inteligente, não acreditam em tanta fantasia mais ou menos espectacular que de inteligente nada tem. Um divino que quisesse enviar uma mensagem à humanidade, escolheria de certeza formas mais convincentes e racionais do que pôr um sol a rodar e a aquecer as pessoas presentes... Aliás, o Sol rodar? Lembram-se de quando Josué pediu a Javé para parar o Sol e poder terminar a batalha, exterminando o inimigo? Ora este “nosso” Sol rodou tanto como o de Josué parou: não mais que imaginação pura, alucinação colectiva ou pura fantasia literária! Obviamente que o Sol não se move do seu lugar por qualquer capricho divino ou... fantasia humana! Se tal fosse possível, seria a ridicularização completa de algum divino que porventura existisse lá no “Alto”!
No entanto, nem sequer pesquisando dados para aquilatar da veracidade do acontecimento de tais fenómenos, certamente referenciados em grandes parangonas pela imprensa da época, temos de repetir o que importa: Fátima torna-se desacreditável de dentro para fora e não de fora para dentro, isto é, não pelos fenómenos atmosféricos aduzidos como milagre para comprovar a vinda do divino – Maria Virgem, outras figuras da Virgem, S. José e o Menino, o próprio Jesus Cristo, já não falando no anjo do princípio das aparições – mas pela crueldade, insensatez e irracionalidade da mensagem transmitida a umas pobres e incultas crianças, facilmente manipuláveis, havendo ainda a lamentar o facto de uma poder ver tudo – certamente a mais dada a visões! – e as outras, apenas uma parte.
Fim da “divina comédia”? – Não! Houve ainda outras aparições-visões, todas datadas, que contemplaram as crianças, não as três, mas apenas Jacinta e Lúcia. O Francisco não foi tão afortunado...
Para não nos alongarmos, delas falaremos no próximo e último texto.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
A (in)verdade de Fátima (10)
6ª e última aparição – 13 de Outubro. Ainda, a narrativa do Reverendo Cónego: «Devido ao facto de os pastorinhos terem revelado que a Virgem Maria iria fazer um milagre neste dia para que todos acreditassem, estavam presentes na Cova da Iria cerca de 50 mil pessoas, segundo os relatos da época. Chovia com abundância e a multidão aguardava as três crianças nos terrenos enlameados da serra. Lúcia assim descreve estes acontecimentos na Memória IV: “Saímos de casa bastante cedo, contando com as demoras do caminho. O povo era em massa. A chuva, torrencial. Minha mãe, temendo que fosse aquele o último dia da minha vida, com o coração retalhado pela incerteza do que iria acontecer, quis acompanhar-me. Pelo caminho, as cenas do mês passado, mais numerosas e comovedoras. Nem a lamaceira dos caminhos impedia essa gente de se ajoelhar na atitude mais humilde e suplicante. Chegados à Cova de Iria, junto da carrasqueira, levada por um movimento interior, pedi ao povo que fechasse os guarda-chuvas para rezarmos o terço. Pouco depois, vimos o reflexo da luz e, em seguida, Nossa Senhora sobre a carrasqueira. Lúcia: - Que é que Vossemecê me quer? Nossa Senhora: - Quero dizer-te que façam aqui uma capela em Minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas. - Eu tinha muitas coisas para Lhe pedir: se curava uns doentes e se convertia uns pecadores, etc. - Uns, sim; outros, não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados. E tomando um aspecto mais triste: – Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido. E abrindo as mãos, fê-las reflectir no Sol. E, enquanto que se elevava, continuava o reflexo da Sua própria luz a projectar-se no Sol.” Neste momento, Lúcia diz para a multidão olhar para o Sol, levada por um movimento interior que a isso a impeliu, e narra: “Desaparecida Nossa Senhora, na imensa distância do firmamento, vimos, ao lado do sol, S. José com o Menino e Nossa Senhora vestida de branco, com um manto azul. Era a Sagrada Família. S. José com o Menino pareciam abençoar o Mundo com uns gestos que faziam com a mão em forma de cruz. Pouco depois, desvanecida esta aparição, vi Nosso Senhor acabrunhado de dor a caminho do Calvário e Nossa Senhora que me dava a ideia de ser Nossa Senhora das Dores. Lúcia via apenas a parte superior do corpo de Nosso Senhor e Nossa Senhora não tinha a espada no peito. Nosso Senhor parecia abençoar o Mundo da mesma forma que S. José. Desvaneceu-se esta aparição e pareceu-me ver ainda Nossa Senhora, em forma semelhante a Nossa Senhora do Carmo com o Menino Jesus ao colo.” Enquanto os três pastorinhos eram agraciados com estas visões (apenas Lúcia viu os três quadros, Jacinta e Francisco viram somente o primeiro), a maior parte da multidão presente observou o chamado Milagre do Sol. A chuva que caía cessou, as nuvens entreabriram-se deixando ver o Sol, assemelhando-se a um disco de prata fosca, podia fitar-se sem dificuldade, sem cegar. A imensa bola começou a girar vertiginosamente sobre si mesma como uma roda de fogo. Depois, os seus bordos tornaram-se escarlates e deslizou no céu, como um redemoinho, espargindo chamas vermelhas de fogo. Essa luz reflectia-se no solo, nas árvores, nas próprias faces das pessoas e nas roupas, tomando tonalidades brilhantes e diferentes cores. Animado três vezes por um movimento louco, o globo de fogo pareceu tremer, sacudir-se e precipitar-se em ziguezague sobre a multidão aterrorizada. Tudo durou uns dez minutos. Finalmente, o sol voltou em ziguezague para o seu lugar e ficou novamente tranquilo e brilhante. Muitas pessoas notaram que as suas roupas, ensopadas pela chuva, tinham secado subitamente. Tal fenómeno foi testemunhado por milhares de pessoas, até mesmo por outras que estavam a quilómetros do lugar das aparições. O relato foi publicado na imprensa por diversos jornalistas que ali se deslocaram e que foram também eles, testemunhas do milagre. O ciclo das aparições em Fátima tinha terminado.” Devido ao alongado da narrativa, reservamos os comentários para o próximo texto. (Cont.)
terça-feira, 2 de agosto de 2011
A (in)verdade de Fátima (9)
A quinta aparição – 13 de Setembro. Continuamos, citando: «Como das outras vezes, vários fenómenos atmosféricos foram observados pelos circunstantes, cujo número foi calculado entre 15 e 20 000 pessoas: o súbito refrescar da atmosfera, o empalidecer do Sol até ao ponto de se verem as estrelas, uma espécie de chuva como que de pétalas irisadas ou flocos de neve que desapareciam antes de pousarem na terra. Em particular, foi notado, desta vez, um globo luminoso que se movia lenta e majestosamente pelo céu, do nascente para o poente e, no fim da aparição, em sentido contrário. Os videntes notaram, como de costume, o reflexo de uma luz e, a seguir, Nossa Senhora sobre a azinheira.
Nossa Senhora: - Continuem a rezar o terço para alcançarem o fim da guerra. Em Outubro, virá também Nosso Senhor, Nossa Senhora das Dores e do Carmo, São José com o Menino Jesus, para abençoarem o Mundo. Deus está contente com os vossos sacrifícios, mas não quer que durmais com a corda. Trazei-a só durante o dia (as crianças tinham passado a usar como cilicio uma corda grossa que não tiravam sequer para dormir; isso impedia-lhes muitas vezes o sono e passavam noites inteiras em branco, daí o elogio e a recomendação de Nossa Senhora). Lúcia: - Têm-me pedido para Lhe pedir muitas coisas, a cura de alguns doentes, de um surdo-mudo. - Sim, alguns curarei. Outros não. Em Outubro farei o milagre para que todos acreditem. E, começando a elevar-Se, desapareceu como de costume.»
Desta vez, há mais fenómenos atmosféricos a acompanhar o evento. Ilariantes, claro! Sobretudo, aquele globo luminoso que se movia lenta e majestosamente pelo céu deveria ter sido digno de se ver... E, então, aquela chuva de pétalas, caindo como flocos de neve!... Já não falando nas estrelas “vistas”, ao meio-dia!... E cerca de 20 000 pessoas admiraram tão estranhos fenómenos! Alucinação colectiva ou imaginação prodigiosa do narrador, citando Lúcia? Mas, fantástico, sem dúvida! Estranha é aquela promessa da Virgem de, em Outubro, virem também com Ela, Nosso Senhor (Qual? O Deus-Pai, o Deus-Filho ou o Deus-Espírito Santo?), Nossa Senhora das Dores e do Carmo (Então, a mesma Virgem desdobrava-se em mais duas: a das Dores e a do Carmo?), São José com o Menino Jesus (Ambos vivos, sorrindo, ou apenas em imagem de igreja? Se aquele Nosso Senhor, tudo leva a crer que seja Jesus Cristo, ali tínhamos mais uma duplicação: Jesus Cristo, Filho de Deus, já sentado à direita do Pai, e Jesus Menino ainda pequenino nos braços de São José...). E todos a abençoarem o mundo!... É! Muito interessante e piedoso, mas tremendamente caricato e, por isso, descredibilizando-se completamente: um relato de pura fantasia religiosa! Enfim, aquela de “Deus está contente com os vossos sacrifícios”, usando as pobres crianças cilícios, é completamente arrasadora, pela crueldade, levando ao descrédito não só do suposto fenómeno, mas também de qualquer ser divino inteligente que a pudesse conceber e a quisesse impor numa sua visita do Céu à Terra! A ter sido verdade toda esta fantasia de Fátima, seria caso para perguntar com o poeta: “Que quem já é pecador, sofra tormentos, enfim. Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim?” (Augusto Gil – “Balada da neve”) (Cont.)
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