sábado, 20 de outubro de 2018

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 192/?


À procura da VERDADE em HABACUC 1/2

- Introdução: “(…) O profeta interpela o próprio Deus acerca 
da violência e da opressão que invadem o país. (…) Dirige a 
Deus um veemente apelo (…) contra o opressor que exagerou 
na missão de instrumento escolhido por Deus. (…) Mas insiste 
na certeza de que um dia a justiça se há-de tornar realidade 
palpável, porque o Deus dos justos é o Deus vivo na História. 
(…) Teve o arrojo de apelar a Deus contra o próprio Deus 
cuja intervenção na História parecia incompreensível. Será 
preciso punir um mal com um mal maior? Não andará Deus 
apoiar o triunfo de uma força injusta?” (ibidem)
Realmente Hababuc deve ter sido confrontado, como nós, 
com as ditas intervenções de Deus na História, na interpretação 
que os profetas faziam das guerras em que Israel ora saía 
vencedor ora derrotado e oprimido, a ponto de as achar 
desastradas e incompreensíveis, porque exageradas.
Nós perguntamos mais uma vez: Porque havemos de acreditar 
nas interpretações que os ditos profetas faziam da história de 
Israel? Mais: Que invenção foi essa (e os nossos exegetas 
continuam na mesma senda…) de considerar Deus a dirigir a 
mesma história? Tudo nos parece muito mais um golpe 
político-religioso do que qualquer tipo de inspiração divina, 
não passando as supostas profecias de pura intuição face ao 
desenrolar dos acontecimentos.
- “Até quando, Javé, vou pedir socorro sem que me escutes? 
Até quando clamarei a Ti: “Violência!”, sem que me tragas a 
salvação? Porque me fazes ver o crime e contemplar a injustiça? 
(…) Porque olhas para os traidores e Te calas quando um ímpio 
devora alguém mais justo do que ele? (…) Então Javé 
respondeu-me: (…) Quem não é recto vai morrer, enquanto o 
justo viverá pela sua fidelidade. (…) Ai daquele que acumula o 
que não é seu (…) Ai de quem junta dinheiro injusto em sua 
casa (…) Ai de quem constrói com sangue uma cidade (…) 
(Hab 1,2)
- Perguntamos: Porquê acreditar que o ímpio ou perverso vai 
morrer e o justo vai viver? Não é isso que se constata: tanto 
morre um como o outro, tendo ambos o mesmo destino: o pó de 
onde vieram…
E as maldições serão para cumprir onde? – Na Terra, parece 
que não, pois raros são os que conseguem enriquecer com o seu 
trabalho honrado. No céu… sabe-se lá! Nunca ninguém veio de 
lá cá dizer se há ou não céu e como é esse estar 
contemplando Deus face a face por toda a eternidade!…

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Onde a verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 191/?




À procura da VERDADE no livro de NAUM 2/2


- “Javé é um Deus ciumento e vingador! Javé é vingador e sabe 
enfurecer-Se. Javé vinga-se dos seus adversários e é rancoroso 
com os seus inimigos. (…) Quem resistirá à sua cólera e 
enfrentará o furor da sua ira? (Na 1,2-6)
- Dos ciúmes, iras e furores de Javé já tudo dissemos. Enfim, 
considerar adversários de Javé os adversários do povo de 
Israel é uma totalmente indecorosa apropriação, resultando 
numa total descredibilização de Javé-Deus. O “nosso” exegeta 
corrobora tal indecorosa apropriação: “Naum vê Deus como 
destruidor de Nínive, capital da Assíria, a grande potência 
opressora da época. (…) Javé, Senhor do Universo, também é 
Senhor da História; como tal, dirige os acontecimentos.” 
(ibidem)
- “Javé restaura a vinha de Jacob e também a vinha de Israel.” 
(Na 2,3)
- Note-se o comentário: “Javé vai restaurar o reino do Sul 
(Judá) e o do Norte (Israel); este fora destruído pela Assíria 
em 722 a.C. O profeta imagina talvez a reunificação de todo 
o povo, tendo como capital Jerusalém. (…)” (ibidem)
E nós perguntamos: É Javé que vai restaurar? Deus anda por
ali assim a restaurar cidades ou reinos destruídos por outros 
reinos, e reinos considerados como mão castigadora do 
mesmo Javé?…
Depois, como podemos dizer “o profeta imagina talvez…”? 
Então, não é ele inspirado por Deus? Não é a sua palavra 
revelada? Mais: este Javé andando ao serviço de um povo, 
parece-se com os ídolos que os povos ditos pagãos 
adoravam - e também não poucas vezes os israelitas - que 
por isso eram tão duramente castigados pelo mesmo Javé!
- “Ai da cidade sanguinária e traidora, cheia de rapina, 
insaciável de despojos!
Estalo de chicotes, ruído de rodas girando, cavalos a 
galope, carros que pulam, cavalos que se empinam, espadas 
a luzir, lanças que faíscam! Multidões de feridos, montão 
de cadáveres, corpos sem conta, tropeça-se nos cadáveres.
Isto por causa das muitas seduções dessa prostituta, formosa 
e hábil feiticeira que enganava as nações (…) Vou levantar 
a barra da tua saia até à altura do rosto; vou mostrar às 
nações a tua nudez (…) Porventura és melhor que Tebas? 
(…) O teu exército não é de homens mas de mulheres (…)” 
(Na 3,1-13)
- O estilo é belo, pictórico, sóbrio, acutilante! A crueza, 
muita. A sensualidade sugestiva com o levantar das saias 
da prostituta até ao rosto,… gostosa! O “olho por olho” 
manifesta-se com o lembrar de Tebas e a derradeira frase 
não agradará certamente a feministas!…
Também aqui se comenta: “O Deus do Universo e da 
História destrói a cidade que era símbolo de perenidade, 
estabilidade e firmeza. Javé realiza a inversão desse modo 
de conceber a História (…): Nínive (…) terá a mesma sorte 
que Tebas (…) que ela havia saqueado no ano 667 e 
demolido em 663 a.C.” (ibidem)
Apenas perguntamos: Não sendo o povo egípcio “povo 
eleito de Javé” porque recebeu castigo tamanho? A lógica 
do castigo e do oprimido-opressor só se aplica ao “povo 
de Deus”? E, mais uma vez, como aceitar um Javé que 
castiga quem Ele usou como seu braço para castigar o 
pecado do povo eleito?
Esta Bíblia é um nonsense total!…

sábado, 6 de outubro de 2018

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 190/?


À procura da VERDADE no livro de NAUM 1/2

- Diz-se na Introdução: «A actividade profética de Naum 
desenrolou-se entre 633 e 612 a.C, as datas da tomada de Tebas 
(capital do Egipto) e da queda de Nínive (capital da Assíria), 
respectivamente. A Assíria, já responsável pelo desmantelamento 
do reino do Norte e da sua capital, Samaria, em 722 a.C., 
tentava agora consolidar o seu poderio, mediante campanhas 
sucessivas a Ocidente, cobrindo a Palestina e o Egipto de 
destruições e impostos. Ao sul da Mesopotâmia, porém, 
erguia-se lentamente o novo império babilónico que, aliado 
aos Medos, poria termo à supremacia assíria.
Neste contexto sombrio que pesava sobre Judá, o profeta Naum 
trouxe aos oprimidos uma mensagem de consolação e reconforto 
(…): Deus é mais forte, é soberano da História. (…) As 
atrocidades cometidas pelos assírios em Tebas (…) alimentam 
a profecia do que vai acontecer à moribunda Nínive.
Deus, ciumento e vingador, cheio de furor para o inimigo clássico 
de Israel, é, ao mesmo tempo, bom e acolhedor para os 
perseguidos. Esta maneira de ver eivada de nacionalismo, está 
longe do Evangelho e até mesmo do universalismo do II 
Isaías. Afirma no entanto, uma certeza vincada e profunda: Deus 
acompanha os acontecimentos da História, nada lhe é alheio. (…)» 
(ibidem)
A citação é longa, mas necessária para os nossos objectivos. E, 
como é de prever, as perguntas são mais que muitas:
1. Que direito temos nós de colocar Deus como senhor da História 
que o Homem vai realizando?
2. Se um escrito, dito inspirado por Deus, dito sagrado, está eivado 
de nacionalismo… está longe do Evangelho e não é universalista…, 
que valor tem de VERDADE?
3. Porque é que é o Deus ciumento e vingador, cheio de furor… a 
atacar os inimigos “clássicos” de Israel e não são os israelitas?
4. Quem são os oprimidos? Todos os vencidos pela Assíria ou 
apenas Judá? Porque não os egípcios e palestinianos também 
vítimas da destruição assíria?
5. Seria difícil de prever o que iria acontecer a Nínive, analisando 
os acontecimentos históricos à luz do tempo, estando omnipresente - 
como ainda hoje, apenas dois mil e setecentos anos passados - o 
espírito do “Olho por olho e dente por dente”?
Deus-Javé continua a “sair-se” muito mal desta entrada na História 
para castigar uns quantos, através das guerras que outros 
promovem, quando o que os povos opressores querem é apenas 
as riquezas e o domínio dos oprimidos, sejam eles israelitas, 
palestinianos ou egípcios. Assim como, quando os opressores são 
vencidos, nada mais é do que a vingança dos oprimidos sem que 
Deus tenha alguma coisa a ver com tal humana atitude.
Mas nós não temos nada contra os que pensam que é Deus que age 
através dos Homens, sendo assim “senhor da História. Nada! 
Absolutamente nada! Só não aceitamos é que tal “suposição” seja o 
fundamento da nossa fé, da nossa crença, do nosso Deus que nunca 
poderia ser um Javé-Deus que se “alimenta” das e nas 
irrequietudes de um povo, que se auto-proclamou “eleito de Javé”. 
Só isso! E isso é quase tudo!
E foi o povo ou foram apenas alguns “iluminados” dirigentes dele, 
que criaram a poderosa classe sacerdotal e profética, os 
servidores do Templo, “domesticando” melhor assim o mesmo 
povo duro de alma e coração? Não temos nós agora sobre os nossos 
ombros este jugo bíblico do qual não podemos libertar-nos?
Não podemos ou… não queremos! É que, se nos libertarmos dele, 
ficamos sem quaisquer palavras de vida eterna, já que as outras 
filosofias ou religiões são ainda menos resposta às nossas angústias 
de um fim último que se perde no mistério-desejo de vivermos 
para sempre...

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 189/?


À procura da VERDADE no livro de MIQUEIAS – 4/4

- “Como me apresentarei a Javé? Como é que me vou ajoelhar diante 
do Deus das alturas? Irei à sua presença com holocaustos e bezerros 
de um ano? Será que milhares de carneiros ou a oferta de rios de 
azeite agradarão a Javé? Ou devo sacrificar o meu filho mais velho 
para pagar os meus erros, sacrificar o fruto das minhas entranhas 
para cobrir o meu pecado? - Ó homem, já te foi explicado o que é 
bom e o que Javé exige de ti: praticar a justiça, amar a misericórdia, 
caminhar humildemente com o teu Deus.” (Mq 6,6-8)
- É interessante que se faça aqui, em setecentos antes de Cristo, 
implícita condenação dos holocaustos e dádivas em azeite e até 
querer sacrificar o próprio filho, quando a lei de Moisés 
apresenta todo um rol de sacrifícios a cumprir e oferendas a dar 
ao Templo - ai o célebre e fatídico dízimo imposto e apregoado 
pelos sacerdotes gananciosos! - como se pode ler - como lemos - no 
livro do Êxodo 25-40 e em Ezequiel 40-48.
Aliás, comenta-se, a propósito de Ex 25-31: “Estes capítulos, mais 
35-40, obra da escola “sacerdotal”, próxima de Ez 40-48, foram 
redigidos durante ou depois do exílio na Babilónia, época em que o 
culto se tornou elemento determinante para o povo judeu conservar 
as suas tradições e sobreviver sob o império persa. (…) Apresentadas 
aqui como determinações formais de Javé comunicadas a Moisés, 
sugerem o carácter divino das instituições religiosas e são apelo ao 
respeito e à adoração do único Deus libertador.” (ibidem)
- A tentação de se dizerem “coisas” bonitas envolvendo Deus é grande! 
Mas perguntamos, certamente já nos repetindo: São determinações de 
Javé ou dos sacerdotes que precisavam de todas aquelas oferendas para 
alimentarem a sua fome de riqueza e a sua ganância, como o fazem hoje 
elementos de certas igrejas conhecidas do mundo? Não há dúvida: 
pondo-as na boca de Javé, dão-lhe carácter divino e dão-lhe, 
inteligentemente, a força necessária para que todo o incauto e ignorante 
povo se sinta obrigado, em consciência e no temor de Javé, a dar 
sem protestar, contestar ou discutir… E, em tais disfarces “divinos”, 
eram mestres os mentores da Escola sacerdotal, tornando o apregoado 
Deus único não “libertador” mas escravizante do povo. Por isso - e mais 
uma vez - não pode de modo algum ser DEUS!
Mais importante ainda: Parece que praticar a justiça, amar a 
misericórdia são o que Deus exige de cada Homem para ganhar a vida 
eterna, vivendo bem a terrena. Mas - e também mais uma vez - é 
necessário apelar para um Deus para se apregoarem a justiça e a 
misericórdia como elementos-chave da boa convivência humana?
E alguém perceberá o que é isso de “caminhar humildemente com o 
teu Deus”?
- “Escuta o que Javé grita (…): tesouros ganhos injustamente (…) 
medidas falsificadas (…), balanças viciadas (…), exploração (…), 
mentiras (…) Por isso, entregar-te-ei à destruição (…)” 
(Mq 6,10-16)
- Miqueias repete-se. Por nosso lado, chega de comentários.
- “Não há sequer um justo no nosso país, não ficou nenhum Homem 
recto; andam todos à espreita, cada um persegue o seu irmão para o 
matar! (…) O príncipe exige, o juiz deixa-se comprar, o grande mostra 
a sua ambição. (…) E vós, não acrediteis no amigo, não confieis no 
companheiro; conserva a boca fechada mesmo ao lado daquela que 
dorme a teu lado. Pois o filho insulta o próprio pai, a filha revolta-se 
contra a mãe, a nora contra a sogra; e os inimigos são os da própria 
casa.” (Mq 7,2-7)
- Miqueias delicia-se na certamente hiperbólica situação. Aquilo seria 
uma sociedade muito pouco… sociedade, muito pouco comunidade, 
muito pouco humana. Nem amor familiar nem amizade confiante. 
Uma sociedade totalmente fracassada… E isto, num “povo eleito”, 
num “povo escolhido” por Javé, tornar-se-ia-se mais que dramático!
- “Não te alegres por minha causa, ó minha inimiga, pois eu caí mas 
hei-de tornar a levantar-me; moro nas trevas mas Javé é a minha luz. 
Devo suportar a cólera de Javé, porque pequei contra Ele (…)” 
(Mq 7,8-9)
- Comenta-se: “Esta parte parece ter sido acrescentada ao livro de 
Miqueias depois do exílio.” (ibidem) Portanto, cerca de duzentos anos 
mais tarde. Valerá a pena voltar a perguntar que validade em termos 
de revelação divina tem este aditamento?
Enfim, deste simpático Miqueias do séc. VIII a.C., fica-nos a imagem 
de um homem corajoso, capaz de denunciar as injustiças que sentia 
talvez na própria carne e com as quais não quis contemporizar 
como muitos dos seus colegas de profissão. Mais nada!...

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 188/?




À procura da VERDADE no livro de MIQUEIAS – 3/4

- E Miqueias repete-se: “Os vossos chefes (…), suborno; os vossos 
sacerdotes (…), lucro; os vossos profetas (…), dinheiro. E ainda 
ousam apoiar-se em Javé (…). Por isso, (…) Jerusalém tornar-se-á 
um montão de ruínas (…)” (Mq 3,11-12)
- Comenta-se também: “A coligação das nações contra Jerusalém 
evoca talvez a movimentação gerada pelo exército assírio em 701 (…)” 
(ibidem)
Mais um facto histórico interpretado à moda da Bíblia, tudo fazendo 
depender de Javé: vitória-prémio ou derrota-castigo. Tremendas 
continuam as acusações de Miqueias às classes dominantes, quer 
religiosas quer políticas. Há dois mil e setecentos anos… tal como
 hoje!
- “Mas tu, Belém de Éfrata, tão pequena entre as principais cidades 
de Judá! É de ti que sairá para Mim, Aquele que há-de ser o chefe de 
Israel! (…) Ele nos livrará da Assíria, se ela invadir o nosso 
território e atravessar as nossas fronteiras.” (Mq 5,1 e 5)
- É o texto mais conhecido de Miqueias, pois no Evangelho de Mateus 
entende-se esta profecia como o anúncio do lugar onde o Messias - Jesus 
Cristo - iria nascer (Mt 2,5-6). Mas perguntamos: Profecia ou… 
coincidência? E não queriam todos que aparecesse alguém que livrasse 
Israel da ameaça síria? Não é isso mesmo que se diz em 5,5? Quando, 
no NT, Jesus Cristo falar de Reino, não O entenderão os apóstolos 
como reino terreno, o reino de Israel, libertado do jugo romano? Não 
seguiram os apóstolos Jesus, pensando que teriam um bom lugar 
nesse reino, ficando confusos quando Jesus afirmava que o seu 
Reino não era deste mundo e certamente totalmente decepcionados 
quando O vêem ser condenado à morte? Então, podemos concluir 
que Mateus só referiu Miqueias para justificar a sua tese: Jesus era 
o Salvador, mas sem qualquer base de credibilidade.
- “Destruirei as cidades fortificadas (…), arrancar-te-ei das mãos 
todos os objectos mágicos (…), eliminarei (…), derrubarei (…), 
destruirei (…). Com ira e furor Me vingarei das nações que não Me 
obedeceram.” (Mq 5,10-14)
- Eis o sempre Javé vingador, destruidor, cheio de ira e furor… Que 
Javé é este tão apoucado, tão humanóide para ser o Deus do 
Universo? – voltamos a perguntar, repetindo-nos enfadonhamente…
- “Escutai, montanhas, as acusações de Javé; (…) é contra Israel que Ele 
apresenta a sua queixa: Meu povo, o que é que Eu fiz contra ti? Em que 
te maltratei? Responde-Me!” (Mq 6,2-3)
- Outro trecho - bonito trecho! - bem conhecido, bem doloroso, mas… 
bem humano, de Miqueias. E mais uma vez, teremos de perguntar: 
Que Javé é este tão forte e tão manso, tão irado e tão compassivo, a 
ponto de se queixar, de quase implorar a adoração e o reconhecimento 
do “seu povo”?
E que povo é este que não O reconheceu, não O aceitou nem naquele 
tempo, nem no tempo de Jesus, nem hoje tão pouco? É Israel? Enfim, 
que Javé é este que se “deixou hipotecar” a tal povo? – Não! Não 
pode ser o Deus do Universo, o Deus de todos os tempos, de todos os 
seres vivos e não vivos, visíveis e invisíveis que está para além de 
todos os espaços e de todos os tempos, por ter de ser infinito e eterno!
Sempre que se humaniza Deus - e na Bíblia é uma constante, sendo, 
aliás, o seu maior erro, o seu maior pecado! - deixamos 
simplesmente de O ter, porque Ele é inumanizável!


sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo testamento (AT) - 187/?



À procura da VERDADE no livro de MIQUEIAS – 2/4

- “Ai daqueles que deitados na cama planeiam a injustiça e tramam o 
mal! (…) Cobiçam (…) roubam (…), apoderam-se (…), oprimem 
(…) É por isso que assim diz Javé: Eis que planeio contra esta gente 
uma desgraça (…)” (Mq 2,1-3)
- Diz-se em comentário: “Com a implantação da realeza e das cortes, 
a igualdade e fraternidade primitivas foram cedendo lugar à oposição 
(…) entre uma elite ciosa de lucros e a massa dos pequenos. O povo 
trabalhador (…) era reduzido à escravidão, enquanto os senhores 
exploravam os pobres (…) Ora isso opunha-se aos compromissos da 
aliança no seu ideal de comunhão e fraternidade.” (ibidem)
 - E oferece-se-nos perguntar: Quando é que estes ideais, estes 
compromissos de igualdade e fraternidade foram “vida” em Israel? E a 
oposição entre elites e povo explorado não existiu - não existe! - 
desde sempre, em Israel e no mundo? E as ideias - talvez mais ideais 
porque inalcançáveis! - de igualdade e de fraternidade são de Deus ou… 
dos Homens? A “Liberdade, igualdade e fraternidade” da Revolução 
Francesa, os Direitos Universais do Homem, não são criações do 
Homem? Claro que ninguém nos impede de dizer que são ou que
foram de inspiração divina. Mas - e já perguntámos noutro lugar - 
que há de bom na Terra ou entre os Homens que não seja de inspiração 
divina ou que não se atribua a Deus, quer Deus exista quer não?
E mais uma vez, na visão do profeta, tal situação é propícia - exige! - o 
castigo de Javé! É isto que não se entende: Porquê considerar um castigo 
de Javé por esses “pecados” a invasão de Israel e de Judá pelos 
exércitos sírios? Não queriam os sírios a guerra somente para - como 
acontece com todas as guerras! - apoderar-se de mais território, de mais 
riqueza, alargando fronteiras e domínios? Trata-se, pois, apenas de mais 
uma interpretação teológica dos acontecimentos por um visionário, sem 
que fosse necessária qualquer revelação divina.
- “Eu reunir-te-ei todo, ó Jacob, recolherei os teus restos, ó Israel” 
(Mq 2,12)
- Aparece aqui - o que já noutros livros aconteceu - um aditamento. E 
diz-se em comentário: “ (…) aditamento típico do exílio ou do pós-exílio 
(…)” (ibidem)
Ficamos sem saber o que dizer deste e de outros aditamentos. Também 
foram revelados por Deus? A quem e… duzentos anos mais tarde? Uma 
tremenda confusão! Mas Miqueias continua:
- “Ouvi bem, chefes (…) governantes (…)! Inimigos do bem, amantes 
do mal, esfolais o povo e descarnais os seus ossos (…), devorais (…) 
arrancais (…), quebrais (…), despedaçais (…). Depois, invocareis Javé 
mas Ele não vos responderá. (…) Assim diz Javé aos profetas que 
extraviam o meu povo (…)” (Mq 3,1-5)
- Comenta-se: “Estamos num tempo em que os profetas deixaram de ser 
arautos de Deus e defensores da justiça e da verdade para servirem os 
interesses de quem lhes paga melhor.” (ibidem)
Esta afirmação leva-nos à permanente pergunta de saber quem afinal é 
profeta de Deus e quem o não é. E se pregar a justiça e a verdade - que 
verdade? - é, por definição, acto divino ou simplesmente humano, 
simplesmente a parte boa do Homem que não pode ser - não é, santo 
Deus! - apenas maldade e egoísmo mas também compaixão pelos mais 
sofredores e solidariedade para com os mais fracos.
Depois, não houve, não haverá sempre, antigamente como hoje, 
aproveitadores de Deus para com Ele fazerem negócio e ganharem 
melhor a vida terrena que a eterna é da fé naquele Deus que apregoam 
aos outros mas em quem certamente não acreditam?
E que castigo não merecem aqueles que esfolam, devoram, quebram, 
despedaçam os ossos e a carne do povo?
A expressão “meu povo” é que não se entende - aliás nunca se entendeu - 
embora se aceite que sejam os oprimidos, os deserdados, os que não 
têm o poder das armas ou do dinheiro. Mas, porquê hão-de ser esses 
o “povo de Deus”, o “meu povo”? Aliás, esta dicotomia: maus, ricos, 
governantes tiranos, juízes corruptos, profetas e sacerdotes gananciosos 
versus povo escravizado e oprimido, povo pobre e inculto, tem-se 
mantido ao longo da História, não sendo as nações de hoje muito 
diferentes das de então, apesar das apregoadas democracias que 
proliferam pelo mundo…

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 186/?



À procura da VERDADE no livro de MIQUEIAS – 1/4

- Socorrendo-nos da Introdução, sabemos que: “Miqueias (…) exerceu a 
sua acção profética na segunda metade do séc. VIII a.C. (…) Partilha 
a preocupação social dos contemporâneos Amós, Oseias e Isaías, 
articulando uma vigorosa denúncia das injustiças que grassavam no 
seu tempo (…): os ricos açambarcadores, os credores impiedosos e os 
comerciantes fraudulentos (…) os sacerdotes e profetas gananciosos, 
os chefes tirânicos e os juízes venais (…). O livro também encerra 
promessas e esperanças: dentre elas destaca-se o anúncio do 
nascimento do Messias na pequena cidade de Belém. (…)” (ibidem)
- Perguntamos nós, já repetindo-nos: Porquê de inspiração divina 
uma preocupação social, uma vigorosa denúncia das injustiças que 
grassavam na época de há dois mil e setecentos anos, que grassam 
hoje por todo o mundo? Depois, que credibilidade merece a referência, 
ao nascimento de um Messias em Belém, a 800 anos de distância?!
- “Palavra de Javé dirigida a Miqueias (…) em visão a respeito de 
Samaria e de Jerusalém. (…) Olhai! Javé sai do seu lugar e desce 
(…) Debaixo dos seus pés desfazem-se as montanhas, e os vales 
derretem-se. (…) Tudo isto por causa do crime de Jacob, por causa dos 
pecados da casa de Israel. (…) Pois Eu vou reduzir Samaria a uma ruína 
(…). A ferida de Judá não tem remédio e chega até às portas do meu 
povo, até Jerusalém (…). A desgraça desceu de Javé até às portas de 
Jerusalém.” (Mq 1,1-13)
- Estamos perante a Palavra de Javé apresentada em visões, aqui, 
sobre Samaria e Jerusalém, ao tempo, atacadas pelo exército sírio…, 
estamos perante o mesmo terror de Javé que desfaz montanhas e 
derrete vales…, perante o mesmo pecado que Javé vai castigar com 
a ruína e a desgraça…, ítens já antes referenciados. 
Que poderemos concluir de divino, nesta 
inspiração em que o humano é tão natural, em que a realidade 
histórica se projecta para além do Homem, querendo-se fazer 
introduzir Deus na História, que não é a história da Terra e do 
Universo, mas de um simples povo, em permanente conflito consigo 
e com os povos vizinhos? 
É que se toda a História de todos os povos fosse 
atribuída a Javé-Deus, se a Bíblia fizesse depender desse mesmo 
Javé-Deus tudo o que se passa não só à face da Terra mas também 
do Universo visível e invisível, talvez se aceitasse… Mas, não! É só 
para aquele povo e… naquele tempo! Aliás, poderíamos perguntar: 
E antes, onde estava Javé? E depois, nestes nossos dias, onde está 
Javé? Que “motor” da História é Ele neste hoje, neste amanhã, daqui 
a milhares de milhões de anos? Em que espaço? Em que Tempo?

Querer fazer de Javé-Deus o “motor” da História da Terra e, nela, o 
Homem, através de um povo dito eleito, é um total non-sense ou uma 
deturpação completa do que é o próprio Ser-DEUS!