quinta-feira, 2 de julho de 2015

Férias – Interregno

Férias – Interregno


Chegadas as férias, é tempo de descanso e descontracção.

Interrompamos, pois, a saga destas análises críticas da Bíblia, para 
darmos lugar ao ócio, ao lazer, ao jogo e convívio com os amigos, 
aos banhos de sol e de mar, ao comer e beber, embora frugalmente 
(não nos coibindo de algum exagero que nos dê prazer mas não nos 
estrague o resto das férias…), ao desporto qb conforme a idade, aos 
longos passeios pela floresta ou à beira-mar, ao deixar-nos levar até 
um descampado, em noite sem luar, longe dos barulhos e das luzes da 
cidade, para nos deliciarmos com a profundidade do firmamento onde 
pontuam biliões e biliões de estrelas,


ou, então, nocturnos, sentados à 
beira-mar, bebericando, gozarmos o luar de lua cheia reflectindo-se nas 
águas calmas, convidando ao mergulho…


O menos possível de televisão, o menos possível de notícias e jornais, 
o menos possível de civilização de que estamos nitidamente intoxicados 
e ainda menos de políticos e opinion-makers que sabem de tudo e não 
dizem nada, ocupando ocamente os nossos tempos livres, e nós a deixar 
que tal aconteça!…

Corpo livre de roupas supérfluas, cabeça livre de problemas insolúveis 
que nos afectam no dia-a-dia… Ao menos, nas férias, libertemo-nos, 
caramba!

Voltaremos em meados de Agosto. A vontade de escrever é sempre muita! 
Ficam, no entanto, para meditação/reflexão veraneante, ou simples 
divertimento intelectual, dois textos: 
“O Homem e as grandezas do Universo em números” e
“Quatro momentos Zen: um pouco de filosofia existencial” .

É óbvio o convite à leitura.

BOAS FÉRIAS!


O Homem e as grandezas do Universo em números


Que somos nós – o HOMEM - perante a realidade que nos cerca e que 
conhecemos pela Ciência?

Do átomo ao Universo conhecido:

- cerca de 7 octiliões (isto é: 7 seguido de 48 zeros!) – Os átomos que 
constituem um corpo humano de 70 Kgs.
- cerca de 100 mil milhões (100.000.000.000) – Os neurónios e suas 
sinapses que compõem o cérebro humano.
- cerca de 150 milhões (150.000.000) Kms – A distância da Terra ao 
Sol
- cerca de 6 mil milhões (6.000.000.000) Kms -  A distância de Plutão 
ao Sol, sendo Plutão o último astro conhecido a circular à volta do Sol
- cerca de 6 mil milhões a cerca de 135 mil milhões (contando com os 
astros periféricos) de Kms – O diâmetro do Sistema Solar (sendo o Sol 
uma estrela média da Galáxia Via Láctea)
- cerca de 200 mil milhões (200.000.000.000) – O número de estrelas que 
compõem a Via Láctea


Via Láctea
- 4,2 anos-luz (= 4,2 x 300.000Kms x 60s x 60m x 24h x 365d, ou seja, 
39.735.360.000.000 Kms) – A distância da estrela Próxima Centauri ao 
Sol (a mais próxima do Sistema Solar)
- cerca de 100.000 anos/luz – O diâmetro da Galáxia Via Láctea
- cerca de 2,5 milhões de (2.500.000) anos/luz – A distância da Via Láctea 
à Galáxia Andrómeda (a mais próxima)
- cerca de 400 mil milhões (400.000.000.000) – O número de estrelas que 
compõem a galáxia Andrómeda


Via Láctea e Andrómeda 
- Identificadas (e as descobertas continuarão por muitos anos…) pelo 
telescópio Hubbel:
            Milhares de galáxias
            Milhares de buracos negros
            Milhares de nebulosas onde se formam novas estrelas
            Inúmeros outros astros
            Planetas circundando outras estrelas (tudo levando a crer – é a lei 
das probabilidades! – que muitos deles conterão seres vivos, tendo ou não 
evoluído para seres inteligentes, como o Homem)

Mistérios que a Ciência, por incapacidade ou por fora do seu âmbito, 
não se atreve a resolver:

- O que havia antes de ter acontecido o Big Bang que se supõe ter dado 
origem a este Universo conhecido?
- Onde – ou em que parte do espaço vazio – existia a matéria original que 
explodiu naquele momento?
- Este Universo, em princípio, terá os limites da matéria que existia no 
núcleo inicial, matéria que se encontra em contínuo movimento; perpétuo 
ou limitado no tempo? E irá até onde? E obedecerá a um eterno retorno 
do mesmo ao mesmo através do diverso? Eternos Big Bang (expansão) e 
Big Crunch (contracção)?
- Falando de espaço, falamos de algo limitado por um fim. Mas se falarmos 
de vazio, haverá um fim para o vazio?
- Que Universos haverá para além deste conhecido ou identificado pela 
Ciência? Estaremos a falar de Infinito e de Eterno, isto é, sem princípio 
nem fim, sem tempo nem espaço, ou seja, um vazio infinito onde 
eternamente se fazem e desfazem universos, havendo apenas Tempo para 
os seres que começam e se acabam, depois de um certo tempo, da libélula 
(1 dia) às estrelas (10 mil milhões de anos)?

Ora, apesar de inteligentes e com capacidades de abstracção, não 
conseguimos abarcar nem as distâncias nem os números astronómicos 
deste universo conhecido. Muito menos temos respostas para qualquer 
daquelas perguntas/mistério que a Ciência nem sequer pretende abordar, 
sendo o seu âmbito de pesquisa o visível, seja de que modo for.

ENTÃO, AINDA NOS ACHAMOS IMPORTANTES E SENHORES 
DA TERRA E DO CÉU?
NÃO SOMOS APENAS UM PARAFUSINHO NESTA FANTÁSTICA 
ENGRENAGEM, E… POR UM CURTO ESPAÇO DE TEMPO, 
HABITANDO UM DADO LUGAR?

No entanto, somos grandes, não pelos biliões de biliões de átomos de que 
somos feitos, mas por pertencermos à raça humana que conseguiu criar a 
Ciência, Ciência que nos permite ter todo este conhecimento. De resto, 
somos, na realidade, um minúsculo ponto no Planeta Terra, Terra que é 
pequeno astro no Sistema solar, Sol que é um ponto luminoso entre biliões 
de outros na Galáxia, Galáxia que é um ponto no Universo conhecido, 
Universo de que se supõe conhecer-se apenas 4 a 5%, ou seja, a matéria 
luminosa, sendo a matéria escura os outros 95 a 96%, e Universo que 
poderá ser apenas um ponto no imenso – INFINITO! – espaço vazio, onde 
toda a saga da matéria/energia se desenrola, sem que lhe possamos 
conhecer nem o princípio, nem o fim e, por isso, INFINITO!

Perante tamanha VERDADE, resta-nos o ASSOMBRO e… o SORRISO!



Quatro momentos ZEN ou de… 
reflexão filosófico-existencial

MOMENTO 1

– No sofá! Sofá do descanso, da leitura, do ouvir música, do ver televisão! 
Neste momento, nem livros, nem televisão; apenas, um suave fundo musical, 
convidativo ao relax total. Fecho os olhos. Rumo ao futuro. Próximo ou 
longínquo, não importa. Mas é um futuro absolutamente certo; 
absolutamente verdadeiro, inexoravelmente verdadeiro: dentro de dez, vinte, 
trinta – mil anos que sejam! – este lugar que ocupo e onde descanso, 
leio, ouço música e vejo televisão, e onde se podem entrelaçar mãos e até 
fazer amor…, este lugar estará vazio de mim, e ocupado ou não por alguém 
que dele tomou a posse. Eu… fui! Já não sou! Agora, ainda importo, ainda 
me importo, ainda valho, ainda amo e sou amado, lembro e sou lembrado. 
Depois, nada de lembranças restará! Tudo, cedo ou tarde, se perderá 
no esquecimento. Como pertencem ao esquecimento todos os que nos 
antecederam e que, de vez em quando, lembramos porque ainda deles sentimos 
os genes. Nada mais! É que cada um tem a sua vida para viver! E realmente 
aquele que importa é o que ainda está presente. Vai-se: e a sua ausência – 
que sabemos para sempre! – apenas será sentida um certo tempo: o chorar 
uma perda também cansa e em nada ajuda ao gozar a luz que a cada manhã 
se levanta para iluminar o corpo e aquecer a alma dos vivos...



Então…, olhos fechados! Em relax total! Sentindo como se já o nosso 
lugar estivesse vazio e nós em outro lugar, o tal lugar do mistério! É 
bom saborear esta ausência ainda presente! Longamente!

MOMENTO 2
- Eu! À noite, antes de adormecer. O turbilhão dos acontecimentos do 
dia provoca-me insónias, insistindo em manter-me os sentidos acordados 
quando as pálpebras já se fecham, de cansadas. Concentro-me. Concentro 
a mente no relax do meu corpo, subindo dos pés, lentamente, ao ventre, 
ao peito onde bate suavemente o coração (ah, quão poucas vezes nos 
lembramos que temos um coração e é por ele que vivemos e somos e…!), 
depois, ao rosto, onde a descontracção obedece ao descair do queixo, 
ao desfranzir da testa e das maçãs macias, enfim, à fronte. Aí chegada, 
a mente sai, liberta-se, voa pelo espaço, até ao infinito, por lá se perdendo, 
mas sempre caminhando lentamente, de estrela em estrela, até não ser 
capaz de ir mais longe do que aquela última tão brilhante que contemplei, 
faz tempo, no céu profundo e escuro. Há quanto tempo foi? Quando foi 
que olhei, pela última vez, o céu e as estrelas?
E, sem me dar conta, um sono profundo tomou conta de todos os sentidos, 
mergulhando-me no mundo dos sonhos… Bom!...


MOMENTO 3
Num qualquer lugar. Olha as tuas mãos! Ainda roliças e cheias de energia – 
ou já nem tanto… – certamente com muitas histórias de obras feitas para 
contar, tendo semeado carícias, tocado sentimentos, apertado sorrisos… 
Mas, no tal futuro, nada delas restará. Apenas pó, cinza, um quase nada de 
átomos que um dia foram vida…
Por deprimente, afastemos este momento da nossa mente. Mas, se dele 
quisermos tirar proveito, com um beijo no vazio, ou nas mesmas mãos, 
roliças ou já nem tanto…, relaxemos e ponhamos todas as preocupações no 
seu devido lugar. É que, depois disto, queiramos ou não…, é o NADA – ou 
o tal NADA que é TUDO – que nos espera!


A VIDA! A vida é mesmo para se saborear, sorrindo, beijando, olhando 
toda a beleza que nos circunda, das flores às estrelas, numa 
fantasmagoria de luz e cor… infindável. É que não teremos outra 
oportunidade: só esta nos foi dada!



2015 - ANO INTERNACIONAL DA LUZ


ÚLTIMO MOMENTO  (Este, um pouco menos ZEN!)
- Numa conferência com pretensões a debater Ciência. E chamam-se para 
cima da mesa, os conceitos de: Imanência e Transcendência, Física e 
Metafísica, Matéria e Espírito, Humano e Divino, Temporal e Eterno, 
Finito e Infinito, Natural e Sobrenatural.
Inicia-se o debate. De um lado, a Teologia; do outro, a Filosofia. Uma, 
insistindo, sem quaisquer provas credíveis, mas arrogante, como detentora 
da Verdade – Verdades absolutas! – na Transcendência, na Metafísica, 
na Espiritualidade, na Divindade, na Eternidade, no Infinito, no 
Sobrenatural, tudo envolvendo no Mistério, fruto da fantasia, da imaginação, 
da loucura inventiva de uns quantos ditos iluminados; a outra, com os pés 
bem assentes na Terra, no concreto, na experimentação, na Ciência, 
na dúvida metódica, na humildade de poder sempre tudo questionar e 
pôr à prova…, abraçando os conceitos de Imanência, Física, Matéria, 
Humano, Temporal, Finito, Natural.
Ao ouvinte, curioso, crítico, sorriso mordaz, a Teologia aparece-lhe 
como uma amálgama desprezível, exactamente porque, ao aceitar como 
Verdades dogmas e mistérios, despreza sobranceiramente a Ciência e 
o método científico da experimentação, único válido para quem é 
intelectualmente honesto; mas o mesmo ouvinte sorri, glorioso, à Filosofia 
crítica, por não confundir espiritualidade ou capacidade de abstracção – 
o que é timbre da nossa inteligência – com a religiosidade que apregoa 
e se funda na suposta existência de um mundo transcendente, metafísico, 
divino, sobrenatural, tendo-se apropriado dos conceitos de infinito e eterno, 
conceitos que pertencem ao domínio da abstracção, sendo um bom exemplo, 
para o Infinito, o das duas rectas paralelas que passam à nossa frente e se 
prolongam para um e outro lado, perdendo-se exactamente no infinito; se 
quisermos, um infinito, em todas as direcções, havendo apenas Tempo para 
tudo o que começa, pois, se começa, num dado momento, noutro forçosamente 
irá acabar. Tal como nós! Tal como as estrelas!...
Ah…, deixemo-nos perder nas estrelas! Aí, todos aqueles conceitos se 
desfazem perante o deslumbramento do inatingível…




Corolário:
Temos mais uma certeza absoluta: se a eternidade realmente existe, e existe 
com aquele mundo fantasmagórico de céus e infernos criado pelas religiões, 
tudo isso existirá tanto para crentes como para não crentes. Nada adianta 
andarmos a bater com a mão no peito perante um deus qualquer com o qual 
nos acenaram quando éramos crianças. E já não somos crianças…


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 68/?

À procura da VERDADE no livro de TOBIAS – 3/3

- Os anjos! Os anjos, normalmente simpáticos, a começar pelo nosso 
Anjo da Guarda, não deixam de ser figuras-mistério que confundem 
as nossas mentes racionalistas.


A figura típica de um anjo "adulto"
 A pergunta é simples: Porque precisa 
Deus de… anjos? Porque que é que, umas vezes, é Javé que aparece 
directamente aos seus eleitos, outras vezes, envia os seus anjos? 
Apetece, jocosamente perguntar: Acaso Deus anda tão ocupado com 
outros afazeres que não tem tempo para acudir pessoalmente a 
todo o lado? Na Terra, no céu e… no Universo? Claro que esta 
humanização de Deus, simplesmente nos repugna. Realmente, os anjos 
parecem mesmo serem desnecessários na “economia” do céu, na 
economia de Deus! No entanto, sendo Céu e Deus entidades inventadas 
pelos Homens, os anjos serão mais um complemento a essa brilhante 
invenção, humanizando o senhor do Céu, como necessitando de ter 
um trono e servidores que O sirvam, como são servidos e têm tronos 
os senhores e poderosos desta Terra! Claro que não deixa de ser uma 
humanização totalmente imprópria de um Deus que fosse real e 
verdadeiro.
- Sim senhor, tudo muito racional! Nem Céu nem Deus e anjos nele! 
Mas… é uma enorme frustração! Não será muito mais cativante admitir 
que tais entidades existam para que nós – humanos – tenhamos a 
esperança de sermos eternos e de ter uma vida num Além paradisíaco, 
junto de um Deus realmente existente e não inventado? Que frustração! 
Assim, resta-nos esta vida, vida que é tão curta e normalmente tão mal 
gasta por quem teve o privilégio de a ela ter tido acesso – tal como 
nós. Ora, então, sejamos razoáveis e conciliadores: se esta vida é a única 
certa e a outra pertence ao domínio da fantasia e da Fé, gozemos esta em 
todo o seu esplendor e sonhemos com a outra. Alguma coisa do sonho 
há-de restar quando definitivamente partirmos…
- Ainda há os anjos maus, os demónios ou diabos ou príncipes das 
trevas. Mas desses, por serem feios, cornudos e maus, não nos ocupemos. 
Que fiquem lá com o seu inferno que nós preferimos sonhar com o 
paraíso!...


Uma das muitas interpretações do diabo
- O livro acaba-se com o inspirado cântico de Tobias:
     “Bendito seja Deus
     que vive eternamente
     E bendito o seu reino
     que dura para sempre.” (Tb 13,2)
E invoca um Deus castigador, um Deus piedoso, uma Jerusalém que mais 
parece celeste que terrena:
     “As portas de Jerusalém
     serão reconstruídas
     com safiras e esmeraldas
     e todas as suas muralhas
     com pedras preciosas.
     As torres de Jerusalém
     serão construídas com ouro
     e com ouro puro os seus baluartes.
     As ruas de Jerusalém serão calcetadas
     com turquesas e pedras de Ofir (…) (Tb 13,17)
- Acabamos como começámos: “Antes de morrer, ainda pôde alegrar-se com 
a desgraça de Nínive e bendisse o Senhor Deus para todo o sempre.” 
(Tb 14,15)

- Alegra-se com a desgraça e bendiz o Senhor! Enfim… compensações! 
E nós? Alegrámo-nos por termos visto a Luz?

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 67/?

À procura da VERDADE no livro de TOBIAS – 2/3

- O enamoramento de Tobias por Sara é mesmo amor, não à 
primeira vista, pois dela apenas tinha ouvido falar, mas ao primeiro 
sinal dela: “(…)Ela foi-te destinada desde a eternidade (…)” 
(Tb 6,18). Quando Tobias ouviu o que Rafael lhe dizia e soube que 
a jovem era sua parente (…), ficou tão enamorado que o seu 
coração não conseguia separar-se dela.” (Tb 6,19)
- “Desde toda a eternidade…” Acreditaria o anjo Rafael no Destino?… 
Melhor, haverá algum anjo Rafael? Ou…, haverá anjos? E demónios, 
e Céu e Inferno e santos e Paraíso? E arcanjos e potestades e outros 
seres celestiais? Todo o raciocínio que sobre o assunto se possa fazer 
leva a crer que não! Tudo invenções, tudo fantasias de humanos que 
se disseram iluminados pelo divino…, um divino também ele inexistente!
- E já havia higiene naqueles tempos, ou não fosse esta história um conto 
exemplar: “Depois de se lavarem e se purificarem, sentaram-se à mesa.” 
(Tb 7,9)
- “Comovente” é a oração dos noivos antes de consumarem o casamento: 
“Por favor, tem piedade de mim e dela e faz com que juntos cheguemos 
à velhice.” (Tb 8,7) E foi festa em casa de Raquel durante quatorze dias…, 
enquanto Tobit e Ana, pais de Tobias, desesperavam com a longa 
demora do filho em voltar…
- Comovente também, mas de outro modo, é o milagre da reposição da 
vista nos olhos cegos de Tobit com o fel do peixe miraculosamente 
apanhado no rio. Quantos cegos de hoje não suspirarão por um milagre 
semelhante ou por um Cristo que lhes fizesse luz onde só há escuridão! 
Não foram inúmeros os cegos curados por Cristo? Porquê só então e não 
agora e… sempre? Ou, acaso houve alguma vez milagres à face da Terra? 
Embora haja milhões de crentes em tais manifestações divinas, qualquer 
raciocínio elementar leva a crer que não! Tal como as fantasias de Céus e 
Infernos e anjos e demónios neles, assim também os milagres não passarão 
de falsas piedosas invenções com o intuito de divinizarem o humano Jesus!

Tobias cura seu pai sob indicação do Arcanjo S. Rafael,
Vicente Lopez Portaña, Valência, 1789
- O anjo Rafael imita Cristo, ao dizer, despedindo-se: “Vou voltar para 
Aquele que me enviou.” (Tb 12,20) Ora, quem é que realmente o enviou? 
É Rafael real ou imaginário, não passando tudo de um sonho que Tobias 
tivera, transformando o autor em real uma figura imaginária? Falaremos, 
então, um pouco mais destes seres simpáticos, seres alados para poderem 
fazer a ponte entre o Céu (lá em cima, no espaço!) e a Terra (um 
pequeno planeta de um pequeno sistema solar, numa estrela média de 
tamanho, entre as 200 biliões da Galáxia Via Láctea, Galáxia entre milhões 
de outras que povoam o Universo infindo…). Quando se pensa em todas 
estas grandezas, qualquer análise que se faça dos conceitos religiosos que 
foram chegando até nós fica tão sem sentido, não é? Mas…

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo testamento (AT) - 66/?

À procura da VERDADE no livro de TOBIAS – 1/3

- “Os livros de Tobias, Judite, Ester (…) são novelas ou romances. 
(…) Os dois livros dos Macabeus apresentam os acontecimentos que 
se desenvolveram entre 175 e 134 a.C.” (Introdução a OUTROS 
LIVROS HISTÓRICOS, ibidem)
- Novelas, romances, relatos de acontecimentos… Livros divinos? 
De verdades eternas? Da VERDADE? Curioso, Não é? Mas dá 
vontade de dizer, embora convencidos que verdades divinas 
dificilmente encontraremos em tais livros: anda daí e… vamos ler!
- Finalmente! Uma história encantadora, plena de religiosidade! 
Apenas um senão, no final:  “Antes de morrer, Tobias ainda pôde 
alegrar-se com a desgraça de Nínive (…)” (Tb 14,15)


                                                      Uma de várias pinturas de Tobias

- É mais a história de Tobit, pai, do que do filho Tobias. “Sempre dei 
ajuda aos meus irmãos e compatriotas (…) O terceiro dízimo dava-o 
aos órfãos, às viúvas e aos estrangeiros (…) Eu dava o meu próprio 
alimento aos que estavam com fome (…)” (Tb 1,3,8,17)
- Apesar disso, religiosamente nada ganhou: também cegou 
e… desesperou: “Sim, é melhor morrer do que viver aguentando
esta prova (…)” (Tb 3,6) Ficou-lhe, no entanto, certamente o gosto
de ter dado, de ter partilhado o que era seu, sentido que é muito mais
realista do que praticar tais actos pensando numa recompensa eterna,
na glória do Céu! (Céu e eternidade supostamente existentes, está claro!)
- Outra história estranha é a de Sara que “tinha casado com sete homens, 
mas Asmodeu, o pior dos demónios, tinha matado cada um deles antes 
que tivessem relações conjugais com ela.” (Tb 3,8) E também Sara
desespera: “Já perdi sete maridos. Para quê viver mais?” (Tb 3,15) Sete!
Um dos números mágicos da Bíblia! Que significado tem este facto que,
a ter-se concretizado – o que é fortemente duvidoso - aponta para uma
paranóia qualquer de Sara ou/e dos seus maridos?
- No entanto… milagre! O desespero deles transforma-se em oração que vai 
ser atendida por Javé, enviando-lhes o anjo “Rafael para os curar: tirar as 
manchas dos olhos de Tobit e fazer com que Sara se casasse com Tobias (…), 
livrando-a de Asmodeu.” (Tb 3,17)
- E que belos conselhos os de Tobit a seu filho Tobias! Que lição de amor ao 
próximo e de solidariedade! Só destoa aquele: “Não te cases com mulher 
estrangeira, que não seja da tribo de teu pai, porque somos filhos de profetas.” 
(Tb 4,12)
- Então, já não se refere o perigo de contaminação com crenças noutros 
deuses? É apenas o evitar da “contaminação” com mulheres de outra tribo, 
de outra casta que não de profetas?!
- Belo também, embora familiar e humano, é aquele encontro do anjo Rafael 
com Tobit, oferecendo-se para guiar Tobias à procura da soma “perdida”. 
Desculpa-se a mentirinha de Rafael que, sendo anjo, anunciou chamar-se 
“Azarias, filho do grande Ananias”! (Tb 5,13)
- Ternurenta ainda - e bem humana e maternal - a cena da mãe que chora ao 
ver partir o filho.
- No entanto, outro milagre! O aparecimento do peixe no rio Tigre, ao qual 
Rafael manda arrancar o fel, o coração e o fígado.  É um milagre que tem o 
seu quê de magia como mágicas são as mezinhas com que Rafael irá 
afugentar o diabo do quarto de Sara e curar os olhos cegos de Tobit.


terça-feira, 9 de junho de 2015

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 65/?


À procura da VERDADE nos livros de ESDRAS e
NEEMIAS – 2/2

- E como aceitar a “decisão” de Javé proibir aos israelitas casarem 
com mulheres estrangeiras? (Esd 9,12) Pior! Para repararem a “ofensa” 
de não terem cumprido tal “decisão”, abandonaram mulheres e filhos!… 
(Esd 10,44)
- Alguns apologéticos dirão que seria para proteger os israelitas e a 
religião das influências politeístas dos outros povos. Mas não seria 
antes um explícito xenofobismo, um “proteger da raça”, o que continua 
actualmente a dividir as consciências mesmo as mais bem intencionadas? 
Se és branco, que sentirias se um filho teu te apresentasse uma negrinha 
com a qual queria casar? Ou a tua filha, um negro com os mesmos intentos? 
A pergunta torna-se repetida mas pertinente: Era Javé que proibia ou os 
“doutores” da Lei que o faziam em nome de Javé, imbuídos de um 
exacerbado nacionalismo?
- Já entrados em Neemias, eis que surge, finalmente, uma boa decisão 
bíblica - e não atribuída a Javé: “Vamos perdoar essa dívida. 
Devolvei-lhes hoje mesmo os seus campos (…) Perdoai também as 
penhoras (…)” (Ne 5,10-11)

- E outra: “Ide para casa, fazei uma bela refeição, bebei um bom vinho e 
reparti com os que não têm nada (…)” (Ne 8,10)
- Aqui, é Esdras que fala. Simpático este Esdras! E bem humano: comer, 
beber e… repartir! Se toda a Bíblia fosse assim! Quase que apetece 
dizer, hereticamente, claro: Se Javé procedesse de modo semelhante, 
em vez de apelar continuamente à guerra, ao extermínio, ao ódio, à ira, 
ao ciúme, ao temor de Javé! Mas… não! Logo, em Neemias 9, 
aparece uma oração, dita penitencial, certamente para aplacar a ira de 
Javé!
- E o texto é belo como belas são tantas obras de arte que, ao longo dos 
séculos de civilização judaico-cristã, saíram de mãos de artistas, na 
pintura, escultura, música e outras artes, inspiradas nesta Bíblia que 
tanto tem de apelativo apesar de todas as suas incongruências:
     “Bendito sejas Tu, Javé, nosso Deus,
     desde sempre e para sempre.
     Bendito seja o teu nome glorioso
     que supera toda a bênção e louvor!” (Ne 9,5)
E continua, evocando os feitos de Javé, desde a criação do mundo 
a Abraão, a Moisés, às leis, às infidelidades, aos castigos, às graças 
concedidas ao povo de Israel. (Ne 9,5-17)
- No entanto, espanta a quantidade de oferendas para o Templo a que o 
povo se obrigou! (Ne 10,33-40)
- Coitado do povo! Melhor do que “se obrigou”, seria dizer que “foi 
obrigado”, sempre pressionado na sua consciência, pelos servidores 
do Templo, apoiados no “santo” temor de Javé!…
- E que dizer da implementação do dízimo? (Ne 10,38 e 13,12) 
Não é baseados nestas palavras que os “sacerdotes” - agora chamados 
“pastores”! - de muitas igrejas exigem aos fiéis pelo menos 10% dos 
seus ordenados?
- Enfim, em Neemias 13,23-27, repete-se o “grave” pecado do 
casamento com mulheres estrangeiras! E nós… sem mais comentários…
- Acabámos! Chegados ao fim de mais uma leitura, valerá a pena 
perguntar se encontrámos a VERDADE que procurávamos, que… 
procuramos?


quarta-feira, 3 de junho de 2015

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Antigo Testamento (AT) - 64/?

À procura da VERDADE nos livros de ESDRAS 
e NEEMIAS – 1/2

- “Os livros de Esdras e Neemias continuam a história de Israel relatando 
os acontecimentos entre 538 e 400 a.C. O tema central é a organização da 
comunidade que se formou a partir do regresso dos judeus exilados na 
Babilónia.” (Introdução aos livros de Esdras e Neemias, ibidem)
- Novamente… a História! Que me importa a mim, que nos importa a 
nós, a história deles? Porquê, uma história é inspirada por Deus e é livro 
que se venera como divino? Enfim, com a frustração de não termos 
alternativa, vamos ver se descobrimos alguma Verdade.
- “(…) Javé, cumprindo o que tinha dito pelo profeta Jeremias, despertou 
a consciência de Ciro, rei da Pérsia, que proclamou (…): Ciro, rei da Pérsia, 
decreta: Javé, o Deus do céu, entregou-me todos os reinos do mundo. Ele 
encarregou-me de Lhe construir um Templo em Jerusalém. (…)” 
(Esd 1,1-2)


                                                       Templo construído por Salomão


                                                      Templo reconstruído por Ciro
- Mais uma vez, é Javé que tudo comanda: desde a voz do profeta à 
decisão de Ciro. E o Templo é reconstruído. (Esd 5-6) Mas… não é isto 
apenas e não mais do que História, embora com uma suposta interferência 
de Javé?!
- E que ideia é aquela de Ciro dizer que foi Javé que lhe entregou 
todos os reinos do mundo? Que credibilidade poderá ter tal afirmação? 
É: estamos perante a inversão completa da realidade.
Aliás, aqueles reinos – que, obviamente, não eram todos os reinos do 
mundo – tinha-os simplesmente conquistado Ciro, derramando o sangue 
dos vencidos. Nada mais! Então, para quê atribuir a Javé os seus feitos?
- “Cheios de alegria, os israelitas, ou seja, sacerdotes, levitas e outros 
repatriados, celebraram a dedicação do Templo de Deus. Nessa ocasião, 
ofereceram em sacrifício cem bezerros, duzentos carneiros, quatrocentos 
cordeiros e, como sacrifício pelo pecado de todo o Israel, doze bodes de 
acordo com o número de tribos de Israel. Estabeleceram também os 
sacerdotes, divididos conforme as suas classes, e os levitas segundo os seus 
turnos, para servirem no culto de Deus em Jerusalém, como manda a Lei de 
Moisés.” (Esd 6,17-18)
- Porquê se reduzem, aqui, os israelitas aos sacerdotes e levitas e outros 
repatriados? Onde foram estes “homens do Templo” buscar os bezerros, 
carneiros, cordeiros e bodes que imolaram? Por quem distribuíram a carne 
imolada? Ou deixaram queimar tudo para que o “suave” perfume chegasse 
a Javé?!!! Estas classes de sacerdotes e levitas, vivendo dos dízimos pagos 
ao Templo, não criam simpatia em nós… Porque será?
- “O nosso Deus protege aqueles que O servem, mas o poder e a ira dele 
recaem sobre todos aqueles que O abandonam.” (Esd 8,22).

- Talvez aqui tenhamos a resposta à pergunta anterior. Afinal, o que era 
servir a Deus? Não era cumprir a Lei de Moisés e pagar o dízimo ao 
Templo? Que serviço, santo Deus! E não causa repulsa este permanente 
dualismo bíblico: protecção divina - ira divina?