sábado, 4 de fevereiro de 2017

Cerimónias para o funeral de um agnóstico


Proposta

Antes da proposta, há que explicar o que é um agnóstico. O agnóstico nem é crente nem é ateu. Tem um princípio incontestável: “Todas as religiões e seus deuses foram inventados pelos Homens, construindo esses deuses à sua imagem e semelhança.” Daí que, racional e logicamente, não acredite nas religiões, quer antigas, politeístas (egípcias, mesopotâmicas, caldaicas, gregas, romanas, celtas, germânicas, etc.) ou trinitárias como a hindu (com a sua trindade: Brama, Shiva e Vixnu) quer mais recentes como a judaica com o seu monoteísmo de um Javé protector do auto-proclamado “povo eleito”, a cristã (com o seu monoteísmo disfarçado num mistério de trindade: Pai, Filho e Espírito Santo – um Deus único e trino!), ou a muçulmana com o seu profeta Maomé e o seu Deus Alá, quer qualquer crendice em anjos, santos, virgens, paraísos ou infernos, etc.
O agnóstico acredita na VIDA e no Deus que é o ABSOLUTO, O TUDO ONDE TUDO SE INTEGRA, CONTENDO TODO O ESPAÇO (por ser infinito) E TODO O TEMPO (por ser eterno), TUDO SENDO PARTÍCULAS DELE, DO ÁTOMO, AO UNIVERSO.
Aliás, de um ponto de vista científico, toda a crença nos deuses inventados pelo Homem é ridícula. Então, não sabemos já que o Homem é apenas um minúsculo ser – racional, pelo acaso da evolução – de um pequeno planeta, que pertence a uma pequena estrela, filha de uma galáxia, com mais de duzentos mil milhões de outras estrelas, galáxia entre milhares de milhões de outras que terão certamente muitos planetas onde também haverá vida semelhante à nossa? As religiões – pesem embora alguns benefícios de ordem psicológico-emocional – só amesquinham o Homem na sua essência de ser racional. Amesquinham o Homem e amesquinham Deus, porque o antropomorfizam, ao atribuir-lhe sentimentos sejam de amor, ódio, vingança..., habitando num dado lugar, etc., etc.
Ora, é contra isto que o agnóstico luta! Na vida como na morte, seguindo o lema: “Em qualquer situação em que o Homem se encontre, enquanto ser vivente, que se cante um louvor à VIDA!” 

Tempo de duração da cerimónia: c. de 2 horas
Indumentária: informal e colorida
Mestre de cerimónias indigitado pelos familiares do/a defunto/a

1 – Escolhe-se um local confortável para todos os “convidados”: igreja, salão paroquial ou de festas, sala de espectáculos, sala de convívios…, e para lá se transportam os restos mortais do/a defunto/a, num simples caixão de madeira.
2 – Contratam-se músicos, cantores e tocadores, solistas ou coro e orquestra, de acordo com as posses dos familiares.
3 – Todos aqueles a quem for anunciado o falecimento, ficam convidados a dizerem umas palavras (2 a 3 m, cada) sobre o/a falecido/a; não só um elogio ao seu contributo para a sociedade, família, amigos, país, mundo – mundo que o/a viu nascer, mundo que o/a viu partir – mas também relembrando qualidades a imitar manifestadas durante a Vida.
4 – Após 3 ou 4 intervenções, música, canto e dança. Alguma pode ser fúnebre, lembrando o inexorável fim da vida e, ali, daquela que se findou. É sempre maravilhoso e comovente o Requiem de Mozart de que se podem tocar/ouvir umas partes: o Dies Irae é brilhante! Mas, de preferência, alleluias e músicas que foram do agrado do defunto, celebrando-se a vida dos que ficam – até um dia! O Alleluia de Haendell será uma boa opção. Afinal, tudo é vida: “Se a semente não morrer e não cair à terra, não dará fruto!” Aqui, não dará fruto, como as sementes das plantas, mas integrar-se-á na vida de outros seres que se apropriarão de seus átomos e moléculas, átomos e moléculas que se uniram para fazer parte daquele ser que um dia foi, e que, agora, ficam disponíveis para uma nova “aventura”… Lindo, não é? A emoção ao serviço da razão! Então, celebremos essa Vida, onde, afinal, nada se criou, nada se perdeu, tudo se transformou: a morte é uma transformação!
5 – Um “porto de honra” e uma “pause-café” com petits-fours e outros bolos, ao fim da 1ª hora, ficarão muito bem!
6 – Nos cumprimentos aos familiares, mais sorrisos e abraços, por continuarmos vivos, do que lágrimas e pêsames pelo/a que já partiu e já viveu a sua vida, fazendo daqueles momentos, momentos de partilha, de convívio, de afectos…
7 – Algumas flores – ramos bonitos e não coroas de defunto – flores que serão distribuídas pelos familiares do/a defunto/a aos convidados. Temos que, em todos os momentos da cerimónia, lembrar a VIDA que continua e não a morte que é o seu termo natural anunciado desde a hora do nascimento.
8 – Se foi poeta/poetiza, recitem-se poemas; se escritor/a, leiam-se alguns excertos significativos de seus livros; se pintor/a, mostrem-se alguns quadros; se pai, mãe de família, apresentem-se seus filhos com elogios de saudades… Sempre ideias de VIDA que nestes se perpetua!
Cativante, não é? Resta saber, então, quando é que alguém terá a coragem de ser o primeiro a fazer tal funeral e seguir esta proposta, hipotecados que estamos ao tradicional velar o defunto, acompanhando-o, após várias horas de choro e visão de rostos carregados, entre choros e gemidos, à sua “última morada”. Bem vistas as coisas, acto humanamente deprimente, porque se deixou de fazer o equilíbrio entre a emoção e a razão. Só sendo emoção, o Homem pode destruir-se…
 Embora já nada sinta, naquele momento da transformação, gostaria de pensar, enquanto vivo, que o meu funeral seria assim: um hino à VIDA. Você não?! E, de certeza, teremos elogios sinceros no nosso funeral se, quando a nossa hora se aproximar, pudermos dizer, com toda a sinceridade e orgulho, um sorriso nos lábios: “Eu vali a pena! Com a minha vinda à Vida, o mundo ficou melhor e mais belo!”
Aliás, só pensando neste final “apoteótico”, daremos sentido à Vida, esta dádiva a que, um dia, tivemos a sorte de aceder, sem nada termos feito para isso… As religiões propõem outro sentido para a vida: preparar a eterna, no Céu, junto de Deus, um Paraíso de delícias, acompanhados de anjos e santos…, sendo esta apenas uma passagem. Seria lindo, não há dúvida, emocionalmente fantástico e daí que haja tantos crentes em tal eternidade. Mas é tudo fantasia, tudo imaginação de uns quantos que se disseram iluminados e que “impuseram” tais crenças aos milhões que em tal fantasia acreditam… É que nenhuma eternidade é possível aos seres pertencentes ao Tempo!

Final da cerimónia:
Todos se despedem, desejando-se uma longa vida feliz, sorriso nos lábios por poderem continuar a contribuir para o tal mundo melhor e mais belo…
Os restos mortais do homenageado/a serão levados discretamente para o crematório, assegurando-se os familiares de quando receberão as cinzas. Estas, mais tarde, serão espalhadas ao vento, no alto de uma montanha ou no mar, certos de que, onde caírem, serão integradas plenamente na Natureza de onde um dia, pelo milagre da vida, se transformaram num ser com vida! Aqui, o livro da Bíblia, Génesis, 3.19, tem razão: “Viemos do pó e para o pó voltaremos.” Não há dúvida: sermos átomos e moléculas de outros seres vivos, ou não, será a nossa única possível eternidade. O processo é imparável: nós também usámos os átomos e moléculas de outros que nos precederam…

7 comentários:


  1. Críticos embora da Bíblia, por não nos parecer que nela haja qualquer inspiração divina – aliás, ninguém sabendo o que isso é! – não resistimos a publicitar um texto do livro sapiencial, o Eclesiástico: «Meu filho, derrama lágrimas pelo morto (…) Chora amargamente, bate no peito e observa o luto (…) para evitar os comentários do povo; e depois, consola-te da tristeza. Porque a tristeza leva à morte, e qualquer aflição do coração consome as forças. Na desgraça, a tristeza permanece e uma vida triste é insuportável. Não entregues o teu coração à tristeza, pensando no fim que terás. Não te esqueças: da morte, não há retorno. A tua tristeza em nada servirá ao morto e acabarás por te prejudicar. Lembra-te: a sorte dele será também a tua. Eu ontem e tu hoje. Quando o morto repousa, deixa de pensar nele. Consola-te porque o espírito dele já partiu.» (Eclo 38,16-23)
    E aqui temos um escritor com uma visão fantasticamente realista da VIDA. Nada mais! Parabéns!

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  2. De um ponto de vista racional – e mesmo emocional – é totalmente ilógico o luto dos crentes: então, se o defunto vai para a vida eterna no céu, a vida gloriosa junto de Deus, tendo-se acabado esta vida de sofrimento, não é caso mais para risos e festas do que para pêsames e lágrimas? Não deveriam pôr em prática o ditado popular de origem religiosa: “Foi desta para melhor!”? Então, também para os crentes esta proposta de funeral deveria ser tida em conta.

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  3. Daqui lançamos o repto a jovens empreendedores para uma Start-up: através das redes sociais, angariam-se clientes que queiram fazer funerais dos seus entes queridos desta forma festiva; para evitar despesas, de início, a empresa funciona online, sem sede física, com contactos de email e SMS. Será, sem dúvida, a médio prazo, uma empresa de sucesso. Quem agarrará tal oportunidade? Eu, daqui a uns 20/30 anos, serei, com certeza, defunto cliente… Ah! Ah! Ah!

    Vá lá, riam ou, pelo menos, sorriam! É que rir é o melhor tónico para a saúde e para a longevidade…

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  4. “Um texto interessante, no qual me revejo globalmente.
    Também não me importaria de ser cliente dessa Start-Up daqui a 25 anos...
    Armando Santos”

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  5. Sobre a sugestão que deu origem ao seu texto - muito bem escrito como sempre! – devo dizer-lhe que estou perfeitamente de acordo, pois ela foi feita à medida e semelhança do estado de alma que imagino possa ter um agnóstico enquanto vivo, merecendo esse funeral que propõe para a análise a ser, eventualmente, feita pelos seus leitores. Faz no seu texto uma proposta adequada, repito, à dimensão das convicções adquiridas por um agnóstico.
    PARABÉNS!
    Maria Letra

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  6. Gosto da sua ideia, que no entanto não é original: já tenho assistido a funerais como o que descreve.

    Por outro lado não posso concordar com a sua definição de agnóstico. Dizer que "O agnóstico nem é crente nem é ateu" é uma impossibilidade já que o ateu é um não crente e que não há meio-termo entre crente e não crente.

    Etimologicamente o agnóstico é o que não sabe (se existe ou não um deus) e portanto somos todos agnóstico, já que não é possível provar a existência ou a inexistência de qualquer deus. Crente e ateu não tem a ver com o conhecimento mas com a atitude de cada um: tendo em conta a informação disponível há aqueles que acreditam que existe um (ou mais) deus(es) (os crentes) e há aqueles que não acreditam em tal existência (os ateus). Não há espaço para mais ninguém.

    O seu “princípio incontestável” do agnóstico: “Todas as religiões e seus deuses foram inventados pelos Homens, construindo esses deuses à sua imagem e semelhança” é afinal um princípio incontestável do ateu pois dizer que os deuses foram inventados pelos homens é não acreditar neles.

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