segunda-feira, 2 de maio de 2011

A ressurreição, mito impossível! (2/4)

Neste capítulo, poderemos dizer que a cultura judaica se suplantou à helénica que defendia a imortalidade dos seus heróis e poetas, na memória dos Homens, introduzindo o conceito da ressurreição post-mortem e ida para o Além onde se viveria para sempre. For ever!... Não só para os heróis, mas para todo o ser humano. Onde? – Num Céu, primeiro difuso, no AT, depois concretizado por Jesus, no NT, com anjos e santos e Deus no seu altíssimo trono..., ou num Inferno, invenção também do NT, com os primeiros padres “teólogos” da Igreja a darem-lhe corpo, enchendo-se de diabos e figuras monstruosas na Idade Média...
Há narrativas de várias ressurreições na Bíblia. Se as há em outros livros religiosos, não têm o mesmo carisma que estas.
No AT, a primeira referência a ressurreições corporais aparece em 2Rs. Trata-se do profeta Eliseu, “conhecido” pelos seus muitos milagres, entre os quais, a ressurreição do filho da sunamita (2Rs 4,8-37) e a do homem que, caindo na sua sepultura, ao contactar com os seus ossos, ressuscita! (2Rs 13,21). Outras referências menos explícitas encontram-se em Isaías (25,8; 53,10-12), Job (19,25-27), Salmos (16,10; 17,15; 49,16), e mais explícitas em 2Mc (7,9.11) e Dn (12,1-3).
No NT, são feitas inúmeras referências à vida depois da morte, quer nos evangelhos, por Jesus, quer nos Actos e nas Cartas, pelos apóstolos, tendo ficado célebre a frase de Paulo “Se Ele não ressuscitou é vã a nossa fé” (1Cor, 15.14). São três as ressurreições atribuídas a Jesus, dito o Cristo – a filha de Jairo (Mc 5,41), o filho da viúva (Lc 7,11.17), e a mais paradigmática de todas, a de Lázaro, já morto havia quatro dias. Esta, analisá-la-emos no próximo texto. Mesmo Pedro ressuscitou Tabita, segundo os Actos dos Apóstolos (9,40)...
Ora, que credibilidade nos merecem tais narrativas? Diríamos que nenhuma! São fantasias dos autores dos textos, realmente com alguma inspiração, obviamente sem nada de divino. No AT, aquele Eliseu em tudo o que tocava transformava em milagre... Foi uma espécie de Jesus dos evangelhos, sobretudo o evangelho de Mateus, antecipado... Curioso é o facto de Mateus, o maior inventor de milagres realizados por Jesus, não mencionar uma ressurreição.
Para melhor percebermos estes assuntos, mencionemos o facto de tudo se ter passado em tempos extremamente conturbados para os judeus. A braços com um invasor romano, necessitavam imperiosamente de um salvador, um messias que os livrasse de tal impiedoso ocupante: todos os que não obedeciam a César eram crucificados! O trauma culminou com a destruição do Templo em 70, após a revolta judaica de 67, tendo os evangelhos sido escritos a partir desta data até final do século. Ora, sendo impossível estabelecer um reino terreno, os religiosos revolucionários do tempo viram naquele Jesus - judeu que se evidenciou por, contra a classe religiosa instituída e conluiada com o poder, pregar uma mensagem de fraternidade universal - um messias, um salvador! Daí a fantasiarem tudo o que se conhece dos evangelhos à sua volta foi um passo, passo que teve enorme sucesso junto de judeus e gentios exactamente pela força da mensagem de fraternidade universal que continha.

9 comentários:

  1. Mas afinal o senhor não explicou porque se deu essa mudança de atitude dos discípulos, a partir do momento em que se começou a anunciar que o Mestre estava vivo. Afinal, isso é que é a chave do problema.Discorre sobre o assunto, com interpretações suas, mais nada.
    Homens simples, ignorantes e até rudes, duma hora para a outra, começaram a falar de modo que nunca tinham falado, admirando e contagiando multidões. Como é que isto foi possível?
    De tímidos, desiludidos,destroçados e mesmo aniquilados, com a morte do Mestre, tornaram-se valentes, que arrebatavam multidões. Eles que na noite da prisão do Mestre não se manifestaram valentes. Pelo contrário. Pedro, quando lhe disseram, com ar de gozo que era um dos que andavam com Ele, meteu o rabinho entre as pernas e negou-O, tal era a cagufa com que ele estava...
    Donde lhes veio então a valentia para se exporem, arrebatarem multidões e não temerem as autoridades, expondo-se até à morte?
    Quando os Evangelhos foram escritos, se não tivesse havido a proclamação arrebatada, convencida (como quem viu e sentiu) e convincente,conquistando cada vez mais aderentes, não haveria senão uma ideia difusa do que se tinha passado há 30/40/50 anos. E O Condenado teria sido um entre tantos, sem história.

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  2. Caro Cisfranco,
    A sua argumentação parece incontornável. E concordo consigo: deve ter acontecido algo de estranho que deu tanta energia àqueles homens rudes para se exporem de tal modo como nos relatam os evangelhos e Actos. Quanto a arrebatarem multidões, nada sabemos ao certo de que quantidade de gente se tratava. As cartas que lhes são atribuídas, excepto as de Paulo, são relativamente pobres, quer ideologicamente quer literariamente. De qualquer modo, algo fica por explicar. Por outro lado, Jesus, que era um bom pregador e de ideias fabulosas para a época, deixou sem dúvida um carisma nos seus seguidores. Terá sido este carisma a explicação daquela energia manifestada como reacção ao desalento que se seguiu à sua morte? Terão os apóstolos – ou seguidores – dado-se realmente conta de que o reino que Jesus propunha não era terrenal mas celestial e isso os catapultou para aqueles voos de arriscarem a própria vida pela mensagem atribuída a Jesus, dando sentido às suas próprias vidas, com o fito numa vida eterna num Céu de bem-aventurança?
    Claro que é apenas uma explicação ou tentativa de explicação. O que é certo é que não podemos admitir o impossível: os milagres e as ressurreições! E tudo tem de se integrar numa análise de conjunto baseado em duas verdades incontornáveis: 1 – Os evangelhos não são documentos históricos, pois misturam acontecimentos factuais com fantasias ou invenções (milagres, uns bonitos outros absurdos como o de J.C. mandar secar a figueira; acontecimentos fantasmagóricos como os que acompanharam a morte de J.C; etc.). 2 – Toda a chamada História da salvação é surrealista: Deus a ter um filho, a encarnar numa Virgem, a redimir o Homem dos pecados por uma morte de cruz, a ressuscitar..., em tudo imitando histórias antigas atribuídas aos deuses solares; e esse Deus só se lembra de redimir o Homem há apenas dois mil anos quando o Homem existe há mais de quatro milhões e o sapiens sapiens há pelo menos quarenta mil. É esta visão global ou de conjunto que tem de ser o nosso guia de análise crítica na avaliação do que nos dizem serem os factos.
    Saudações!

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  3. Mas as suas considerações, meu caro, não adiantam nada para se perceber donde veio essa energia aos discípulos que, dum dia para o outro, de fracos e acabrunhados, passaram a homens fortes, testemunhando, com desassombro que o Mestre estava vivo. O senhor diz que é impossível que tenha havido ressurreição. Mas não prova nada. Apenas discorre sobre o assunto, com frases e conversa de circunstância. É inconsequente tudo quanto o senhor diz. Explicar as coisas é diferente. Não se consegue explicar? Claro, reconheça-se isso.
    Eu digo que o Senhor não apodreceu no sepulcro. E também não consigo provar nada, mas tenho o testemunho dos discípulos e isso é que é importante. Conhece mais algum caso semelhante na História?
    E com isto, cada um fica na sua...

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  4. Caro Cisfranco,
    Apenas uma palavra de agradecimento à sua participação. Embora eu pense que disse muito mais do que "conversa de circunstância", gostarei de vê-lo por aqui mais vezes. E uma coisa eu creio: quem acredita sem muito raciocinar é feliz; quem tudo questiona, perde-se ou perde a pouca fé que tinha. E deixava-lhe uma pergunta: haverá alguma forma de aprofundar a Fé sem a perder?

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  5. "haverá alguma forma de aprofundar a Fé sem a perder? "

    Não sei, amigo. Sei é que concordo com este seu comentário.
    Cumprimentos.

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  6. ora bem, a única forma de aprofundar a fé é sermos como crianças e alimentando a fé na oração, prática de normas de piedade, etc.

    Aquilo que é facto é que os relatos dos evangelhos sinópticos são relatos credíveis e explicados de forma honesta e factual. Ao contrário dos apócrifos que são bastante sensacionalistas e fantasiosos.
    Exemplo disso é a carga cultural (moral e costumes) da época que é destruída pelo evangelho e que, por isso, foi de difícil aceitação inicial (o que levou à morte de todos os apóstolos). Outro exemplo é a infância de Jesus que é omitida pelos evangelistas (nos apócrifos é contada ao detalhe) por total desconhecimento ou para preservar a intimidade da família de Nazaré, talvez por vontade da Virgem Maria (a qual acredita-se ser a responsável pela narração cuidada do nascimento de Jesus em Lucas e por dois episódios sem grande sensacionalismo, como a obediência à Lei por parte do casal indo se recensear a Belém e circuncidando o menino, e quando perderam Jesus e o encontraram a falar com os doutores no templo demonstrando grande sabedoria para a idade.)

    Existem outras coisas, mas estaria a alongar-me. Sobretudo, penso que se Deus não estivesse na Igreja, ela teria sucumbido nos primeiros anos face à opressão do Império Romano. Não é qualquer crendice que destrói um império.

    Diz a velha tradição que as últimas palavras do último imperador romano foram: "Venceste, Galileu..." Na verdade, o maior império da história foi vencido por um jovem Galileu de 30 anos.

    Um abraço e muita fé!

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