sexta-feira, 15 de março de 2019

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (NT) - 209/?


À procura da VERDADE nos Evangelhos

Evangelho segundo S. MATEUS – 5/?

– Voltemos à primeira felicidade: “Felizes os que têm espírito de pobreza porque é deles o Reino dos Céus!” (Mt 5,2) Não sabendo nós o que é esse Reino, muitas vezes referido mas nunca explicitado, mais parece que Jesus está consolando aqueles que, por terem nascido pobres e não conseguindo alcançar riqueza material, tenham ao menos a esperança de ser “ricos” na outra vida, nos enigmáticos Céus…
O mesmo acontecerá com os que choram, os humildes, os que cumprem a vontade de Deus…
(também não percebendo o que é isso de cumprir a vontade de Deus) e ainda, os perseguidos por cumprirem essa vontade, os insultados e caluniados por serem discípulos de Cristo…
É: à desgraça e ao sofrimento contrapõe Jesus o sempre misterioso Céu. É a dicotomia sofrimento-recompensa! Problema é que nunca provou que o seu Céu existia e que merecia todo aquele sofrimento para o alcançar, ficando nós sem saber o que fazer com tal mensagem…
É interessante constatar que, por seis vezes, usa Jesus a palavra DEUS. A autoridade com que fala de Deus parece enorme mas, pelo desenrolar dos acontecimentos, não há dúvida de que não foi muito convincente para com os do seu tempo.
–“Façam brilhar a luz diante de toda a gente, para que vejam as boas acções que vós fazeis e louvem o vosso Pai que está nos Céus.” (Mt 5,16)
– Aparece, pela primeira vez, “o vosso Pai que está nos Céus”. Porque disse Jesus “vosso” e não “nosso”? Não era Ele também Filho desse Pai? Ou aqui não quis ser nosso irmão, por sermos tão pouco “divinos”?!… E quem é realmente aquele Pai?
–“Não pensem que Eu vim acabar com a Lei de Moisés ou com o ensino dos profetas, (…) mas sim dar-lhes cumprimento. (…) Eu vos garanto: Se a vossa justiça não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, não entrareis no Reino do Céu.” (Mt 5,17-20)
– A Lei de Moisés! Acaso ultrapassou a dimensão do humano? E que dizer desta primeira “chicotada” nos doutores da Lei e nos fariseus?
Por outro lado, Jesus completa e não poucas vezes corrige as Escrituras, parecendo contradizer-Se com o que anteriormente dissera. Ora, vejamos:
Ao “Não matarás!” acrescenta: “Não te irritarás contra o teu semelhante, não lhe chamarás imbecil, não lhe chamarás estúpido…”: “Quem chamar estúpido ao seu irmão, merece ir para o fogo do inferno.” (Mt 5,22)
Ao “Não cometerás adultério!” contrapõe: “Todo aquele que olha para uma mulher e deseja possuí-la, já cometeu adultério no seu coração.” (Mt 5,27-28)
E aconselha terrivelmente: “Se o teu olho direito te faz pecar, arranca-o e atira-o para longe de ti. (…) Do mesmo modo, se a tua mão direita te faz pecar, corta-a e atira-a para longe de ti. Mais vale perderes uma parte do teu corpo do que ele ser todo inteiro lançado no inferno.” (Mat 5,29-30)
Ao “Não jurarás falso, mas cumprirás os teus juramentos para com o Senhor”, contrapõe: “Não jureis de modo algum: nem pelo Céu, porque é o trono de Deus; nem pela Terra que é o suporte onde Ele apoia os pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei; (…) nem pela tua própria cabeça, porque não podes fazer com que um só dos teus cabelos fique branco ou preto. Basta que digas «sim» quando é «sim» e «não» quando é «não». Tudo o que disseres para além disto é obra do Diabo.” (Mt 5,33-37)
(Por extenso e importante, o comentário de análise será objecto do próximo texto)

sexta-feira, 8 de março de 2019

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (NT) - 208/?


À procura da VERDADE nos Evangelhos

Evangelho segundo S. MATEUS – 4/?

– João Baptista é preso e Jesus retira-Se. (Mt 4,12)
Mateus vai tentando provar com as Escrituras, tudo o que vai acontecendo a Jesus. (Mt1,23;2,6 e 18;3,3; 4,15-16) É uma preocupação compreensível, na persecução dos seus objectivos. Mas, não deveria Jesus impor-Se por Si só, sem ter de ser para cumprir tais Escrituras? Até parece um “joguete” de uma qualquer força que Lhe é exterior! Aliás, será exactamente isso que Lhe será imposto, sobretudo na hora da morte que ele obviamente não queria, como veremos…
– “Pregava a Boa Nova do Reino, dizendo: «Convertei-vos, porque o Reino do Céus está próximo.» (…) Traziam-Lhe todos os que sofriam de várias doenças e males: endemoninhados, epilépticos e paralíticos. E Jesus curava-os a todos.” (Mt 4,17 e 23-24) E os pescadores Simão e André, Tiago e João foram atrás dele, obedecendo imediatamente ao seu chamamento. (Mt 4,18-22) 
Mas quem não seguiria Jesus, ao ver tantos milagres ali assim realizados com o à-vontade de quem supera todas as forças, todas as leis da Natureza? (Só não sabemos o que aconteceu às mulheres e filhos dos que seguiram Jesus, ficando sem o ganha-pão de pais e maridos…)
Também Jesus repete, sem nada explicitar, o “Reino dos Céus” de João Baptista. Assim como o seu famoso apelo “Convertei-vos!” É de supor que fosse de fácil entendimento para os da época.
– “A multidão que O seguia era enorme. Vinha gente da Galileia, das Dez Cidades, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão.” (Mt 4,25)
– Imaginemos Jesus hoje a curar todos os doentes que lhe apresentavam. Quem que tal visse não o seguiria? Não viriam povos de todo o Planeta para O verem, O ouvirem, O seguirem, serem curados?
E assim todos se salvariam, atingindo Deus-Pai totalmente os objectivos do envio do seu Amado Filho à Terra… Então, três perguntas se impõem: 
1 – Porque é que perante tantos e tais milagres, as multidões não O aceitaram e vieram a condená-Lo à morte? 
2 – Sendo Deus omnisciente e sabendo do impacto a nível salvífico, que teria, com os actuais meios de comunicação social a nível mundial, a vinda do seu Filho à Terra, porque O enviou naquele tempo e não O envia agora?
3 – Como é possível que a fama dos milagres não tivesse ultrapassado as fronteiras da Palestina e viesse gente de todos os cantos do mundo conhecido de então para os presenciar?
Sem respostas do “Céu”, continuemos em busca, aqui, na Terra!
– Cada felicidade apregoada no chamado “Sermão da montanha”, tem o seu quê de ternura e… de mistério. É talvez a primeira grande ligação da Terra ao Reino dos Céus ou… a Deus. E então..., felizes serão os pobres de espírito (isto é, os que têm espírito de pobres), os que choram, os humildes, os que obedecem a Deus, os misericordiosos, os sinceros, os pacíficos, os que sofrerem perseguições por causa de obedecerem a Deus… (Mt 5)
– Mas felizes… onde? Na Terra ou no tal enigmático Reino dos Céus?
Adivinhando a pergunta, Jesus responde: “Alegrem-se e encham-se de satisfação porque é grande a recompensa que os espera no Céu.” (Mt 5,12)
Infelizmente, ninguém lhe perguntou onde é esse Céu. É que, conhecedores de tal mistério, toda a gente tentaria saber como alcança-lo. Como nada disse a respeito, o resto do sermão em pouco entusiasmou as gentes que o ouviam…
E faltam os outros. Os que não têm espírito de pobreza, os que se divertem e riem, os que se orgulham dos seus feitos heróicos mas à custa do sofrimento de tantos inocentes, os que não obedecem a Deus porque não sabem bem o que isso é, os que não usam de misericórdia, os que mentem, os que promovem a guerra, os que fogem às perseguições… Esses todos - e serão tantos! - vão para onde? – Certamente para o inferno. Se é que o Inferno com os seus “divertidos” diabos também existe… Mas talvez mais tarde tenhamos respostas, pois irem assim todos para um inferno eterno, tanto o assassino como aquele que apenas não usou de misericórdia, é injustiça não aceitável aos olhos dos Homens quanto mais aos olhos de Deus…


sábado, 2 de março de 2019

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (AT) - 207/?


À procura da VERDADE nos Evangelhos

Evangelho segundo S. MATEUS – 3/?

– “Então, Jesus, conduzido pelo Espírito Santo, foi para o deserto, a fim de ali ser tentado pelo diabo.” (Mt 4,1)
– Jesus ser tentado pelo diabo é… diabólico! Não se percebe qual o interesse de uma tentação a um Filho de Deus. E de ser esse Filho de Deus “obrigado”, pelo Espírito Santo, a ser tentado. É tudo tão estranho! Bem nos parece tal “facto” ser fruto da prodigiosa imaginação de Mateus, como o seu desfecho:
– Vencedor das tentações do diabo, “aproximaram-se alguns anjos que O começaram a servir.” (Mt 4,11)
– Fácil, sendo-se Deus, vencer o diabo, não é? Difícil de entender é que sendo o diabo esperto, ainda vá tentar Jesus, sabendo da derrota inevitável! Ou… a tal foi obrigado? - perdoe-se-nos a disfarçada ironia! E os anjos a servirem Jesus? Que anjos? Que manjares serviriam a um Jesus que jejuou quarenta dias e quarenta noites? Manjares da Terra ou… do Céu? Que maravilhoso este que possa merecer qualquer credibilidade? Não mergulha no mais profundo fantástico da imaginação, do mistério, do… milagre? Como se terá realmente comportado Jesus no meio deste maravilhoso humano-divino? Aliás, que Cristo jejuou quarenta dias e quarenta noites? O Jesus-homem ou o Jesus-Deus? Enfim, quem presenciou tal maravilhoso para dele Mateus nos dar testemunho, uns 40 anos mais tarde?
Os quarenta dias e quarenta noites fazem-nos lembrar os quarenta dias e quarenta noites que Moisés passou no Monte Sinai… E também os quarenta anos que o povo “eleito” errou no deserto, depois de ter saído do Egipto…
Mas, porque precisou de quarenta dias e quarenta noites de jejum? Para ser tentado pelo diabo?… Aliás, que milagre seria maior: virem os anjos servirem Jesus ou simplesmente Jesus não ter fome num corpo que estaria completamente dominado pelo espírito divino que o informava? Enfim, que anjos tiveram a dita de saírem da “monotonia” celestial de sempre louvarem e bendizerem ao Senhor, para “descerem” até à Terra e darem de comer - e certamente de beber! - a Jesus Cristo, lá numa bela paisagem de deserto, de dunas de areia rosa ondulando, tão diferente das paisagens sempre floridas e verdejantes do paraíso?…
“Descer”!… Acaso o Céu fica lá em cima? É que não há acima nem abaixo mas apenas espaço sideral! Ah, como humanizamos o inumanizável divino!… Somos mesmo incorrigíveis!
E a quem serviu o sacrifício do jejum? Ao próprio Jesus enquanto homem? Uma espécie de desintoxicação alimentar e preparação para as longas caminhadas pela Galileia?
Resta-nos comentar, mais uma vez, os anjos! São sem dúvida figuras simpáticas! Mas, também sem qualquer dúvida, fruto da imaginação religiosa de muitos. E aproveitados aqui, por Mateus, para irem satisfazer as necessidades de um corpo “divino” esfomeado, na saga imaginativa das tentações de Jesus. Divina comédia!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (NT) - 206/?


À procura da VERDADE nos Evangelhos

Evangelho segundo S. MATEUS – 2/?

– Mateus narra o nascimento de Jesus, secamente, “… em Belém… numa casa…” (Mt 2,1 e 11), sem gruta, nem frio, nem animaizinhos aquecendo o recém-nascido, figuras e lendas que encantam os nossos presépios e encantaram os nossos olhos de criança, mas, obviamente, “romantismos” inventados, mais tarde, por Lucas… E foram esses “romantismos” que levaram poetas e músicos a criar canções de embalar, repletas de melodias, glórias, aleluias, hossanas! Não há dúvida: em canções natalícias rivalizamos, na Terra, com os anjos que, em coros celestiais, continuam a cantar os louvores e as maravilhas divinas… Se é que há anjos, se é que têm vozes, se é que há maravilhas feitas por Deus, se é que há um… Céu!
– Aqui, talvez para tentar convencer a forte e influente classe sacerdotal, Mateus volta a apelar para as Escrituras: “E tu Belém, (…) de ti sairá um Chefe …” (Mt 2,6) Depois, descreve como os sábios vêm adorá-Lo e voltam por outro caminho, enganando Herodes. Segue-se a narrativa da fuga para o Egipto.
– Num e noutro caso, o sonho desempenha papel primordial como instrumento de Deus para dirigir o Homem. Há pouco, foram os sábios (Mt 2,12); no princípio e agora, é José. (Mt 1,20; 2-13,19 e 22). Ora, os sonhos, tal como a intervenção de anjos, não merecem qualquer credibilidade histórica.
Pondo de parte a história pouco relevante, por ingénua, dos sábios que vêm ao presépio e depois enganam Herodes, falemos de um maior problema, a nível de credibilidade: a suposta matança dos inocentes, bebés até dois anos, cujo anúncio em sonhos a José teria originado a fuga para o Egipto. (Mt 2,16) Não só porque, em si, seria estúpida e sem motivo real, mas também porque de tal facto não reza o historiador da época que merece bastante credibilidade, Flávio Josefo, historiador que relata várias atrocidades cometidas por Herodes, mesmo contra os próprios familiares. Portanto, deduz-se que tenha sido mais uma invenção de Mateus, imitando também relatos antigos de perseguição aos meninos-deuses. Acrescente-se que Mateus é o único evangelista a referir tal “facto”…
– A pregação de João Baptista vem na mais “pura” linha de muitos dos profetas do AT. Aparecem assim algumas palavras-chave: “O Reino dos Céus … Confessavam os seus erros e ele baptizava-os… Castigo de Deus que se aproxima… O machado está pronto para cortar…” (Mt 3)
E aquele “raça de víboras” com que ele mimoseava os fariseus e saduceus? – Era, com toda a certeza, merecido! E também eficaz, pois eles, certamente com medo do Deus terrível que se aproximava, lá iam baptizar-se e… arrepender-se! (Mt 3)
– No primeiro encontro-desencontro de Jesus com Deus, o maravilhoso acontece: “Abriram-se os Céus e Jesus viu o Espírito de Deus a descer sobre Ele, como uma pomba. E uma voz do Céu dizia: «Este é o meu Filho muito querido. Tenho nele a maior satisfação.»” (Mt 3,16-17)
Que valor histórico tem tal maravilhoso? Quem ouviu a “voz do Céu”? E porque desceu o Espírito de Deus em forma de pomba e não noutra forma qualquer? E quem viu esta “pomba” para se poder afirmar que existiu? E se Jesus Cristo era Deus, porque precisava que o Espírito de Deus descesse sobre Ele?
Constata-se ainda que Deus fala como qualquer pai terreno o faria. Mas… não começamos já a humanizar Deus, tal como se fez na Bíblia do AT? Vamos também aqui ter um Deus limitado no tempo e no espaço, quando, a existir, Deus tem de ser o Deus de todos os tempos e de todos os espaços porque fora do tempo - eterno - e fora do espaço - infinito?
“Este é o meu Filho muito querido”! Perguntaremos, mais tarde, a Deus-Pai: “Então, porque O vais deixar ou “obrigar” a morrer numa cruz?…”
Enfim, porque foi Jesus baptizado? (Mt 3,13) Também precisava de purificação ou foi apenas para integrar e confirmar a pregação de João Baptista? É que, sendo filho de Deus, nascido de uma virgem por acção do Espírito Santo, o baptismo não faz qualquer sentido… (Como, aliás, não faz sentido para qualquer Homem, já que a purificação do pecado original implicaria que tal pecado tivesse existido, facto impossível, pois os seus supostos autores – Adão e Eva – simplesmente também não existiram…)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (NT) - 205/?


À procura da VERDADE nos Evangelhos 

Evangelho segundo S. MATEUS – 1/?

– Mateus pretende dar cunho inequivocamente histórico à descendência de Jesus: “Assim, as gerações desde Abraão até David são quatorze; de David até ao exílio na Babilónia, quatorze gerações; e do exílio na Babilónia até ao Messias, quatorze gerações.” (Mt 1,17) Mas, parece totalmente questionável esta precisão “quatorze”, como tendo alguma validade histórica. Seja qual for o conceito de geração para Mateus, basta dizer que de Abrão (c.1900 aC) a David (c.1000 aC) vão c. 900 anos e de David ao Exílio (580 aC) vão c.420.
–“A origem de Jesus, o Messias, foi assim: Maria, sua Mãe, estava prometida em casamento a José e, antes de viverem juntos, Ela ficou grávida pela acção do Espírito Santo. José, seu marido, era justo. Não queria denunciar Maria e pensava em deixá-La, sem ninguém saber. Enquanto José pensava nisso, o Anjo do Senhor apareceu-lhe em sonho e disse: «José, filho de David, não tenhas medo de receber Maria como esposa, porque Ela concebeu pela acção do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho, ao qual darás o nome de Jesus, pois Ele vai salvar o seu povo dos seus pecados». Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: «Vede: a Virgem conceberá e dará à luz um Filho. Ele será chamado Emanuel, que quer dizer: Deus está connosco.»” (Mt 1,18-23)
– Singela, lírica, quase romântica, esta origem de Jesus Cristo… A Virgem fica grávida do Espírito Santo e dá à luz, sem que José tenha qualquer intervenção: “Quando acordou, José fez como o Anjo do Senhor havia mandado: levou Maria para sua casa e, sem ter relações com Ela, Maria deu à luz um Filho. E José deu-Lhe o nome de Jesus.” (Mt 1,24-25)
O problema é misturar-se o divino com o humano, em fronteiras difusas. E, obviamente, estamos perante um milagre! O primeiro grande milagre do Novo Testamento: nascido de uma Virgem, com a intervenção do Espírito santo… Aqui, Mateus teve necessidade de apelar para as Escrituras. Mas o passo referido nada prova, trocando deliberadamente o vocábulo “jovem” por “virgem”. Veja-se: “Pois ficai sabendo que Javé vos dará um sinal: A jovem concebeu e dará à luz um filho e chamá-lo-á Emanuel.” (Is 7,14).
Percebe-se que Mateus apele para o Javé das Escrituras. Mas sabemos como os próprios autores “sagrados” O maltrataram e descredibilizaram, tornando-O motor da história das guerras em que intervieram os israelitas e povos vizinhos, quer como vencedores, quer como vencidos! E perdendo-se em manifestações de iras, ódios e forças descomunais, afirmando o seu poder com supostos milagres, quando faltavam forças para dominar o “inimigo”! Completamente hipotecado a um povo, dito “eleito”, o povo de Israel…
Depois, quem era realmente aquele Anjo do Senhor que aparece em sonhos a José? Real ou… inventado por Mateus, falando em sonhos como falaram os anjos de Javé no Antigo Testamento? Tudo bem mais parece ser produto da fértil imaginação criativa de Mateus. Se é que há anjos…
Outra “certeza” de Mateus: “Jesus é o Messias.” Mas a afirmação é totalmente gratuita, sem que apresente qualquer prova credível… Nem se percebe bem o que ele entenderia por Messias: libertador do povo de Israel, para a Terra, do jugo romano ou… para o Céu?
Enfim, Mateus começa como irá continuar, sem objectivos de veracidade histórica mas com intuitos claros de firmar na Fé os aderentes à nova religião que, ora ali, se ia iniciando. E tais fins justificavam todos os atropelos à História, substituída esta pela criatividade da fantasia.
Resta dizer que os evangelistas, sobretudo Lucas, apresentarão Jesus, o Messias, como nascendo milagrosamente à moda dos deuses solares antigos – deuses nascidos do conúbio de outros deuses com virgens terrestres – para tentar convencer, assim, os crentes da sua origem divina. Obviamente, uma falácia…


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (NT) - 204/?


Preâmbulo 3
Ainda antes do texto

– Não sabemos, com total certeza, se Jesus considerava “sagradas” e, portanto, intocáveis, porque de inspiração divina, as Sagradas Escrituras. Por um lado, diz: “Não venho abolir as Escrituras mas dar-lhes pleno cumprimento. “ (Mt 5,17) Por outro, corrige-as, não poucas vezes, transformando, por exemplo, o “olho por olho, dente por dente” no amor ao próximo - amigos e inimigos - impensável no A T: “Se amardes os vossos amigos que merecimento tereis? Amai pois os vossos inimigos e tereis uma recompensa no Céu!” (Mt 5,46; Lc 6,27-35) “O primeiro dos mandamentos é: amar a Deus sobre todas as coisas; e o segundo é semelhante a este: amarás o teu próximo como a ti mesmo.”
Enfim, cita Jesus não poucas vezes, as Escrituras, para em parte fundamentar, em parte justificar a sua actuação. (Mt 11,10; 13,12-17; 15,8 e 19; 22,37-39; etc.) Os evangelistas, também. E é certamente no Evangelho de S. Mateus que encontramos mais vezes citadas as Escrituras para tentar “provar” que Jesus é o Messias anunciado. (Mt 1,23; 2,6-e 18; 3,3, 4,15-16; 8,17; 19,4-9; 26,31; etc.)
– Iniciando-nos na análise ao NT, lê-se na Introdução, e ficamos perplexos perante a insanidade e a gratuitidade das afirmações: “Através da sua palavra e acção, Jesus inaugurou a nova aliança ou, por outras palavras, o Reino de Deus. (…) Em Jesus, Deus quer reunir toda a humanidade como uma família. (…) Essa grande reunião, onde tudo é partilha e fraternidade no amor, é o Reino de Deus que, semeado na História, vai crescendo até que se torne realidade para todos.” (ibidem)
Realmente, olhando o que se passa à nossa volta, dois mil anos volvidos, nem aliança nem Reino de Deus se manifestam entre os Homens. E, se olharmos a História, então o cenário é muito pior! Então, o fracasso da iniciativa de Deus de enviar à Terra o seu Filho Salvador parece total! 
– Também se afirma – o que é de estranhar num exegeta comprometido: “Os Evangelhos (…) não são biografia ou História, mas sim um anúncio para levar à fé em Jesus, isto é, ao compromisso de continuar a sua obra, pela palavra e acção. (…) O Apocalipse de São João (…) apresenta Jesus ressuscitado como Senhor da História e mostra como os cristãos, em tempo de perseguição, devem anunciá-Lo e testemunhá-Lo sem medo, enfrentando até a própria morte.” (ibidem)
E nós concluímos: Portanto, não sendo biografia nem História, não merecem qualquer credibilidade acerca do que narram sobre a vida e história de Jesus. No entanto, não é isto que pensa a Igreja nem o que manda ensinar na catequese… Quanto a Jesus ser o Senhor da História, parece-nos cair na tentação bíblica do Antigo Testamento, em que Javé-Deus é tão Senhor da História que tudo comanda e dirige, desde os castigos infligidos aos judeus, nas derrotas sofridas, como nas vitórias alcançadas, prémios pelo seu bom comportamento diante do mesmo Javé-Deus. Mas sabemos que tais vitórias e derrotas nada têm a ver com Javé: foram simplesmente ditadas pela História dos povos intervenientes.
– Mais desconcertante ainda é o que o “nosso” comentador acrescenta: “O Templo é sem dúvida o centro de Israel. (…) No Templo, habita o Deus único, santo, puro, separado, perfeito. (…) O Homem torna-se tanto mais puro quanto mais perto estiver de Deus. (…) Percebe-se, então, o poder dos sacerdotes na sociedade judaica. (…) Essa autoridade dos sacerdotes sobre o povo acaba por legitimar e reforçar o Templo que se torna não só o centro religioso mas também o centro económico e político. (…) O Templo possui imensas riquezas (o Tesouro) e toda a cúpula governamental age a partir daí (o Sinédrio) (…). A religião torna-se instrumento de exploração e opressão do povo.” (ibidem)
Exactamente! Tal como durante todo o Antigo Testamento! Por isso, dissemos que aquele Javé-Deus que tudo ordenava, que ordenava todos aqueles ritos de holocaustos e ofertas pelo pecado – aliás denunciados uma vez pelo profeta (Os 4,8) – não passaria de invenção de sacerdotes e patriarcas que assim legitimavam perante o povo, o seu poder, os seus abusos, as suas exigências do dízimo e das primícias, tudo em nome e por ordem de Javé-Deus! Ah, como viveram à sombra do Templo tantos e tantas, a coberto de Javé, santo Deus!… E – espanto dos espantos! – já noutros contextos o dissemos – como continuamos a ter como sagrados, de inspiração divina, tais textos que tal defendem e em que tal baseiam a história “divina” de um povo!
Pior! Como continuamos a considerar tais textos como o fundamento da nossa fé e da nossa vida eterna, pois foram essas Escrituras que prepararam a vinda do Senhor, do Messias, de Jesus Cristo?! E… que O levaram à morte!
Mas, sem perdermos a esperança de encontrar a VERDADE, vamos então, à análise crítica dos Evangelhos!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Onde a Verdade da Bíblia? - Análise crítica - Novo Testamento (NT) - 203/?


Preâmbulo 2
 O Messias!

– O Messias! O Salvador! O Libertador do pecado!… Mas… Salvador de quê? Do Homem? Que Homem? O da proto-história, ou o dos tempos de Cristo, prolongando-se no de hoje? E Libertador do pecado? Que pecado? Acaso houve realmente pecado? O que é isso de “pecado original”?
Aliás, quando nas Escrituras do Antigo Testamento, se fala em Messias, o Salvador, era apenas no seu significado de Salvador terreno do povo eleito, Israel, das garras - mais uma vez! - dos seus inimigos, ou do cativeiro da Babilónia: “Mas tu, Belém (…), é de ti que sairá para Mim Aquele que há-de ser o chefe de Israel! (…) De pé, Ele governará com a própria força de Javé. (…) Ele estenderá o seu poder até às extremidades da Terra. Ele próprio será a paz. (…) Ele nos livrará da Assíria se ela invadir o nosso território e atravessar as nossas fronteiras.” (Mq 5,1-5)
Mais: foi neste sentido que o interpretaram os Apóstolos e o povo, quando a mãe de Tiago e João pediu a Jesus um bom lugar no seu Reino. (Mt 20,20; Mc 10,35) Até houve entre os Apóstolos aquela discussão de qual seria o primeiro no Reino dos Céus, tendo nós dúvidas de que não tomassem tal Reino por reino deste mundo... (Mt 18,1),  ficando eles decepcionados ou confusos, quando ouviram Jesus afirmar, perante Pilatos: “O meu Reino não é deste mundo…”.
Note-se que, na Introdução ao Evangelho de Mateus, se diz: “Jesus é o Messias que realiza todas as promessas do Antigo Testamento. Essa realização ultrapassa as expectativas puramente terrenas e materiais dos contemporâneos de Jesus, que esperavam apenas um rei nacionalista que os libertaria da dominação romana. Frustrados nas suas expectativas, rejeitam-No e entregam-No à morte.” E ainda na Introdução a Marcos: “Nessa época, tinha-se a ideia de que o Messias faria com que Israel retomasse o antigo esplendor dos tempos de David e Salomão.” (1)
Ora, o Reino!… Se não é deste mundo, de que mundo é então? - já noutros lugares perguntámos. E tantas perguntas temos sobre esse Reino, tantas!… Onde é esse Reino? No céu? Que céu? Como lá chegar? Quando? Quem de lá veio para no-lo afirmar que realmente existe, sem rodeios de parábolas ou mistérios como o próprio Jesus tudo deixou? Quem? 
A vontade é de perguntar ainda ao próprio Deus:
"Porque não envias tantos mensageiros quantos sejam necessários até que todos os Homens acreditem e… se salvem, atingindo os teus objectivos de salvação dos mesmos  Homens, mas não tendo de morrer  tão ignominiosamente e tão sofredoramente na cruz, como morreu o dito teu filho Jesus?" 
E, ainda, a propósito: "Que Pai - sendo Pai! - deixa - pior: quer, exige! - que um filho morra assim numa cruz? Houve algum objectivo para que tal tivesse acontecido? Ou, por ser teu filho, não sofreu realmente mas foi tudo aparências? Tudo fingimento?" Ao que isto nos levaria, Santo Deus-Pai! 
E, falando abertamente: "Assim, só podemos fazer conjecturas. O teu filho parece ter deixado tudo muito confuso, apelando sempre para o mistério, quando merecíamos que nos falasse mais claramente. E se, da primeira vez, não entendemos, bem merecíamos - bem merecia o Teu esforço de Salvação - que enviasses cá de novo o teu Filho ou outro mensageiro para que, enfim, todos acreditássemos e nos salvássemos, alcançando o prometido Céu, para contigo e com os anjos - que também não entendemos! - passar toda uma bem-aventurada eternidade! É que nós procuramos ser virtuosos. Nós sofremos o bastante aqui na Terra para merecermos tal Céu. Então, vá, não percas mais tempo: envia cá de novo um mensageiro credível e convincente!"
Bem, a verdade é que continuamos acorrentados na total incerteza do Além e no desejo atroz de o querer desvendar! Vamos ver se Jesus Cristo que foi, desde que o Homem é Homem, o único que parece ter tido algumas palavras de vida eterna, nos dá mais que meias-respostas, mais que uma Verdade obnubilada em mistérios, mais que parábolas que, em vez de nos esclarecerem, só nos deixam mais confundidos!…

(1)  - NOTA: As introduções, citações e notas referidas ao longo do livro, são as da versão da Bíblia, da Sociedade Bíblica Católica Internacional, PAULUS 1993 e/ou do Novo Testamento e Salmos, da Sociedade Bíblica de Portugal, 1994