quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A (in)verdade de Fátima (12 - Final)

    Para além das aparições, primeiro do anjo, depois da Virgem – estas, sem dúvida, as mais importantes – rezam as Memórias de Lúcia que Jacinta, antes de morrer, teve uma visão do Santo Padre, outra da Guerra e outra de Nossa Senhora. Ela, Lúcia, teve uma aparição da Virgem com o Menino Deus, o Menino Jesus sozinho e a Santíssima Trindade. Francisco, coitado, mais uma vez, foi colocado fora de cena... Pela sua excentricidade, a visão de Lúcia da Santíssima Trindade merece honras de narrativa nas palavras da própria vidente: “De repente, iluminou-se toda a Capela com uma luz sobrenatural e sobre o Altar apareceu uma Cruz de luz que chegava até ao tecto. Em uma luz mais clara, via-se, na parte superior da cruz, uma face de homem com corpo até à cinta, sobre o peito uma pomba também de luz e, pregado na cruz, o corpo de outro homem. Um pouco abaixo da cinta, suspenso no ar, via-se um cálix e uma hóstia grande, sobre a qual caíam algumas gotas de sangue que corriam pelas faces do Crucificado e duma ferida do peito. Escorregando pela Hóstia, essas gotas caíam dentro do Cálix. Sob o braço direito da cruz, estava Nossa Senhora (era Nossa Senhora de Fátima com o Seu Imaculado Coração na mão esquerda, sem espada nem rosas, mas com uma Coroa de espinhos e chamas). Sob o braço esquerdo, umas letras grandes, como se fossem de água cristalina que corresse para cima do Altar, formavam estas palavras: «Graça e Misericórdia». Compreendi que me era mostrado o mistério da Santíssima Trindade e recebi luzes sobre este mistério que não me é permitido revelar.”
    Ignoramos o que dizem os teólogos católicos sobre descrição tão grotesca do referido mistério; mas tem de se admitir que a Igreja, ao caucionar tudo o que envolve a irmã Lúcia, aceita também como válida a grotesca narrativa. Constatamos, de novo, que esta Lúcia era mesmo “dada a visões”! E que o “seu divino” gostava de brincar com ela, nas diferentes formas que a Igreja teve – e ainda tem, ao aceitar toda esta aberrante narrativa – na sua enorme capacidade para inventar e afirmar, depois, como certas e de obrigatoriedade de fé, coisas vindas do Céu...
    Em comentário final, sorrindo-nos, evidentemente, poderíamos exclamar: “Não há dúvida: o divino gostava mesmo daquelas crianças!...” (Entenda-se como se quiser um tal gostar.) Mas lamentamos profundamente, não, obviamente, todo o turismo que se faz à volta e à custa de Fátima (sempre são milhões que, apesar de vindos dos mais pobres que são os crentes – os ricos não têm tempo para essas “coisas”! – ajudam a débil economia do país), mas o aproveitamento ignóbil e perverso que a Igreja fez e faz do fenómeno, Roma inteira totalmente comprometida, com o papa à cabeça, este tendo vindo ao Santuário já várias vezes, recentemente beatificando os três pastorinhos, caucionando todo o ridículo que se passa à volta da capelinha das aparições, com milhares de velas ardendo em local apropriado ao “caçar de dinheiro” ali colocadas pelas pessoas humildes e crentes que, indo em peregrinação a pé pelas estradas do país, lá chegando, rastejam ainda no lajedo até ao sangue, para cumprir promessas feitas em momentos de grande aflição! Certamente, dirão, lavando as mãos – como lavam as mãos as autoridades policiais perante o crime da excisão do clítoris nas meninas nascidas em Portugal de pais guineenses, pela sua estúpida, desumana e cruel tradição... – que na fé de cada um ninguém se deve intrometer. Deixá-los, pois, rastejar à vontade!...
    No entanto – sejamos intelectualmente honestos! – embora todo o fenómeno de Fátima tenha sido ou seja uma farsa, que mal faz às pessoas acreditarem naquele “divino”? Não vão, alegres, para o Santuário, não vêm de lá mais reconfortadas, mais libertas, mais felizes, com a consciência aliviada das promessas feitas, promessas em que tantas graças foram concedidas pela Virgem Senhora, alegria manifestada naquele sentido Adeus, lenços brancos acenando, na última procissão com que encerra a Missa celebrada com toda a solenidade e presidida por representante papal? – Obviamente, parece só haver vantagens para os crentes! Por isso, embora perverso, teremos de concluir que a religião tem mais vantagens do que desvantagens, bradando, sorrindo, a propósito de Fátima ou de outros santuários espalhados pelo mundo, onde dizem que a Virgem apareceu: “Viva a mentira religiosa!”
    É uma forma tosca de acabar estes doze textos, não há dúvida. Mas a elegância do pensamento nem sempre é condizente com o assunto tratado... E que cada um continue a acreditar no que lhe der mais jeito para ter uma vida o mais feliz possível. Não é ser feliz o que importa, neste dom sem dúvida divino que é a VIDA, dom único e irrepetível? (Fim)

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A (in)verdade de Fátima (11)

    Agradecemos a narrativa dos “acontecimentos” ao Reverendo Cónego Sebastião Martins dos Reis. Nesta última aparição, os fenómenos atmosféricos de origem aparentemente divina continuam. A Virgem aparece no meio deles. Diz ser a Senhora do Rosário. Pede que façam ali uma capela. Que rezem o terço. Que Deus Nosso Senhor está muito ofendido. Que curará alguns doentes. Prevê o fim da guerra. E, enquanto por ali “anda” a Virgem, sempre portadora de mensagens deprimentes, seguem-se os três quadros celestiais presenciados por Lúcia, referenciando certamente as imagens existentes na Igreja local frequentada pela devota família dos “videntes”. Não menos deprimentes que o anterior cenário! Depois, já partindo a Virgem para o Firmamento, o Milagre do Sol, misturando-se, em glória, milagrosas mudanças atmosféricas! Aqui, a narrativa do Reverendo – ou de Lúcia? – torna-se empolgante, magnífica, por momentos aterradora, mas... divina, como divino era o cenário em que tudo decorria. E... fim da “divina comédia”! – desabafariam os cépticos. Claro que os crentes não duvidarão um cêntimo de que tudo foi ou fora de origem celestial! Os outros, os que pensando que o divino, para ser credível, tem de ser inteligente, não acreditam em tanta fantasia mais ou menos espectacular que de inteligente nada tem. Um divino que quisesse enviar uma mensagem à humanidade, escolheria de certeza formas mais convincentes e racionais do que pôr um sol a rodar e a aquecer as pessoas presentes... Aliás, o Sol rodar? Lembram-se de quando Josué pediu a Javé para parar o Sol e poder terminar a batalha, exterminando o inimigo? Ora este “nosso” Sol rodou tanto como o de Josué parou: não mais que imaginação pura, alucinação colectiva ou pura fantasia literária! Obviamente que o Sol não se move do seu lugar por qualquer capricho divino ou... fantasia humana! Se tal fosse possível, seria a ridicularização completa de algum divino que porventura existisse lá no “Alto”!
    No entanto, nem sequer pesquisando dados para aquilatar da veracidade do acontecimento de tais fenómenos, certamente referenciados em grandes parangonas pela imprensa da época, temos de repetir o que importa: Fátima torna-se desacreditável de dentro para fora e não de fora para dentro, isto é, não pelos fenómenos atmosféricos aduzidos como milagre para comprovar a vinda do divino – Maria Virgem, outras figuras da Virgem, S. José e o Menino, o próprio Jesus Cristo, já não falando no anjo do princípio das aparições – mas pela crueldade, insensatez e irracionalidade da mensagem transmitida a umas pobres e incultas crianças, facilmente manipuláveis, havendo ainda a lamentar o facto de uma poder ver tudo – certamente a mais dada a visões! – e as outras, apenas uma parte.
    Fim da “divina comédia”? – Não! Houve ainda outras aparições-visões, todas datadas, que contemplaram as crianças, não as três, mas apenas Jacinta e Lúcia. O Francisco não foi tão afortunado...
    Para não nos alongarmos, delas falaremos no próximo e último texto.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A (in)verdade de Fátima (10)

    6ª e última aparição – 13 de Outubro. Ainda, a narrativa do Reverendo Cónego: «Devido ao facto de os pastorinhos terem revelado que a Virgem Maria iria fazer um milagre neste dia para que todos acreditassem, estavam presentes na Cova da Iria cerca de 50 mil pessoas, segundo os relatos da época. Chovia com abundância e a multidão aguardava as três crianças nos terrenos enlameados da serra. Lúcia assim descreve estes acontecimentos na Memória IV: “Saímos de casa bastante cedo, contando com as demoras do caminho. O povo era em massa. A chuva, torrencial. Minha mãe, temendo que fosse aquele o último dia da minha vida, com o coração retalhado pela incerteza do que iria acontecer, quis acompanhar-me. Pelo caminho, as cenas do mês passado, mais numerosas e comovedoras. Nem a lamaceira dos caminhos impedia essa gente de se ajoelhar na atitude mais humilde e suplicante. Chegados à Cova de Iria, junto da carrasqueira, levada por um movimento interior, pedi ao povo que fechasse os guarda-chuvas para rezarmos o terço. Pouco depois, vimos o reflexo da luz e, em seguida, Nossa Senhora sobre a carrasqueira. Lúcia: - Que é que Vossemecê me quer? Nossa Senhora: - Quero dizer-te que façam aqui uma capela em Minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem sempre a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas. - Eu tinha muitas coisas para Lhe pedir: se curava uns doentes e se convertia uns pecadores, etc. - Uns, sim; outros, não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados. E tomando um aspecto mais triste: – Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido. E abrindo as mãos, fê-las reflectir no Sol. E, enquanto que se elevava, continuava o reflexo da Sua própria luz a projectar-se no Sol.” Neste momento, Lúcia diz para a multidão olhar para o Sol, levada por um movimento interior que a isso a impeliu, e narra: “Desaparecida Nossa Senhora, na imensa distância do firmamento, vimos, ao lado do sol, S. José com o Menino e Nossa Senhora vestida de branco, com um manto azul. Era a Sagrada Família. S. José com o Menino pareciam abençoar o Mundo com uns gestos que faziam com a mão em forma de cruz. Pouco depois, desvanecida esta aparição, vi Nosso Senhor acabrunhado de dor a caminho do Calvário e Nossa Senhora que me dava a ideia de ser Nossa Senhora das Dores. Lúcia via apenas a parte superior do corpo de Nosso Senhor e Nossa Senhora não tinha a espada no peito. Nosso Senhor parecia abençoar o Mundo da mesma forma que S. José. Desvaneceu-se esta aparição e pareceu-me ver ainda Nossa Senhora, em forma semelhante a Nossa Senhora do Carmo com o Menino Jesus ao colo.” Enquanto os três pastorinhos eram agraciados com estas visões (apenas Lúcia viu os três quadros, Jacinta e Francisco viram somente o primeiro), a maior parte da multidão presente observou o chamado Milagre do Sol. A chuva que caía cessou, as nuvens entreabriram-se deixando ver o Sol, assemelhando-se a um disco de prata fosca, podia fitar-se sem dificuldade, sem cegar. A imensa bola começou a girar vertiginosamente sobre si mesma como uma roda de fogo. Depois, os seus bordos tornaram-se escarlates e deslizou no céu, como um redemoinho, espargindo chamas vermelhas de fogo. Essa luz reflectia-se no solo, nas árvores, nas próprias faces das pessoas e nas roupas, tomando tonalidades brilhantes e diferentes cores. Animado três vezes por um movimento louco, o globo de fogo pareceu tremer, sacudir-se e precipitar-se em ziguezague sobre a multidão aterrorizada. Tudo durou uns dez minutos. Finalmente, o sol voltou em ziguezague para o seu lugar e ficou novamente tranquilo e brilhante. Muitas pessoas notaram que as suas roupas, ensopadas pela chuva, tinham secado subitamente. Tal fenómeno foi testemunhado por milhares de pessoas, até mesmo por outras que estavam a quilómetros do lugar das aparições. O relato foi publicado na imprensa por diversos jornalistas que ali se deslocaram e que foram também eles, testemunhas do milagre. O ciclo das aparições em Fátima tinha terminado.” Devido ao alongado da narrativa, reservamos os comentários para o próximo texto. (Cont.)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A (in)verdade de Fátima (9)

    A quinta aparição – 13 de Setembro. Continuamos, citando: «Como das outras vezes, vários fenómenos atmosféricos foram observados pelos circunstantes, cujo número foi calculado entre 15 e 20 000 pessoas: o súbito refrescar da atmosfera, o empalidecer do Sol até ao ponto de se verem as estrelas, uma espécie de chuva como que de pétalas irisadas ou flocos de neve que desapareciam antes de pousarem na terra. Em particular, foi notado, desta vez, um globo luminoso que se movia lenta e majestosamente pelo céu, do nascente para o poente e, no fim da aparição, em sentido contrário. Os videntes notaram, como de costume, o reflexo de uma luz e, a seguir, Nossa Senhora sobre a azinheira.
Nossa Senhora: - Continuem a rezar o terço para alcançarem o fim da guerra. Em Outubro, virá também Nosso Senhor, Nossa Senhora das Dores e do Carmo, São José com o Menino Jesus, para abençoarem o Mundo. Deus está contente com os vossos sacrifícios, mas não quer que durmais com a corda. Trazei-a só durante o dia (as crianças tinham passado a usar como cilicio uma corda grossa que não tiravam sequer para dormir; isso impedia-lhes muitas vezes o sono e passavam noites inteiras em branco, daí o elogio e a recomendação de Nossa Senhora). Lúcia: - Têm-me pedido para Lhe pedir muitas coisas, a cura de alguns doentes, de um surdo-mudo. - Sim, alguns curarei. Outros não. Em Outubro farei o milagre para que todos acreditem. E, começando a elevar-Se, desapareceu como de costume.»
Desta vez, há mais fenómenos atmosféricos a acompanhar o evento. Ilariantes, claro! Sobretudo, aquele globo luminoso que se movia lenta e majestosamente pelo céu deveria ter sido digno de se ver... E, então, aquela chuva de pétalas, caindo como flocos de neve!... Já não falando nas estrelas “vistas”, ao meio-dia!... E cerca de 20 000 pessoas admiraram tão estranhos fenómenos! Alucinação colectiva ou imaginação prodigiosa do narrador, citando Lúcia? Mas, fantástico, sem dúvida! Estranha é aquela promessa da Virgem de, em Outubro, virem também com Ela, Nosso Senhor (Qual? O Deus-Pai, o Deus-Filho ou o Deus-Espírito Santo?), Nossa Senhora das Dores e do Carmo (Então, a mesma Virgem desdobrava-se em mais duas: a das Dores e a do Carmo?), São José com o Menino Jesus (Ambos vivos, sorrindo, ou apenas em imagem de igreja? Se aquele Nosso Senhor, tudo leva a crer que seja Jesus Cristo, ali tínhamos mais uma duplicação: Jesus Cristo, Filho de Deus, já sentado à direita do Pai, e Jesus Menino ainda pequenino nos braços de São José...). E todos a abençoarem o mundo!... É! Muito interessante e piedoso, mas tremendamente caricato e, por isso, descredibilizando-se completamente: um relato de pura fantasia religiosa! Enfim, aquela de “Deus está contente com os vossos sacrifícios”, usando as pobres crianças cilícios, é completamente arrasadora, pela crueldade, levando ao descrédito não só do suposto fenómeno, mas também de qualquer ser divino inteligente que a pudesse conceber e a quisesse impor numa sua visita do Céu à Terra! A ter sido verdade toda esta fantasia de Fátima, seria caso para perguntar com o poeta: “Que quem já é pecador, sofra tormentos, enfim. Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim?” (Augusto Gil – “Balada da neve”) (Cont.)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A (in)verdade de Fátima (8)

    Depois de comentarmos a “importante” terceira “aparição”, sigamos novamente a emocionante narrativa do Reverendo Cónego: «No dia 13 de Agosto, quando deveria dar-se a quarta aparição, os videntes não puderam ir à Cova da Iria, pois foram raptados pelo administrador de Ourém, que à força quis arrancar-lhes o segredo. No entanto, as crianças permaneceram inabaláveis e nada revelaram. Nesse dia, juntou-se uma grande multidão que aguardava pela aparição. Por volta do meio-dia, ouviu-se um trovão, ao qual se seguiu o relâmpago, tendo os espectadores notado uma pequena nuvem branca que pairou alguns minutos sobre a azinheira. Observaram-se também fenómenos de coloração, de diversas cores, nos rostos das pessoas, das roupas, das árvores e do chão. No dia 19 de Agosto de 1917, Lúcia estava com Francisco e seu irmão João no lugar dos Valinhos, uma propriedade de um dos seus tios e que dista uns 500 metros de Aljustrel. Pelas 4 horas da tarde, começaram a produzir-se as alterações atmosféricas que precederam as aparições anteriores, uma súbita diminuição da temperatura e um esmorecimento do Sol. Lúcia, sentindo que alguma coisa de sobrenatural se aproximava e os envolvia, pediu ao primo João para chamar rapidamente a Jacinta, a qual chegou a tempo de ver Nossa Senhora que - anunciada, como das outras vezes, por um reflexo de luz - apareceu sobre uma azinheira, um pouco maior que a da Cova da Iria.
Lúcia: - Que é que Vossemecê me quer? Nossa Senhora: - Quero que continueis a ir à Cova da Iria, no dia 13, que continueis a rezar o terço todos os dias. No último mês farei o milagre para que todos acreditem. - Que é que Vossemecê quer que se faça ao dinheiro que o povo deixa na Cova da Iria? - Façam dois andores, um leva-o tu com a Jacinta e mais duas meninas; o outro que o leve o Francisco com mais três meninos. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário e o que sobrar é para a ajuda de uma capela que hão-de mandar fazer. - Queria pedir-lhe a cura de alguns doentes. - Sim, alguns curarei durante o ano. E tomando um aspecto mais triste, recomendou-lhes novamente a prática da mortificação: - Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o Inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas. E, como de costume, começou a elevar-Se em direcção ao nascente. Os videntes cortaram ramos da árvore sobre a qual Nossa Senhora lhes tinha aparecido e levaram-nos para casa. Os ramos exalavam um perfume singularmente suave.»
    Há vários pormenores de não somenos importância para dar credibilidade ao fenómeno, nesta quarta aparição: acontece a 19 e não a 13; há o irmão de Lúcia, João, cuja idade desconhecemos, e que vai chamar Jacinta que ainda chega a tempo de ver Nossa Senhora; o local não é a Cova da Iria, mas os Valinhos. Qual o papel de João, como não-vidente? Porque mudou de sítio e de hora a Virgem para a sua aparição? Porque não libertou, por milagre divino, as crianças raptadas pelo Administrador de Ourém, no dia 13? (Aliás, o administrador raptar as crianças por não quererem revelar-lhe o segredo não deixa de ser caricatamente policial...) Mas, talvez sejam perguntas cujas respostas até nem tenham interesse. O mais cruel e totalmente anti-divino é que a Virgem insiste no sofrimento redentor, na oração, nas penas do Inferno, nas almas dos pobres pecadores que se condenam para a eternidade, por não haver quem reze e se sacrifique por eles... E patético é o destino que a Virgem decide dar ao dinheiro ofertado pelos já devotos, na Cova da Ira: dois andores! Ainda a capela, vá lá! Agora, os andores? Com todo o respeito que o assunto nos mereça, parece-nos absolutamente deprimente tal mesquinha ideia vinda do... Céu! Os vários fenómenos atmosféricos atribuídos a origem divina não merecem mais do que um sorriso... (Cont.)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A (in)verdade de Fátima (7)

Valeu a pena a transcrição integral da narrativa do Reverendo Cónego (textos 5 e 6) desta 3ª “aparição”, de todas, a mais significativa. Realmente, se dúvidas houvesse quanto à (in)verdade de Fátima, ficariam totalmente dissipadas com esta narrativa de Lúcia. Primeiro, após patéticas desculpas da Senhora para não fazer milagres de curas pedidas, vem novamente o apelo ao sacrifício e à oração para obter a paz e a conversão dos pecadores... (Aliás, aqui, diríamos o que já dissemos, demonstrando, sobre todos os supostos milagres narrados na História, pela Bíblia, Evangelhos e outros escritos: todos símbolos ou farsas; nenhum, de narrativa credível!) Depois, os famosos segredos que, como era de esperar, fizeram correr muita tinta! Ora, voltaríamos a perguntar se o divino precisa de andar com segredos, mais ou menos falaciosos, por confusos, em vez de ser claro e compreensível para todos os Homens a quem, obviamente, se destina a mensagem de conversão da humanidade na fraternidade universal apregoada por Jesus Cristo, tendo na mira um Céu ou um Inferno que seja, na tão desejada vida eterna... E quão fantasmagórica é aquela descrição do Inferno e as almas e os diabos nele! Quão fantasmagórica! Mas nada que não tenha sido já escalpelizado ao longo dos tempos, desde os clássicos greco-latinos à fantasiosa e imaginativa Idade Média, com o seu expoente máximo em Dante (séc.s XIII-XIV) na sua Divina Comédia, a Miguel Ângelo (séc.s XV-XVI), a Salvador Dalí (séc. XX). No entanto, não se percebe que valor de mensagem tem aquele tríplice segredo. Objectivamente, parece inócuo. Depois, segredo “O Imaculado Coração de Maria”? Então, a Imaculada Conceição de Maria – donde o seu Imaculado Coração! – não havia já sido decretado, para a Igreja, em 8 de Dezembro de 1854 por Pio IX? Para quê mais uma confirmação e... em segredo? Quanto ao Inferno, a ter existido aquela visão aterradora para as crianças, apenas retratou o que no imaginário popular é, de há séculos, se não milénios, conhecido; sobretudo, o Sr. Diabo, vestido de vermelho, rosto de bêbedo escarninho, cauda de macaco, chifres de touro, mãos de longas unhas empunhando o ameaçador tridente que espeta nos corpos gloriosos das almas dos condenados, com gargalhadas de gozo... Enfim, o suposto atentado ao Papa: não se vê onde possa estar o interesse de tal suposto “segredo”! Por outro lado, as visões apocalípticas de Lúcia e de Jacinta – estando incompreensivelmente delas afastado Francisco que era dois anos mais velho que a irmã – nelas integrando-se as palavras, primeiro, do Anjo, depois, da Virgem, emergem como o corolário do medo e do terror com que a religião parece gostar de afundar-se, para melhor convencer e angariar crentes que, de modo racional, nunca seriam levados a acreditar em tais fantasias e alucinações...
Embora muito mais críticos pudéssemos ser em relação àquela fantástica narrativa (o ribombar do trovão para indicar o fim da aparição é de, pelo menos, fazer sorrir...), apenas um último comentário ao conteúdo final: “Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração.” A pergunta é quase irreverente, mas tem de ser feita: “Era a Virgem que queria estabelecer no mundo a devoção ao seu Imaculado Coração ou era a Igreja – neste, caso, os bispos de Portugal – que, não tendo o dogma da Imaculada Conceição tido os efeitos desejados, pretendia que tal culto fosse instituído e implementado?” Tanta imaginação doentia de medos ancestrais ali retratados é uma suma prova da inconsistência da verdade de Fátima: o divino não pode – exactamente por ser divino! – andar a “brincar” com a consciência das pessoas. É que somos racionais, caramba! Temos toda uma razão para aquilatar do que nos dizem e nos confessam!... Mas ficamo-nos por aqui no muito de acérrima crítica que todo aquele aparato de infernos, diabo e de segredos neles merecia... (Cont.)

domingo, 3 de julho de 2011

A (in)verdade de Fátima (6)

(Continuação da narrativa de Lúcia, após a “descida” aos infernos...)
«Lúcia: “Em seguida, levantamos os olhos para Nossa Senhora que nos disse com bondade e tristeza: - Vistes o Inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, (segunda parte do segredo - O Imaculado Coração de Maria) Deus quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI, começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida (os astrónomos registaram uma aurora boreal que iluminou os céus da Europa na noite de 25 para 26 de Janeiro de 1938), sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem aos meus pedidos, a Rússia converter-se-á e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer e várias nações serão aniquiladas. Por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz. Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé. Então vimos (terceira parte do segredo - O atentado ao Papa) ao lado esquerdo de Nossa Senhora, um pouco mais alto, um Anjo com uma espada de fogo na mão esquerda; ao cintilar, soltava chamas que pareciam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro. O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte dizia: Penitência, Penitência, Penitência! E vimos numa luz imensa que é Deus: - algo semelhante a como se vêem as pessoas num espelho quando lhe passam por diante - e um bispo vestido de branco - tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre. Vários outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subiam uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fora de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meio em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz, foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo, uns atrás dos outros, os Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas e várias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de várias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz, estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal na mão; neles recolhiam o sangue dos Mártires e com ele regavam as almas que se aproximavam de Deus. Terminada esta visão, disse Nossa Senhora: - Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco sim, podeis dizê-lo. Quando rezardes o terço, dizei depois de cada mistério: ‘Ó meu Jesus! Perdoai-nos e livrai-nos do fogo do Inferno, levai as almas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem.’ - Vossemecê não me quer mais nada? - Não. Hoje não te quero mais nada. E como de costume, começou a elevar-Se em direcção ao nascente, até desaparecer na imensa distância do firmamento.” Ouviu-se então um trovão, indicando que a aparição cessara.»
Assim, se completa a narrativa dos acontecimentos desta 3ª aparição. Remetemos todos os comentários para o próximo texto. Então, até lá! (Cont.)