domingo, 23 de junho de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (31/?)


  
 
Mas houve uma noite em que o sonho comandou a vida... Invernia feroz! Chovia a cântaros e o vento rugia lá fora em tempestade. Eu e os meus fugíramos a tempo do mar, onde tínhamos ido pescar para termos de que comer, já que o “pão nosso de cada dia nos dai hoje” pedido ao Pai só funciona, di-lo a experiência, se a gente o procurar ganhar ou alguém fizer o favor de no-lo dar, no velho ditado de “Deus ajuda a quem se ajuda.” De outro modo, ter-nos-íamos afundado no meio das ondas que entretanto se formaram alterosas com os ventos: a Natureza “lembrara-se” nitidamente de varrer aquela terra de poeiras e securas, de forma violenta, cansada de chuvas amenas de outras eras. É que já não chovia havia muito e todos clamavam a Deus por um milagre. Então, todos levantavam as mãos para o Céu, aproveitando eu para proclamar com a certeza dos demiurgos: “Pedi e recebereis, batei e abrir-se-vos-á!”. Mas o Pai tardava em atender o pedido dos Seus filhos ou... do Seu Filho dilecto que eu era. Até que... ali estava a chuva ou o milagre dela! Chuva à farta, chuva em abundância, chuva que não só regava mas arrasava e inundava bens e vidas. Os campos iriam ficar a abarrotar de água, os rios transbordando. Assim, juntamente com a alegria da chuva facilmente se lia no rosto das pessoas o medo das enxurradas que tudo arrastam e tudo arrasam parecendo não ser preciso ter fé para ver montanhas, pequenas, claro, a serem transformadas em colinas ou aplanadas como se movidas por forças invisíveis. No entanto, passada a tempestade, como sempre acontece, veio a bonança e, com ela, o comentário de milagre: as minhas preces e as dos meus tinham sido atendidas por Deus-Pai que pontificava nos Céus, governando lá do alto a ingrata Terra enquanto não decidisse definitivamente descer até ela e nela implantar o seu Reino, o que certamente só aconteceria após os Homens terem rezado muitas e muitas vezes aquela oração que eu já ensinara e que dava pelo nome de “Pai nosso que estais no Céu, venha a nós o vosso Reino!” Alguns menos devotos, e com menos temor do Inferno, bem que diziam que Deus tinha exagerado no milagre e que já que acedera a tantas preces vindas de toda a humanidade conhecida, tendo à frente o seu filho dilecto, bem poderia ter mandado a chuva mais amena embora grada para não estragar campos já plantados e searas pois, agora, era necessário começar tudo de novo, o que representava uma trabalheira e uma perca dos diabos. Mas, sentindo-se impotentes perante o “divino”, lá se iam conformando dizendo com os mais devotos: “Insondáveis são os desígnios de Senhor, o Deus do Céu e da Terra...”. Da borrasca no Mar da Galileia a que a tempo escapámos, iria Mateus mais tarde inventar um milagre. Mais um para me divinizar...
    Essa foi uma das noites que decidi passar em casa de Maria Madalena, mesmo sem ter sido expressamente convidado, pois para tanto não houvera tempo, já porque se aproximava a tempestade, já porque Madalena tinha tarefas a cumprir, outras que não só a de me acompanhar. Mas eu bem sabia que a casa estaria à disposição e que bastaria bater para que fosse recebido de braços abertos, com a maior das alegrias, o mais rasgado dos sorrisos, cumprindo-se ali, sem ter de apelar à fé, o simpático e humano “Batei e abrir-se-vos-á!”. A noite caiu medonha. Relâmpagos rasgavam as trevas, trovões soavam ecoando pelas montanhas e devolvendo o lúgubre som. E, enquanto eu dormia o sono dos justos, já me tendo encomendado ao Criador, Madalena – contou-me ela mais tarde – continuava a não conseguir adormecer, deliciando-se, de olhos fechados ou semi-cerrados, com o bater compassado da chuva no tecto da casa de telha vã e nas vidraças, bater que se avolumava ou retraía conforme as rajadas de vento eram mais ou menos violentas. E aconchegava-se nos cobertores tentando aquecer-se a si mesma já que, dormindo só, não tinha ninguém que se lhe unisse ao corpo para juntos partilharem calores e afectos. Foi então que, carente, esquecendo-se do Reino dos Céus e dos temores do Inferno, desejou ter-me ali a seu lado, deliciando-se na doçura do pecado que seria se em tal tentação eu caísse, soltando-me do meu quarto e vindo até ao seu ou, desnudando-se ela de vergonhas e preconceitos de que a mulher tem de ficar à espera da iniciativa do outro, aparecesse ao de leve, pé ante pé, para não me acordar, mergulhasse no meu leito preparado com todo o cuidado pela sua fiel serva, me desse suave beijo e distendesse o corpo junto ao meu para apenas – não mais que isso! – partilhar os tão desejados afectos e calores. Nada mais. A não ser que eu quisesse, que me deixasse tentar, soçobrasse ao desejo mais natural em todo o homem que não renuncia, castrando-se, ao apelo soberano da Natureza: “Sede fecundos e multiplicai-vos!” No entanto, a perspectiva de um “Não!” tirou-lhe a coragem de avançar à descoberta de emoções cujas consequências não poderia prever. Talvez eu, zangado, nunca mais quisesse voltar a sua casa e isso seria para ela uma perda irreparável, risco que de modo algum poderia correr. Por isso, decidiu esperar por um “milagre”, sonhar que estava mesmo nos meus braços, não lhe importando sequer se eu soçobraria ou não ao natural desejo. Mas, já avançada a noite, vencida pelo cansaço de um árduo dia de trabalho, adormeceu ao som monótono e embalador da chuva que tocava suaves melodias na telha vã e nas vidraças...

domingo, 16 de junho de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (30/?)

 

    Com Maria Madalena, a cena repetia-se: o beijo de boas-vindas, o lava-pés e mãos, a refeição a dois, a conversa sobre o Reino, o dormir o sono dos justos... Por vezes, antes de me recolher aos aposentos, reclinava a cabeça no regaço dela, quase que adormecendo quando ela me alisava os cabelos ora secos da poeira dos caminhos, se eram tempos de Verão, ora humedecidos pela chuva que caíra e os ensopara até à raiz, várias vezes secando, várias vezes se molhando, conforme a pregação fosse em sinagogas ou átrios cobertos ou a céu aberto, tendo como tecto o azul do trono de Deus que, “de certeza”, estava lá em cima com os Seus anjos, olhando a Sua criação e nela o Homem, sem quaisquer peias de paredes ou carne que O impedissem de ver até no mais profundo dos corações. Não elevava eu as mãos ao Céu para dar graças ao Pai quando tinha sucesso em algum milagre ou orava pelo mundo que não me queria ouvir nem parecia disposto a aceitar a minha mensagem?
    E, já se alongando a noite, recolhia-se ela, adormecendo e sonhando certamente comigo que ali estava paredes-meias, bastando-lhe um abrir e fechar de porta para ficar ao pé de mim, comigo todo inteiro, alma e corpo, lado a lado, partilhando o mesmo leito, mas também a mesma utopia do Reino de Deus... Eu..., eu dormia o sono dos justos, não pensando em Maria Madalena senão como boa mulher que me ajudava caridosamente, não alimentando voluptuosos  desejos de a possuir na beleza do corpo, apesar de tanta intimidade...

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (29/?)

A vida adulta
    Maria Madalena estava embevecida, quase não se contendo de alegria. Tinha pela primeira vez em sua casa, aquele a quem já muitos, a começar pelos discípulos, chamavam de Mestre. Mas um homem também. De perfeita estatura semita: cabelo encaracolado e curto, olhos negros profundos, ombros largos de macho bem constituído. E em breve iria dormir e... sonhar. Como seriam os sonhos dela? Sonharia com o Reino de Deus que eu lhe acabava de anunciar ou... com uns braços fortes que gostaria de ver ao redor do seu corpo de mulher perfeita, receptiva?
    Lá fora, pela janela, descortinava-se majestosa a lua, deslizando em correria por entre as nuvens, sendo estas embora que corriam impelidas pelo vento. Uma redonda bola de luz, alimentando sonhos, tornando mais belo o céu da Terra, o Céu de Deus... Um cenário convidando ao romance, apelando ao sonho. E a noite adormeceu connosco...
    De manhã, Madalena apareceu com um bom-dia de sorrisos, comprometidos os dela que não os meus. Mas tudo com naturalidade. Como se nada de estranho tivesse acontecido. Eu, manifestando pressa, ansiedade, dizendo que os discípulos já me estariam esperando junto ao lago para lançarem as redes ao mar de multidão que em breve acorreria, muita gente sedenta de Boas Novas e de milagres, tomei o frugal pequeno almoço, agradeci e saí.
    Muitas outras vezes, viria, durante a minha vida pública, pernoitar em casa de Maria Madalena. E se, ao princípio, os discípulos não viam com bons olhos tal facto, pois não era de santa a probidade de Maria, tiveram depois de o aceitar, por rotineiro, dizendo eu, repetidas vezes, que vinha não para salvar os justos mas os pecadores. Aquele que pensasse ser Madalena uma pecadora e se considerasse isento de culpa, não vendo a trave no seu olho, mas o argueiro no olho do próximo, que atirasse a primeira pedra... Tal sentença silenciou para sempre toda e qualquer boca maldosa!
    Ah, como era acolhedora aquela casa, sobretudo nas noites de invernia em que chegava molhado e com frio até aos ossos! Que bom aquele calor que irradiava de tão simpática companhia! Sendo casa pequena, não podia albergar os discípulos. Estes ou dormiam nas suas quando andávamos por perto, ou se socorriam de benfeitores que generosamente se ofereciam, por toda a parte, para lhes dar guarida. “Posso ir hoje dormir a tua casa?” E a resposta nunca era de negar acolhimento a quem se preparava para comigo participar no Reino de Deus, Reino que estaria prestes a descer do Céu à Terra, fosse o que fosse que tal Reino significasse.
PS:
Ainda sobre os milagres
É fantástico o que se afirma – ou o que a Igreja afirma/admite – como milagre. Normalmente, é atribuído ao santo ou à santa (ou à Virgem? ou a JC? ou ao santo ou à santa por intermédio de uma ou de outro?) o milagre de uma cura não explicável pela medicina convencional (nem sequer se considerando a existência e a possível explicação pelas medicinas – muitas! – ditas alternativas). E a Igreja, quando um fenómeno destes acontece, apressa-se a perguntar ao crente qual foi o santo da sua devoção que invocou para ficar curado ou – normalmente são mulheres! – curada e, assim, firmar a santidade daquele que, ouvindo as preces do seu devoto – ou sua devota – intercedeu junto de Deus para que fizesse o milagre. Ou então, qual foi o/a candidato/a a santo ou santa invocado/a. Tal está acontecendo com os pastorinhos de Fátima que, com um suposto milagre-cura, admitamos, não explicável pela medicina convencional, – ou ainda não explicado! – foram feitos beatos, o primeiro passo para, com um segundo milagre, passarem a santos! É: a igreja precisa de santos. Por isso, vai de inventar os milagres, fenómenos que, segundo ela – aliás, quem haveria de ser?! – são analisados com o maior rigor científico... E não é que os crentes acreditam nestas autênticas fraudes médicas que a Igreja lhes apresenta como Verdades de intervenção divina?
Mas, neste complot religioso de mentira, há tanto de irracional que espanta como crentes inteligentes não questionam tais aberrações, à luz da razão, que a Igreja lhes serve em pratos de... Fé. Vejamos: um “milagre” – supostamente, milagre, claro! – chega para tornar qualquer um, qualquer uma, santo ou santa? Então, porque cura só aquela pessoa e deixou outras por curar, outras que, certamente, invocaram a mesma personagem? Quantos não invocaram já os pastorinhos de Fátima, em situações de apuro, e não foram atendidos? Porquê? Onde, a justiça de Deus que a uns cura, por intercessão de tal santo ou tal santa, e a outros deixa doentes e a morrer, sem apelo nem agravo? Aquele “milagre” só teria alguma credibilidade se esta estatística – a dos fracassos divinos! – fosse feita e fossem analisadas as causas do mesmo fracasso... É: na flagrante injustiça divina, reside a impossibilidade de haver milagres deste tipo. Deste tipo e, certamente, de qualquer outro! E só não vê isto quem obstinadamente não quer ver. Aliás, já o próprio JC o disse aqui, narrando a saga da sua vida: os supostos milagres que lhe são atribuídos pelos evangelhos são impossíveis pelo que representariam de injustiça divina, ao curar uns e não curar os outros, ao ressuscitar uns – aquela do seu amigo Lázaro é exemplar! – e não os outros.
Mas, como é nos supostos milagres de JC que está assente toda a base da Fé cristã, não admiti-los nem alimentá-los, somando-lhes os milagres dos santos, seria desmoronar os alicerces da própria Igreja. E isto, para já, não é possível...
Portanto, os milagres que vêm narrados na Bíblia foram todos fantasiados pelos escritores que a escreveram: no AT, para darem credibilidade aos estrategas do povo judeu (Moisés e a sua vara que bate na rocha e faz nascer água ou que, lançada ao chão, se transforma em serpente, o maná do deserto, o Sol parando para que Josué ganhasse a batalha, etc.) ou aos seus profetas (Elias, por exemplo, que, depois de morto, ressuscita outro morto que, por acaso, é colocado na mesma sepultura onde estava aquele jazendo...); no NT, obviamente, para cristificar Jesus e torná-lo, com alguma credibilidade, Filho de Deus, ou Deus feito homem, não passando de uma mentira para justificar outra mentira; mais suavemente, uma fantasia para justificar outra fantasia...
E ainda: um ou dois supostos milagres são suficientes para darem o santo ou a santa como tal, isto é, como estando no Céu junto de Deus? Para haver alguma credibilidade seriam necessários muitos mais; é como na Ciência, o método experimental: para se afirmar, com rigor, alguma verdade, há que testá-la muitíssimas vezes. E, mesmo assim, a Ciência está sempre disponível para aceitar outra Verdade que, entretanto, for descoberta e vier destronar a primeira. É o caso, por exemplo, das dúvidas sobre o Big Bang. O método eclesiástico-religioso, já de si fraudulento, torna-se assim totalmente inacreditável. Só mesmo pela Fé, melhor dito, pelo engano a que são levados os crentes.
Resta a clássica pergunta, já que, sem milagres, nenhuma religião subsistiria: “Adiantaria ao Mundo, no seu estado de total selvajaria em que se encontra, devido à completa desregulação, a nível global, do sistema económico-financeiro que elegeu o dinheiro como prioridade e não o Homem, pondo este ao serviço daquele e não o contrário..., adiantaria ao Mundo actual que as religiões se desmoronassem, pela sua inveracidade, mentira ou fantasia?” Não sabemos responder; mas, já que as religiões não são capazes de tornar o mundo melhor, sendo, pelo contrário, muitas vezes elas focos de guerras e mortandades de toda a espécie, pondo irmãos contra irmãos e inventando inimigos inexistentes..., seria interessante ver como funcionaria um mundo sem religiões. Muito interessante mesmo!

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (28/?)


A vida adulta – VI
Em casa de Maria Madalena
    Depois que saíra do conforto da casa de Nicodemos, não tendo onde ficar, pernoitava na de discípulos ou de amigos. Sabendo isso, Maria Madalena, que já se insinuara em charme e donativos ao grupo que subsistia pela caridade de adeptos e simpatizantes, não desistia de me convidar para que viesse passar as noites na sua. Assim, quando lhe disseram que eu estava em Cafarnaum, cidade junto ao lago Tiberíades, encontrando-se ela ali perto, em Genesaré, foi ter comigo e disse-me, sussurrando, para não me criar embaraço:
    − É hoje que passarás a noite em minha casa?
    − Que tentadora, mulher! − disse-lhe eu sorrindo, cheio de bondade e simpatia. − Olho para dentro de mim, e o meu corpo, cansado, diz-me que não posso recusar! Aliás, o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça... Mas...
    − Então, vem, meu Jesus! Quando o dia se acabar, deixa os teus discípulos e vem! Eu estarei, pressurosa, à tua espera.
    E aquele dia, como todos os dias, chegou ao fim. E eu estava realmente cansado de palmilhar caminhos, ruelas, pregar nas sinagogas, nos becos, nas colinas, em qualquer lado onde houvesse gente que me quisesse ouvir. Pois bem: o cansaço do corpo levou-me a alma a não resistir ao apelativo e tentador convite.
    Cheguei. Entrei. Deu-me um beijo de boas-vindas. Tirou-me a capa. Levou-me aos lavabos para eu me libertar de pós e suores. Depois, lavados que foram rosto, pés e mãos, sentámo-nos à mesa. Apenas os dois. A fiel serva de Maria dispondo os manjares.
    Os olhos se cruzando, disfarçando algum constrangimento por estar a sós com uma bela mulher, continuei como que embalado pelas pregações com que arrebatara multidões durante o dia, e agora em exclusivo para a minha simpática hospedeira:
    − Se soubesses, Maria, o que é o Reino de Deus! Alegra-se-me o coração do bom que é estar aqui contigo. Mas quando vier o Reino, quem merecer entrar nele será feliz para sempre e não só durante alguns, curtos, fugazes momentos. Em verdade em verdade te digo que não passará esta geração sem que o Reino dos Céus desça à Terra e Deus governará sobre justos e injustos: os justos, fará deles a Sua glória; os injustos, pelo contrário, serão aniquilados para sempre.
    − Senhor, diz-me o que hei-de fazer para merecer entrar nesse Reino!
    − Tu já estás nele, pois quem me vê a mim, vê o Pai Celestial e quem Me recebe recebe o Pai que está nos Céus.
    − Então o Reino de Deus já está no meio de nós?!
    − Tu o disseste, Maria, tu o disseste! Mas agora comamos! Saboreemos estes dons do Pai dos Céus, esta comida boa que sábias mãos, certamente a teu mando, prepararam e que nos vai deliciar os sentidos.

domingo, 26 de maio de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (27/?)


    Mas estes seriam acontecimentos que viriam a ter lugar cerca de três anos mais tarde. Por agora, Nicodemos só colocava a João as suas dúvidas quanto à capacidade de eu lhe dar uma resposta convincentemente fundamentada da realidade morte, da realidade imortalidade, da realidade eternidade junto de Deus. Lembrou-lhe também o meu conselho de ler o Livro da Sabedoria já que lá encontraria algumas das ideias que eu iria explanar durante a minha pregação a começar muito em breve. E o diálogo entre ambos continuou:
    − De tal leitura a que conclusões chegaste, amigo Nicodemos? − perguntou João, curioso.
    − Pouco convincentes, João, pouco convincentes. Fala de imortalidade. Fala de um Reino celestial junto de Deus que será a recompensa para os justos. Fala de eternidade. Mas...
    − Mas ficaste sem qualquer certeza de que sejamos realmente imortais, que o Reino dos Céus exista mesmo, que tenhamos uma vida eterna. Espero bem que não tenhas hesitado quanto à existência do próprio Deus!
    − Não blasfemes, amigo sacerdote! Se não, terás de ir purificar-te ao Templo e oferecer uma pomba em sacrifício de expiação conforme ordena a nossa Lei!
    Brincava Nicodemos. O tema das leis mosaicas de há mais de mil anos, ainda aplicadas naqueles tempos, viria a ser ainda assunto de discussão a sós com João, mas não, obviamente, no Templo onde seria cilindrado pelos sacerdotes da velha guarda para quem as tradições religiosas eram ou seriam sempre o factor de união de todo o povo de Israel. Como quebrá-las ou aniquilá-las, preferindo-lhes a liberdade de pensamento helenista? Isso seria perder a identidade do povo judeu que viveu sempre subjugado por tal Lei, provinda “sem qualquer dúvida” da boca de Javé, o todo-poderoso, o único e verdadeiro Deus!
    João retomou:
    − E agora?
    − Agora, como não tenho tempo, ocupado que ando nos negócios de meu pai, vou enviar o meu inteligente servo Levi para acompanhar Jesus e todos os dias me trazer notícias das suas pregações.
    − Se ele for o que tu pensas, uma espécie de Messias, ainda teremos muito que conversar. Ou será que não passa de mais um embuste, um impostor, um agitador de massas, um paranóico anunciador do fim dos tempos, como João Baptista que, pregando os seus medos, arrasta multidões ao rio Jordão a implorarem um baptismo de água?
    − Espero bem que não. Mas veremos e... conversaremos.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (26/?)


A vida adulta - V
João, o sacerdote
    Nicodemos tinha como amigo um sacerdote do Templo, de nome João, também ele homem influente em Jerusalém. Confrontou-o com o meu aparecimento, um digno sucessor de João Baptista, contou-lhe o que tinha visto e ouvido e como me educara, enviando-me para o Oriente para aí aprender a deslindar o que seria a eternidade, a imortalidade, a vida do Além desconhecido. O que ele, Nicodemos, aprendera das civilizações fenícias, egípcias, persas, mesopotâmicas, gregas, romanas, nitidamente não o satisfazia por não darem suficiente resposta. E a angústia crescia-lhe dia a dia na alma e tinha outro rosto além do seu: o do velho pai que pressentira, embora não expressamente, tê-lo incumbido de encontrar uma resposta para tão magno e vital problema, já que a partida para o Reino dos mortos se lhe desenhava cada vez mais nítida no horizonte do tempo...
    Este João, o sacerdote, era proveniente de famílias abastadas, como aliás quase todos os sacerdotes que viviam a expensas do Templo e da sua riqueza, pois só a lei de todo o povo ofertar ao Senhor, isto é, ao Templo, melhor, aos que nele serviam, com os sacerdotes à cabeça, todas as primícias, além do dízimo, davam para enriquecer qualquer um que soubesse aproveitar a situação. E em todos os tempos e lugares houve sempre quem optasse por tal cómodo estilo de vida...
    João possuía em Jerusalém uma bela casa apalaçada, com um grande salão na parte superior, salão que viria a ofertar-me de bom grado, depois de se ter tornado meu seguidor e amigo, para aí celebrar aquela que veio a ser a minha última ceia. Última porque, nessa mesma noite, seria preso, entregue ao sumo sacerdote Caifás, em casa do qual estavam reunidos os sumos sacerdotes, anciãos e doutores da Lei, enfim, todo o Sinédrio, e, depois de sumariamente julgado, enviado ao procurador romano Pôncio Pilatos para me condenar à morte.
    Foi um banquete em que estiveram os doze apóstolos, João, o sacerdote anfitrião que ficou junto a mim, no centro da mesa, e teve o privilégio de reclinar a cabeça no meu peito, mais algumas mulheres que sempre me acompanharam, sendo a mais bela e pressurosa, a minha dilecta e preferida, Maria Madalena. Enquanto as mulheres serviam, nós, os homens, discutíamos animadamente sobre os motins que poderiam acontecer em Jerusalém pelas festas da Páscoa. Eu profetizava e continuava a vaticinar fins dos tempos muito próximos. Pelo que havia feito no Templo, seria certamente considerado um agitador pela classe sacerdotal, bem mais perigoso do que João Baptista que fora assassinado por muito menos. E era sabido que o núcleo duro da classe sacerdotal, com o sumo sacerdote à cabeça, ao tempo Caifás, não admitia interferências nos negócios do Templo. Também não valia a pena pedir a João, o sacerdote, que intercedesse por mim, pois não conseguiria sozinho opor-se com êxito ao sumo sacerdote. Por isso, não me era difícil prever que iria ter problemas. Quais, ao certo, não sabia, mas que poderiam ser graves ou muito graves, não tinha dúvidas. Para tal evento havia preparado os discípulos e agi como se realmente da última ceia se tratasse. Assim, parti o pão, distribuí o vinho, repeti os últimos ensinamentos, dando o exemplo de humildade, imitando aquela apaixonada mulher que me lavara os pés com lágrimas e os ungira com caríssimo perfume, ao pegar numa toalha e indo lavar os pés a todos os presentes, excepção feita às mulheres. Terminei dizendo que se me acontecesse alguma coisa, que não desanimassem, que eu estaria em espírito com eles até à consumação dos séculos, e que sempre que comessem juntos se lembrassem de mim; enfim, que se amassem uns aos outros como eu os havia amado.

PS:
Oportunamente...
E foi mais um 13 de Maio! As mesmas cerimónias de sempre! Muito aparato, muita ostentação! Muita estrangeirada! E... muita vela, fazendo correr, só em cera, dezenas de milhares de Euros para os cofres do Santuário, dos quais, fatia substancial irá parar ao Banco do Vaticano. Nada de distribuir pelos necessitados e famintos locais ou nacionais... E isto sem contar com as esmolas, algumas chorudas, das promessas feitas à Virgem e, agora, também aos beatos Jacinta e Francisco (Quando vai ser a Lúcia proclamada urbi et orbi “beata”? – Não deve tardar! É que os benefícios monetários que esse “céu” traz à Terra eclesial são abundantes...).
Também, claro, muita fé dos crentes que encheram o recinto. Umas dezenas de milhar!
Quanto a Fátima, já foi tudo dito e quem quiser acreditar no fenómeno, tem toda a liberdade de o fazer. Mas já provámos aqui que tudo não passa de um fenómeno – ou, mais precisamente, um epifenómeno, tendo o clero de Ourém manipulado as mentes daquelas três crianças pobres e famintas, nada se importando com a saúde delas, “deixando” morrer, logo a seguir às supostas aparições, Jacinta e Francisco (c.10 e 9 anos), enclausurando a que escapara com vida, Lúcia, para que ninguém a pudesse questionar verdadeiramente sobre os supostos factos, recorrendo ao método científico-empírico! Tudo camuflado! Assim convinha à Igreja local para atingir os seus objectivos de pôr Ourém-Fátima no mapa do mundo e da Igreja católica. E pasmem, senhores: conseguiram-no brilhantemente! (Sobre a inveracidade de Fátima, vejam-se os textos escritos, nos 13 de Maio anteriores, e a dezena de textos onde se analisou, partindo do interior das supostas mensagens, toda a falsidade de que estão imbuídas, logo, toda a inveracidade delas, impossíveis de ser atribuídas a um ente superior, superior em inteligência e bom senso. Ainda soam aos nossos ouvidos frases absolutamente absurdas, como aquela que rezam os devotos, no terço: “Ó meu Jesus perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno e levai as almas todas para o céu principalmente as que mais precisarem.” É que o fogo do Inferno não há nenhuma prova credível de que exista! E se se trata de levar as almas todas para o céu, são todas e não só as que mais precisarem. Aliás, quais as almas que mais precisam de ir para o Céu? Que non-sense, santo Deus de todos os deuses!)

sábado, 11 de maio de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (25/?)

 

    Ficava, no entanto, o colossal, o tremendo problema do sofrimento e da dor, da doença e da morte que nem o próprio Deus poderia evitar para não se virar contra Si mesmo que criou a Natureza e nela todos os seres vivos com o inexorável destino de serem moléculas agrupadas num certo ser, durante um certo tempo e, logo depois, novamente moléculas disponíveis para formarem outros que sempre estarão na calha para entrarem na roda da vida! Pois, a haver milagres, qual dos doentes seria curado e qual se deixaria morrer? E dos que morriam, quem seria ressuscitado e quem se deixaria apodrecer? Nisto realmente eu não pensei ao anunciar o Reino de Deus! Aliás, os estrondosos milagres que aparecem narrados nos evangelhos são todos falsos, irrealizáveis aos olhos do poder divino, pois estariam feridos de total injustiça, a nível planetário, ao ter-se seleccionado este ou aquele, esta ou aquela, não curando todos os doentes do Planeta, não ressuscitando todos os mortos de todos os tempos! Por isso, nos prodígios que realizei, tive sempre muito cuidado em não alardear, mas apenas sugerir que Deus interferia através de mim, sendo eu, com as minhas limitações de humano, no tempo e no espaço e nas emoções, que decidia se curava este ou aquele, remetendo tudo para o campo da fé: “Se acreditas, és curado! Eu quero que sejas curado: fica curado”! Então, caso as minhas capacidades curandeiras fossem suficientes, aliando-as à fé na cura do contemplado, o “milagre” acontecia. Se não, era o fracasso como me aconteceu com muitas tentativas falhadas que obviamente não vêm narradas nos evangelhos... Objectivamente, claro que não houve milagre nenhum, nenhuma intervenção divina; portanto, nenhuma ressurreição, nenhuma espectacular multiplicação dos pães e peixes ou água transformada em vinho e outras “barbaridades” poéticas que podem ter significado simbólico, mas que não foram, não podiam ter sido reais. Sem qualquer dúvida! Mas quem quiser acreditar, evidentemente que está no seu direito. É uma liberdade que não se poderá retirar seja a que indivíduo for. Na liberdade do indivíduo, nem Deus pode intervir. Se interviesse, deixava de ser livre...