sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (16/?)


    Sem perceber onde eu quereria chegar, Nicodemos pensou que melhor mesmo seria aguardar pelo meu ministério e também ele, integrando-se na multidão de ouvintes, encontraria lá as respostas que tão dramaticamente procurava. Em boa verdade, nada mais lhe interessaria saber ou ter na vida, uma vida plena, homem rico e abastado que era. Adorava a luz do Sol espraiando-se todas as manhãs no verde das árvores, nos cumes dos montes, nos horizontes a perderem-se no azul do céu! Adorava os prazeres dos mais comezinhos do comer e beber aos mais sofisticados, não perdendo uma oportunidade de se deixar levar ao céu de todas as delícias por amores que lhe iam acontecendo na vida, neles incluindo os da sua bela Herodíade! Adorava os segredos matemáticos, os mistérios de um Universo desconhecido que se ia descobrindo para além da beleza das estrelas! Mas o Além totalmente desconhecido, um Além bem oculto por Deus ou pelos deuses aos seus olhos, esse é que não dava sossego nem paz à sua alma de crente-não-crente inveterado. E, então, pensava que talvez o Reino de Deus fosse o reino celestial no qual os indivíduos entrariam depois da morte, após o julgamento no Dia do Juízo Final. Mas como? − perguntava-se. − Depois de uma ressurreição do corpo e da alma, conforme diziam os filósofos persas, ou apenas pela entrada da alma em tal Reino que, por não ser corruptível como o corpo, fosse “exigir” o seu direito à imortalidade, segundo o pensamento grego? Ou talvez fosse apenas um Reino social de justiça perfeita, sem pobreza, sem ricos que tudo tinham e pobres que morriam de fome, vindo Deus a ocupar-Se dele, já que era Senhor do Céu e da Terra, e já que o Homem nunca conseguiria, por si só, implementar tal justiça...
    Vendo-o preocupado, revelei-lhe:
    − Para te ser sincero, Nicodemos, apesar das parábolas que te contei, não sei bem o que é o Reino de Deus. Nem tão pouco se ele está iminente. Tudo leva a crer que sim, que algo de muito estranho esteja para acontecer. Basta ler as Escrituras e “ler” os tempos que correm. Mas eu vou aprofundar tal ideia para depois poder transmiti-la às multidões. Talvez então tenha uma melhor explicação para ti, uma melhor explicação para mim! O deserto, Nicodemos! O deserto chama-me! O deserto é para onde tenho de ir que é lá, no silêncio profundo do calor abrasador e das noites gélidas, que Javé me inspirará, que o Espírito insuflará na minha mente toda a sabedoria, todo o saber que irei transmitir a todos para a todos apelar à conversão e ao arrependimento, preparando-se assim para a vinda do Reino e o fim próximo dos tempos.
    − Parece que ainda não ouviste falar num tal João, o Baptista, que, dizendo-se enviado de Deus, anda pregando junto ao Jordão exactamente esse fim dos tempos e convida as multidões ao arrependimento, oferecendo-lhes um baptismo nas mesmas águas. Sabes quem é?
    − Não, mas irei ter com ele depois que deixar o meu retiro. Agora, adeus! Vou para o deserto. Vou à procura da Sabedoria de Deus, a sabedoria de meu Pai, para que possa dar resposta à tua... vida eterna! Vou tentar encontrar-me a mim próprio e à missão que sinto ter de desempenhar mas não sei como, nem quando, nem por onde começar. Tenho apenas algumas ideias: o Reino de Deus, a restauração da nação de Israel e das suas doze tribos, o fim dos tempos, a alegria para os pobres, essa vida eterna que me “encomendaste”! Voltarei a ler o livro da Sabedoria que também te aconselho, embora não pertença ao cânone definido pelos nossos doutos Doutores. Afinal, não sei se conseguirei melhores ideias de imortalidade e de Reino de Deus do que aquelas que o autor desse lindo livro escreveu, ainda não há muito tempo.
    − Vai, meu filho − disse-me Nicodemos carinhosamente e em tom paternal. − Vai! E, depois, deslindar-me-ás a “pérola preciosa” que procuro e pela posse da qual darei toda a minha riqueza, toda a minha vida, não me perdendo para sempre no reino das trevas ou no Hades, a única solução que os filósofos gregos encontraram para o Além da morte, acreditando na imortalidade, mas não sabendo como realizá-la, nem quando, nem onde.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (15/?)


A vida adulta
I
O regresso à Pátria
    Depois de uns longos vinte anos a aprender e a crescer naquelas sabedoria e graça diante de Deus e dos Homens, pelos reinos do Sol nascente, regressei definitivamente à Palestina, hospedando-me em casa de Nicodemos, após ter ido matar saudades dos pais Maria e José e dos irmãos que se ficaram por aprendizes de carpinteiro ou se industriaram nas artes da pesca: Tiago, José, Judas e Simão. E também das irmãs, as duas que haviam casado e que moravam ali na cidade, as outras que ainda estavam em casa dos pais.
    E vinha cheio de sonhos, cheio de ideais. Na minha mente bem conhecedora das Antigas Escrituras, caldearam-se outras crenças, outras religiões, ciências ocultas, magias e segredos, material que iria utilizar na vida pública a começar muito em breve, pois os tempos estavam prenhes e tornava-se necessário dar-lhes corpo e alma, como anunciara ao meu patrono logo que chegara:
    − Sinto que o fim dos tempos está próximo, Nicodemos. Não posso perder mais tempo! Tenho de ir! Javé, Pai do Céu e meu Pai, quer que eu parta! Quer que eu vá por toda a Galileia, a Judeia, a Samaria, a Pereia, por todo o Israel, anunciar a iminente vinda do Reino de Deus. Não tenhas dúvidas: os tempos vão acabar, a vida na Terra chegou ao fim, o grande Juízo Final aproxima-se; e quem não se arrepender e não estiver preparado não conseguirá livrar-se da morte, a morte eterna. Javé-Deus incumbiu-me da missão de transmitir esta mensagem que também é anúncio de uma Boa Nova: a vinda do seu Reino, um Reino de justiça, de paz, de amor e fraternidade entre os Homens. Se não cumprir tal divina missão, serei réu sem perdão, maldito de meu Pai, digno de arder para sempre na geena que nunca se extingue!
    Falava com ardor, como se fora possesso. E Nicodemos interrogou, intrigado:
    − Mas... o que é o Reino de Deus?
    − Não posso responder-te numa palavra só − retorqui-lhe. − Vê se entendes!
    E expliquei, argumentei, recitei Escrituras, fazendo lembrar a Nicodemos aquela voz que se levantara por detrás das colunas do Templo, havia já vinte anos, quando nos conhecemos:
    − O Reino de Deus é como... a boa semente que caiu no campo e “lutou” com o joio..., o pequeno grão de mostarda que dá uma grande árvore..., o fermento que leveda toda a massa..., o tesouro escondido..., a pérola preciosa..., os peixes bons que na hora da recolha se separam dos que não prestam...
    − Não entendo essas tuas comparações, essas parábolas, esse teu Reino de Deus. Ou se quiseres, entendo-o de várias maneiras como muitos certamente o entenderão se não fores mais claro. Entenderão uns que tal Reino é realmente Deus que desce do Céu onde o seu Reino é permanente e eterno, para governar a Terra. Outros...
    − Não vês tanta pobreza, tanta injustiça, tanto egoísmo no coração do Homem que não socorre o seu irmão? Não vês que se não for Deus a vir, o Homem não consegue, ambicioso que é, criar um mundo de igualdade e de solidariedade, de amor ao próximo? Lembras-te do que eu disse, ainda jovem, no Templo: “Esqueçamos o Olho por olho e dente por dente das velhas Escrituras e pensemos em fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem a nós”?
     − Sim. Mas tu já sabes, Jesus, que o que eu pretendo não é um reino de Deus ou dos Homens, um reino na Terra com poderes e riquezas. Riquezas, já as tenho quanto baste. O que me importa é a... vida eterna, a vida para além da morte. Conseguir-me-ás então uma resposta?
    − Quando ensinar nas sinagogas, nas praças, nas ruas, pelos bairros, nas colinas, todos ouvirão a Boa Nova, ricos e pobres mas sobretudo estes pois são eles os desprezados pelos grandes do mundo. Quanto à “tua” vida eterna, já mencionada nas Escrituras, no Segundo Livro dos Macabeus de há cerca de 150 anos, com a esperança na ressurreição da carne: “Vale a pena morrer pela mão dos Homens, quando se espera que o próprio Deus nos ressuscite... para a vida”, mas sobretudo no Livro de Daniel: “Muitos que dormem no pó despertarão: uns para a vida eterna, outros para a vergonha e infâmia eternas.”, espero conseguir não defraudar as tuas expectativas. Apresentar-te-ei a vida eterna no Céu, com Deus-Pai que acolherá benevolamente os justos, não fazendo mistério como faz o Livro da Sabedoria, escrito há uns 50 anos, quando diz que os justos “esperam a imortalidade”, que “A imortalidade faz com que a pessoa fique perto de Deus” e que “A imortalidade está na união com a sabedoria”, mas indicando o caminho certo para a alcançar. Não sei é se te convencerei, se convencerei o mundo de que a Verdade esta nas minhas palavras...

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (14/?)



VI
Pelas terras do Sol nascente
    Contactando e convivendo com confucionistas, budistas e hinduístas, foi no budismo e nas suas belas histórias que mais me inspirei para caldear os ensinamentos relatados nos evangelhos, indo da teoria da iluminação à compaixão, ao amor ao próximo, à libertação das coisas terrenas que são a fonte de todo o sofrimento, não enveredando no entanto pelo caminho das reencarnações como forma de aperfeiçoamento e de atingir o nirvana ou a felicidade absoluta, preferindo recriar o meu Céu e o correspondente Inferno, o meu Pai que está nos Céus, a minha vida eterna. Foi portanto aos ensinamentos de Buda, séc. VI-V a.C., também inspirados nos sagrados livros dos Vedas, que fiquei a dever o essencial da mensagem evangélica: “Ama o teu próximo como a ti mesmo”; mas também o amor aos inimigos, elegendo a compaixão como lema do relacionamento humano, assim como o não querer aglomerar riquezas na Terra que facilmente se corrompem, preferindo acumulá-las no Céu onde permanecerão para sempre... Foi também no budismo e com os seus monges que aprendi a técnica da imposição das mãos, como tradicional método de transmitir a energia universal curativa que existe no ser vivo que é o Homem, explicando-se assim algumas curas que realizei, impondo as mãos, solicitando àquele ou àquela que ia ser curado ou curada que tivesse fé: fé na sua cura, obviamente: “Vai, a tua fé te salvou!”, mesmo que a atribuísse a uma força divina...
    Dos sagrados livros dos Vedas retirei o conceito da trindade divina, com Vixnu, Brama e Shiva, trindade que iria deixar envolta em mistério, nela fundamentando João a sua cristologia, fazendo-me dizer: “Quem me vê a mim vê o Pai” e “Enviar-vos-ei o Espírito”. É uma trindade óbvia, com um Pai, um Filho e um Espírito unindo-os, e que seria mais tarde imposta como dogma, com o imperador Constantino, em 325, três séculos passados sobre a minha morte, no concílio de Niceia.
    Na China, tive conhecimento dos ensinamentos de Confúcio, filósofo contemporâneo do indiano Buda, e dos princípios da sua escola com as ideias de altruísmo, sabedoria moral, integridade, justiça, rectidão e honradez, bem como das teorias do taoísmo que se mesclavam com as do budismo e as do hinduísmo. Mas se o “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti” está subjacente à filosofia do budismo, do confucionismo, do bramanismo, a fraternidade e igualdade entre os Homens eram também apregoadas por filósofos gregos e romanos, defendendo Pitágoras (séc.VI a.C.) o perdoar aos inimigos, Platão (séc. V-IV a.C.), a tolerância, o humanismo e a virtude, Aristóteles (séc. IV a.C.), o amor e a justiça como base das sociedades, Séneca (séc. I), o domínio das paixões e dos prazeres mundanos, defendendo os escravos ao proclamar que todos os Homens eram iguais e que todos se deviam amar uns aos outros numa grande fraternidade universal.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (13/?)

V
Um convite irresistível
    Então, dando corpo a tal inspiração, acabadas que foram as discussões no Templo, convidou-me para sua casa. Falou ele, repetindo as perguntas para as quais pretendia resposta. Ouvi eu atentamente. E, já receoso de não poder corresponder às esperanças que em mim começavam a ser depositadas, retorqui, quase me escusando:
    − Sou ainda muito jovem e faltam-me muitos conhecimentos, senhor! Toda e qualquer mensagem que eu queira transmitir ao mundo terá, para ser aceite pelas multidões, de ser acompanhada por muitos sinais, muitos feitos extraordinários, sobretudo curas tidas por milagrosas, como fizeram os nossos profetas, desde Moisés a Daniel, ao grande Elias que, mesmo morto, ressuscitou outro morto, quando o depositaram no seu túmulo: “Aconteceu que o morto, ao tocar nos ossos de Eliseu, voltou à vida e pôs-se de pé.”, conta-nos o Segundo Livro dos Reis, embora duvide fortemente que tal tenha acontecido.
    − Tens toda a razão, meu rapaz! − continuou ele. − São necessários milagres! E para essas ciências do oculto e das mezinhas que curam todas as doenças, quem sabe, mesmo ressuscitam mortos ou os acordam novamente para a vida, não haverá melhor do que as culturas, as filosofias e os conhecimentos dos orientais. Se quisesses, numa próxima caravana de comércio de meu pai, poderias ir connosco e por lá ficarias, preparando-te, até sentires que a tua hora tinha chegado para iniciares a pregação de uma nova mensagem ao mundo, mensagem onde certamente encontraria aquilo que procuro... Agrada-te a ideia?
    Quase fiquei sem palavras, ouvindo tal convite que me parecia caído do Céu! Que aventura! Sinceramente, eu detestava trabalhar como carpinteiro na casa de meu pai onde não passaria, nunca na vida, de um simples, mesmo que fosse bom ou excelente, carpinteiro! Eu ambicionava mais do que vida tão comezinha. Aliás, embora jovem, já sentia dentro de mim um desejo incontrolável de cumprir uma missão desconhecida, envolta num mistério que necessariamente teria de desvendar, tendo sido esse desejo que me fizera subir ao Templo para orar, ouvir, tentar encontrar o caminho, afastando-me dos pais que certamente não entenderiam tal desassossego na mente inquieta do filho adolescente. Por isso, grande sorriso nos lábios, respondi:
    − Oh, se me agrada! Creio que o senhor foi posto por Javé no meu caminho para o iluminar e dar-lhe o rumo que já faz tempo andava procurando. Pois, que vida seria a minha ocupando-me apenas de mesas e cadeiras, portas e janelas na banca de carpinteiro de meu pai?...
    Então, logo ali combinámos a despedida de pais e irmãos, a caravana, a data da partida. O meu outro irmão, o Tiago, já ia nos onze anos e ocuparia com maestria o meu lugar na banca de carpinteiro e assim quase nem se daria pela minha falta. Foi argumento que utilizei para convencer um pai renitente e uma mãe chorosa por “perder” o seu filho mais querido, o primogénito que todas as mães judias tinham como preferido.
    E assim aconteceu a minha saga pelo Oriente, percorrendo a Índia e a China, instalando-me por fim nos mosteiros do Tibete, ficando vários anos a encantar e a encantar-me, a aprender segredos da Terra e do Céu...

sábado, 19 de janeiro de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (12/?)

    E foi numa das vindas a Jerusalém para visitar e engravidar mais uma vez a sua bela Herodíade, obedecendo ao preceito divino do “Crescei e multiplicai-vos!” que Nicodemos, subindo ao Templo para participar com os outros membros do núcleo sacerdotal e do Sinédrio, o sumo sacerdote à cabeça, na discussão das Escrituras e Leis, assistiu ao inesperado encontro com o jovem ainda imberbe que espantou a todos com o seu inusitado saber: eu!
    “Eureka!” − disse Nicodemos para consigo. “Encontrei! Encontrei!” – repetiu na sua língua, o aramaico. “Este é aquele que me irá descobrir a solução, me irá dar a resposta às tremendas dúvidas que há muito me atormentam!”
    Dotado de invulgar inteligência, Nicodemos não conseguia aceitar como única a religião judaica baseada na aliança que o povo de Israel fizera com Javé, tudo Javé determinando através dos seus profetas que escreviam leis e orações, salmos e cânticos, histórias e oráculos. Sabia que, para além desta, havia outras “verdades” arrogando-se também de divinas, encontrando-se uma delas na rica mitologia grega que fora adoptada pelos romanos, com todos os seus deuses a comandarem os destinos dos Homens, obedecendo, quisessem ou não, ao supremo que pontificava no Olimpo, Zeus para os gregos, Júpiter para os romanos. Estaria, pois, perante apenas uma versão da componente religiosa do Homem. Assim, de modo algum se poderia limitar a um Javé e às Suas inspirações, bonitas e de encantar umas, cheias de ódio e de vingança outras: “Executa a vingança de Javé!”, bradava o lendário Moisés do alto do seu intrépido comando, em Números e no Levítico.
    Apesar do muito dinheiro e da vida folgada, da bela mulher que lhe ia dando lindas crianças, nada lhe aliviava o pensamento do além da morte, pensamento que já havia ocupado muitos dos antigos filósofos, escritores e poetas, tanto das culturas tibetanas, chinesas e indianas, como das civilizações contemporâneas da Escritura, em que o deus Baal dos povos mesopotâmicos, sírios e persas lutava contra Javé, Deus único de Israel. E, embrenhando-se pelos pensadores mais recentes grego-latinos, lembrava-se da barca de Caronte que, na mitologia grega, transportava as almas dos mortos ao Reino do Hades e cujo fim obscuro não conseguia entrever ou compreender de modo a sossegar a sua ainda viva... Em certas noites, entrando no sonho, já se via em tal Reino sem saber o que fazer para se livrar da condenação eterna a umas trevas que lhe pareciam inevitáveis e sem alternativa. E voltava a perguntar: “Que tempo para além do tempo? Que respostas nos dão os que já partiram? Que segredos nos são escondidos pelos deuses ou pelo Javé das Escrituras que só muitos séculos depois de Se ter revelado a Moisés na sarça ardente, outorgando-lhe as Tábuas da Lei, inspirou o profeta Daniel para falar − duas frases apenas! − sobre a vida eterna? Afinal, o que me espera, o que espera o Homem depois da morte?” E mais contundentemente, quase as lágrimas lhe brotando de raiva por não ter ninguém a dar-lhe uma resposta: “Porque não vêm cá os que já partiram dizer-nos com clareza, e não através de sonhos ou inspirações sem qualquer credibilidade, digam-se ou não provindos de Deus, como é esse Além onde eles já há muito se encontram e donde parece não haver retorno?” Enfim, invectivando o Céu ou os deuses ou o único Javé, em altissonante brado: “Porque não falais, ó Vós que tendes da Eternidade o mando e o segredo?” Filósofos de outros tempos, outras culturas, falaram em mitos como o de Sísifo que fora condenado pelos deuses a carregar por toda a eternidade uma pedra, subindo uma montanha e, chegando ao cimo, ela se lhe escapava das mãos vindo ter ao fundo donde novamente e para sempre a teria de erguer, percorrendo o mesmo caminho. Mas tal castigo eterno revelava-se de tremenda injustiça já que a falta havia sido cometida num dado momento do Tempo por um ser subjugado à lei implacável desse mesmo Tempo. Nenhum deus poderia ser tão cruel, tão injusto, tão implacável! E, sendo mito, não interessava a ninguém, muito menos a Nicodemos que buscava tão somente a Verdade!
     Daí, a sua inspiração, uma espécie de revelação, um clic de luz na mente, ao ouvir-me falar com inusitada sabedoria: “É isso: vou ocupar-me da sua educação, vou incumbi-lo de me encontrar uma resposta para tão magnas perguntas, resposta que será a única a merecer ocupar o nosso pensamento, pois condicionará, nesta nossa vida terrena, toda a actividade do corpo e da alma, da physis e da psyké! − dizia em grego para se fazer compreender melhor a si mesmo – em ordem a alcançar a outra no Além eterno!”

sábado, 12 de janeiro de 2013

Quem me chamou Jesus Cristo? O Menino Jesus existiu? (11/?)

IV
A inspiração de Nicodemos
    Quando regressado de Roma, ainda mesmo antes de casar, já Nicodemos, com o seu prestígio e saber, se impunha na classe sacerdotal e servidores do Templo, assumindo com naturalidade o título de fariseu, não pretendendo no entanto guindar-se a sacerdote ou mesmo a sumo sacerdote, o que continuava a ser de cunho hereditário, sendo apenas elegíveis para tão alto cargo os descendentes do longínquo Arão, o irmão de Moisés. Ora não havia tal “tradição nobiliárquica” na família que tinha enriquecido e se tinha notabilizado à custa do grande esforço e talento do pai. Por curiosidade, refira-se que Caifás era o 68º sumo sacerdote a contar de Arão, aquando da paixão e morte a que me sujeitaram.
    Assim, sempre que se encontrava em Jerusalém, subia ao Templo para participar activamente nas discussões sobre a interpretação da Lei e das Sagradas Escrituras. A discussão mais acalorada e que gerava maior celeuma era sobre a problemática do trabalho ao sábado, discutindo-se, por exemplo, se era trabalho dar comida aos animais, preparar a sua própria comida, levar tachos e panelas para ir picnicar fora de casa com os vizinhos ou amigos. E ninguém julgue que estas triviais questões não criavam dores de cabeça àqueles sábios intelectos. No caso do transporte das panelas e tachos, os doutos fariseus chegaram à conclusão de que o melhor mesmo era unirem as casas de amigos e vizinhos por tabiques ou paredes para que fosse todo o conjunto considerado apenas uma casa onde então já poderiam circular à-vontade sem cometer pecado contra Javé ou transgredir a Lei mosaica. Difícil Lei, não era? Aliás, havia histórias ainda mais caricatas! Dizia-se que um tal Elisha ben Avhuah, nome meio árabe meio judeu, certamente semita, desafiou a Escritura e com ela Javé, cometendo uma gravíssima falta, pecado dificilmente perdoável, ao decidir dar um belo passeio, em dia de sábado, montado no seu cavalo branco, pelo Monte do Templo; é que montar a cavalo era considerado trabalho... Assim não o entenderia, no entanto, Elisha que, de espírito mais evoluído e rebelde devido à sua ainda juventude, acharia ridícula tal proibição ou tal interpretação da Lei por sacerdotes ou doutores que, não podendo eles possuir aquele luxo, também não permitiam aos outros que dele usufruíssem em dia de sábado ou no Dia da Expiação... Conta-se ainda que os mais radicais, entre eles os essénios, praticamente não se mexiam em todo o dia de sábado, nem sequer comendo, trabalho já considerável, para não terem de sair a dar desaguamento aos produtos rejeitados pelo organismo após lauta refeição, ficando o problema desse modo resolvido até ao dia seguinte...
    Nicodemos, com a sua formação ecléctica greco-romana, apesar de fariseu – e os fariseus juntamente com os essénios eram considerados grupos piedosos e portanto cumpridores da Lei até ao mais ínfimo pormenor – via nestes esmeros de interpretação tempo perdido e um coarctar demasiado forte das liberdades da pessoa, o que o incomodava fortemente. Mas era voz que clamava no deserto, sentindo-se sem força nem apoio quer dentro do próprio clã farisaico, quer no meio daquele considerável e venerando mundo de anciãos, arvorados em defensores da Lei e das tradições. Aliás, quando a interpretação se tornava mais difícil, era à Tradição que se recorria para continuar nos usos e costumes por todos aceites como sendo a vontade de Javé. Pelos séculos fora, será também à Tradição e suas piedosas invenções que irão recorrer a Igreja e os cristãos para doutrinarem sobre o seu Cristo, a sua Virgem, os seus santos, os seus mitos.
    Se quiséssemos mais exemplos de trabalhos proibidos aos piedosos judeus no sábado ou no Dia da Expiação, poderíamos mencionar: apanhar lenha, acender uma fogueira, preparar a comida, pôr a mesa, tratar um arranhão feito a apanhar a pecaminosa lenha... Eram trabalhos, eram pecado contra as ordens de Javé dadas através do seu servo Moisés e que este, segundo a Tradição, compilara nos livros da Torá. Da minha luta travada contra o poder religioso instituído a respeito de tão mesquinhos preceitos, ficou para a posteridade a frase que me celebrizou: “O sábado foi feito para o Homem e não o Homem para o sábado.”

sábado, 5 de janeiro de 2013

Interregno forçado pelo escândalo

O que se passa com a Fé dos Homens?!
“Na passagem do Ano, em Luanda, a IURD organizou um evento num estádio de futebol com capacidade para umas 40 a 50 mil pessoas. Compareceram mais de 250 mil! No afã da entrada, a tragédia: muitos se atropelaram e os mais fracos ficaram esmagados e sufocados pelos que foram forçando a passagem.”
Esta a notícia. Este o escândalo! Mas... como é possível? Como é possível existir uma seita religiosa, pelo que se sabe, fundada e dirigida do Brasil por um todo-poderoso bispo, de nome Macedo, possuidor de mansões luxuosíssimas, vivendo de escandalosos milagres encenados nas suas múltiplas igrejas onde incansáveis “pastores” os dinamizam e promovem com o apoio de bem treinados actores? Depois..., depois..., quanto maior a dádiva à organização, maior o milagre e mais possível o milagre se tornará!
Isto certamente explica as 250 mil pessoas que não só tiveram conhecimento do evento como se decidiram a ir e... se decidiram a contribuir generosamente... À espera que o milagre se realizasse nas suas vidas! Talvez, quem sabe, o euromilhões!!! Isto explica os seus tentáculos como polvo, sobretudo no Brasil, mas também em outros países nomeadamente os de expressão portuguesa (Veja-se sua história na wikipedia). E isto explica as mansões luxuosíssimas do bispo Macedo e tudo o mais...
Ah, como é fácil enganar os crentes! Ah, como sempre foi fácil enganar os crentes! Ah, como é fácil enganar os peregrinos com as supostas mensagens da suposta Virgem Senhora de Fátima! (E de outras Virgens e santos por esse mundo de santuários fora!) Ah, como é fácil enganar todos os crentes de todas as religiões existentes à face da Terra! Os supostos milagres sempre a cativar fiéis!...
Mas não acham que este status quo é um escândalo? Que é um atentado à racionalidade, característica que distingue o Homem dos outros seres vivos? Não acham que tarda em chegar a Luz da Ciência, a Luz da Crítica, a Luz do Conhecimento a todos os crentes que se deixam ludibriar assim tão facilmente alimentando tantos “fare niente”s, pois vivem de enganar os outros, com palavras quentes e de grande retórica? Tais os astrólogos, os adivinhos, os cartomantes e outros charlatães ou curandeiros que até falam “em nome da Ciência”?
É caso, para rezar: “Meu Deus, dai a Luz aos crentes para que não creiam em vendilhões de inverdades vendendo-as como se fossem as mais puras verdades à face da Terra! E, cúmulo da hipocrisia, em teu nome, meu Deus! E afirmando-se como defensores de Uma Bíblia dita inspirada por Ti, mas que – todos os intelectuais e estudiosos sabem! – não foi inspirada coisa nenhuma!!!”
Bem mais simpáticos são as “Testemunhas de Jeová”! Também enganam como todos os outros mentores religiosos. Também dizem falsidades como sendo as mais puras verdades. Tudo explicado na Bíblia e pela Bíblia, o livro sagrado, o livro escrito por Deus, através dos profetas! Mas, pelo menos, parece formarem pessoas boas, não lhes levando muito dinheiro por isso, não têm santos, nem fazem milagres... Simplesmente, explicam a “palavra de Deus”, explicam a Bíblia nos seus Salões (igrejas) onde promovem reuniões semanais. E provam, citando a Bíblia, que a Bíblia é o livro dos livros, o livro sagrado: “Todas as coisas escritas outrora foram escritas para nossa instrução, para que, por intermédio da nossa perseverança e por intermédio do consolo das Escrituras, tivéssemos esperança”, disse Paulo na sua carta aos Romanos. Portanto... Óbvio que a Bíblia não se pode provar a si mesma, como sendo de origem divina. Mas não é que conseguem convencer muitos de que a Bíblia é a fonte de toda a Verdade?! Quanto à impossibilidade da inspiração divina da Bíblia, leia-se o que aqui já foi anteriormente escrito sobre o assunto. O Deus que tal inspirasse seria uma aberração total quanto a inteligência, conhecimentos, humanismo... Logo, um Deus impossível! Logo, um Deus Não-Deus!!!